Construindo Victoria – teaser

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E para vocês não me abandonarem como eu abandonei este blog… eis o primeiro capítulo em que aparece minha Victoria. Que tal? Ah sim, a imagem que ilustra este post, foi a imagem vencedora de minha batalha de capas… Contagem atual (antes da sessão de hoje): 41.200 palavras.

***

Victoria – 2013

 

Acordei num lugar estranho. Tenho a mais absoluta certeza de que este não é meu quarto, apesar de estar todo mobiliado com as minhas coisas. Meu baú está bastante enferrujado, meus livros amarelados, minha escrivaninha está coberta de poeira. O quarto todo está coberto de poeira, mas foi mexido recentemente. Não há traços de poeira em meu baú, e as roupas ali são, bem confeccionadas. O céu está bem claro. A maior parte dos painéis de madeira estão fechados, mas eles não cobrem toda a superfície do vidro das janelas em arco, e através destas meias luas o sol lança seus raios sobre o aposento. Aproximo-me com cuidado da janela central, e seguro o painel de madeira. Ainda estou bastante zonza, e não sei por quanto tempo fiquei desacordada, mas não estou mais em Londres.

Minhas últimas lembranças estão enevoadas. Lembro de tentar fugir e não conseguir correr. Lembro de entrar numa casa desconhecida, e lá me encolher, trêmula e exausta. Lembro-me de um homem de olhos claros e ameaçadores. Sei que estava em Londres, prestes a comemorar a virada do século. Hugh não estava comigo. E agora aqui estou, temerosa de abrir uma simples folha de madeira e ver o que o mundo me reserva.

Abro uma fresta do painel de madeira, e dirijo meu olhar para o lado de fora. Não há nada aqui que eu reconheça. Um grande edifício, com belas janelas e rococós toma quase toda a minha vista. Há muitas pessoas andando no que eu suponho ser uma praça, que tem a estátua de um senhor robusto apoiado em uma pequena mesa, recheada de livros. Não consigo ver as feições da escultura, ou nenhuma placa distintiva. Vejo um palanque negro, com letras brancas, próximo ao belo edifício, que diz: “Paço da Liberdade”. O que quer dizer que, onde quer que eu esteja, o idioma falado é o português. Escancaro o painel. A claridade é bastante intensa, e meus olhos levam um certo tempo para acostumarem-se com a nova luz. As pessoas abaixo estão vestidas de maneira bastante casual, as mulheres mostrando uma quantidade considerável de pele, e apenas alguns homens vestem-se de maneira próxima ao que estou acostumada.

Pela roupa das pessoas posso dizer que o clima está ameno. Vejo muitos braços de fora. Ninguém usa luvas. Certamente estou em um país latino, a julgar pelo desleixo no vestir. Estou num edifício de dois andares. Abaixo de mim o que parece ser uma public house ou restaurante, as mesas tomando boa parte da praça. Algumas pessoas sentam-se em meio aos canteiros de flores que adornam a fachada do prédio a que chamam Paço, e o ir e vir parece bastante constante. Inspecionando a rua à esquerda, percebo alguns edifícios com vários andares, muito mais do que estou acostumada. São prédios estreitos, recortados por janelas quadradas, como caixas. A rua não é feita de pedras, mas de uma substância negra e lisa, com alguns sinais em branco pintados em sua superfície. Próximos à calçada, algumas máquinas bastante elaboradas, que parecem ser uma evolução das bicicletas, e um alto barulho segue outras máquinas, que parecem vagamente com as carruagens sem cavalos que estavam em voga entre a classe rica de Londres pouco antes de minhas lembranças desvanecerem. Isso me diz que acordei após um longo período de torpor. Muito mais tempo do que imaginei. A fome que sinto parece ser testemunha disso.

Procuro entre as roupas que estão no baú uma que pareça remotamente com a moda local. Sem sucesso. Meus vestidos todos parecem pesados, sufocantes, perto dos modelos despojados que são usados neste local e nesta era. Não tenho muita escolha. Escolho um vestido de noite simples, negro, sem ancinhos. O corpete se ajusta bem a meu corpo, e as botas são bastante confortáveis. Uso apenas uma saia de cetim leve e uma anágua, e nenhum petit-coat, numa tentativa de parecer menos estrangeira. Percebo que os estilos são bastante variados, e isto deve agir em meu favor. Arrumo meus cachos num penteado simples e hesito antes de colocar as luvas. Mas o hábito fala mais alto. De toda forma, sinto-me quase nua nesses trajes esparsos.

Sento na cama que me foi reservada neste aposento. Um móvel simples, mas forte, de madeira, e um colchão bastante confortável, mas resistente. Procuro entre as minhas coisas algo que indicasse a época em que estou, ou o lugar onde esto. O aposento em si possui detalhes bastante interessantes. Um bulbo de iluminação elétrica, ligado a um interruptor junto à porta, e um banheiro conjugado, com uma espécie de vaso com água ligado a um dispositivo de metal. O piso é de madeira, e as paredes são simplesmente pintadas de branco, sem sinal de papel de parede, mas todos o objetos são todos bastante familiares, da pena que uso para escrever ao último livro na estante, de madeira. O colchão certamente é uma invenção mais recente, recheado com um material que não me é familiar, mas nada nele indica sua idade, ou localização. Sua etiqueta está desgastada e nada mais é que um pano branco costurado sobre a fibra. Abro alguns livros, na esperança de encontrar uma missiva, mas todas as minhas buscas são infrutíferas. Terei de me aventurar do lado de fora. Mas vou esperar o sol se por. No escuro, talvez minhas roupas não pareçam tão esdrúxulas.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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2 respostas para Construindo Victoria – teaser

  1. isso, faz vontade mesmo… agora quero o resto 😛

  2. Kika disse:

    é a intenção…hehehe

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