Construindo Victoria – Prólogo e primeiro capítulo.

 Victorian London lampEu sei, eu sei, deixei o blog às moscas. Como eu disse que não faria. Mas estou bastante envolvida em escrever a história de Victoria, e ela ainda não chegou no estado de “se escrever sozinha” então acabo não entrando no blog, ou mesmo em outros sites com a mesma frequência de antes. Como pedido de desculpas, e uma demosntração do que ocupa meus momentos online, resolvi compartilhas as primeiras palavras desse meu arquivo, que conta agora com 32.600 delas. Dúvidas, sugestões, críticas, são todos bem vindos.

***

Prólogo

“Cuide bem dela!”. Só isso. Minha vida trocada por três palavras que não fazem o menor sentido. Ele tinha um sotaque afetado, estranho. Não só estrangeiro, era meio….antigo. E eu que pensei que Curitiba não fosse uma cidade violenta… agora estou aqui, largado numa viela escura e malcheirosa, banhado em lama e sangue, morrendo.

Não era pra ser assim. Tudo bem, minha vida não era assim tão interessante, mas eu tinha planos. Eu ia ser um rockstar, um dia.

Quem eu estou querendo enganar? Eu teria uma vidinha normal, funcionário público de dia, músico de bar nos fins de semana, com mulher e filhos. Eu queria ter filhos. Mas, estranho, eu acho que já devia ter morrido. Ele literalmente sugou a vida das minhas veias, o maluco, não antes de me colocar a nocaute. Bom, parece que não vou morrer hoje. Devo ter sido um dos sortudos. Melhor sair daqui antes que o maluco volte.

Volto para casa a pé, sem coragem de checar se minha carteira ou celular continuavam no bolso. Sujo, molhado, ensanguentado e puto da cara. Eu acho que esta não é a reação que eu esperava ter depois de quase ser assassinado. Eu devia estar com medo, não? Paralisado de pavor, ou tendo uma daquelas epifanias, onde eu descubro que minha vida é o máximo e blablabla. Mas não, eu tou puto. Queria encontrar aquele filho da mãe e arrancar a cabeça dele com as mãos. Seria mais fácil se eu soubesse como ele é.

Mas que diabos ele quis dizer com “cuide bem dela”? Não é o tipo de coisa que se diz para quem vai morrer! Quem é ela? Claro, eu estava de olho numa lourinha meio gótica que estava com as amigas no bar, mas ele não viu isso, viu? Ah!, não importa, vou tomar um banho e dormir, que nada mais está fazendo sentido.

 Deo – 2013

 Olá, meu nome é Deocleciano, e eu sou um vampiro. Ou é isso que cada poro do meu corpo diz no momento. Com certeza eu não estou mais vivo. Eu acabei de passar uma hora sem respirar, nem percebi. Procurei em vão sentir meus batimentos cardíacos, sem sucesso. Mas eu me levantei – eu dormi o dia inteiro – coloquei uma roupa e saí comprar uma cerveja. Ninguém nem piscou ao me ver na rua. Para o mundo eu continuo o cara normal, um jovem na casa dos 20 anos, num sábado à noite, atrás de algumas bebidas. Eu não mereço nem uma segunda olhada do caixa do supermercado. Por outro lado, cada um deles é interessante para mim agora. Minha visão ganhou novas lentes, por assim dizer. Mas isso é o de menos. Meu Deus, os cheiros. Eu sinto o cheiro de cada um neste lugar, posso dizer a marca de seu desodorante, sinto nuances em seu suor, e um cheiro pungente, quase visual, cobrindo todo e qualquer corpo. Um cheiro quente e delicioso.

“Vai querer sacola, senhor?” – o caixa está ficando irritado, eu acho que estava distraído. Pago as cervejase volto pro apartamento. Se é que posso chamar meu canto de apartamento. Ele é mais do que eu poderia esperar pelo preço que pago. É grande, tem dois quartos e uma “varanda”, que é uma janela grande com uma gradezinha em volta. Está bem localizado também, a uns 15 passos da faculdade. O banheiro já viu dias melhores, e a cozinha, bem, digamos que devia ser top de linha, lá nos idos de 1972. Eu não conheço nenhum dos meus vizinhos, e eles nunca reclamaram das festinhas que promovi aqui. Como será que eles se sentiriam ao saber que estão silenciosamente convivendo com um vampiro?

Eles iam rir da minha cara, lógico. Onde já se viu, vampiro, de verdade. “Andou jogando muito RPG, menino!” eu posso ouvir a voz irritante da síndica no meu ouvido. Não eles nunca acreditariam. Eu nunca acreditaria. E no entanto aqui estou, faminto, olhando pela janela para corpos pulsantes com cheiro de sangue, a cerveja choca no copo.

Deixo o copo na cozinha e vou até o banheiro, pegar as roupas que usei ontem, tentar organizar as ideias. Eu não poderia matar alguém para comer, poderia? E, no entanto, talvez a fome me vença. Foco, guri, vamos dar uma olhada nessas roupas. Você assistiu todos os episódios do CSI, não é mesmo? Certamente o maluco deixou alguma pista… Olha só. Um papel. O sangue deve ter grudado ele na minha jaqueta. Droga, está todo manchado. De toda forma a única coisa que consigo tirar daqui é que o maluco era estrangeiro mesmo. E afetado. Das poucas palavras legíveis eu consegui decifrar dois “thou”, um “thee”, um “sayeth” e um nome. Victoria. Será que é dela que eu tenho que cuidar?

Concentra guri, teu trabalho agora é descobrir o que aconteceu contigo. Vejamos, fora o fato de eu ter perdido minha melhor blusa, acho que não tem mais nada nas roupas que possa me ajudar. Vamos ao ‘corpo de delito’. De onde surgiu todo aquele sangue? Eu tenho duas marcas bastante sugestivas na parte interna do pulso esquerdo e um corte gigantesco no pulso direito, praticamente cicatrizado. Um corte desse tamanho não deveria cicatrizar tão rápido, mas eu deveria respirar e ter batimentos cardíacos, então eu acho que entra no pacote. Eu sonhei com o ataque, u, homem de cabelos compridos correndo e também com um lugar estranho e uma mulher de olhos verdes. Isso pode não significar nada e eu não deveria ter nenhuma dívida com um agressor, mas eu sinto que devo cuidar dela. Seja ela quem for.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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