A Visit to Newgate meets The Ballad of the Reading Gaol

newgateTerminando minha jornada através do primeiro volume de Crime and Horror in Victorian Literature and Culture, dois dos nomes mais icônicos da literatura Vitoriana se encontram. A Visit to Newgate, foi escrito por Charles Dickens no início de sua carreira, sob o pseudônimo de “Boz, em 1836.. Já The Ballad of the Reading Gaol é uma das últimas obras de Oscar Wilde, publicada sob o nome: C.3.3 (Block C, Floor 3, Cell 3), e só ganhou  a assinatura de Wilde em sua sétima reimpressão.

Dentro do livro, ambas estão na Parte III – Punishment and Power e falam sobre o interior de uma prisão. Dickens visita Newgate (também conhecida como Gaol), em Londres, na região central da cidade, próxima de Old Bailey, ou Corte Criminal Central de Londres. É a prisão em que as execuções públicas ocorriam, e deixou uma forte impressão no jovem escritor e jornalista. Já Oscar Wilde canta a história de sua experiência em Reading Gaol, onde ficou por dois anos, condenado a trabalhos forçados por sodomia. A balada é inspirada na execução de Charles Wooldridge, um soldado que matou sua esposa.

Separadas por 62 anos, os textos são tocantes em muitos sentidos e impressionantemente similares. Comecemos com A Visit… Charles Dickens, nos conta com precisão jornalística sua visita à prisão, fazendo com que acompanhemos seus passos. Passamos por diversos portões e grades, até encontrarmos 4 alas que dão para um pátio, entramos na ala das mulheres. E lá, o primeiro aperto no coração.

Duas conversas entre prisioneiras e suas visitas. As visitas, encerradas numa espécie de jaula, as prisioneiras em pé, do outro lado. Em uma das jaulas uma velha senhora visita sua filha, na outra a filha, prostituta, visita a mãe. Dickens chama a atenção para a falta de sensibilidade nas conversas, as emoções suprimidas ao ponto da não existência. A filha perdendo o interesse no que a mãe tem a dizer, a mãe sem demonstrar qualquer afeto pela filha.

Deixamos o pátio e entramos na cela. Boz se espanta ao ver que elas são limpas e iluminadas, as mulheres almoçando, 10 ou 12 por cela, seus colchões pendurados em pregos, cada uma envolvida em sua atividade, temerosas dos visitantes. Passamos pela “escola” região dedicada aos prisioneiros menores de 14 anos. E o segundo aperto no coração. As crianças se alinham para receber as visitas, as roupas em frangalhos, orgulhosos de sua situação. Dickens se choca com a imagem, e chama as crianças de criaturas irrecuperáveis, resultado do meio em que vivem.

Da escola à capela, de pedra bruta e sem ornamentos, com um sinistro canto onde o prisioneiro condenado à morte assiste à missa de seu próprio enterro, ou assim Dickens o imagina, com seu próprio caixão aos pés. E vamos enfim à ala masculina, dividida como a feminina. O que chama  a atenção do autor ali é o ócio dos prisioneiros, comparados com a eterna atividade do lado feminino.

E então o terceiro e maior aperto no coração. Encontramos os “homens mortos”, ou seja, os condenados à morte, separados de seus companheiros. Durante a visita de Dickens, estavam ali James Pratt e John Smith, condenados à morte por serem homossexuais, além de Robert Swan. Os dois primeiros foram executados poucos dias depois. Estes prisioneiros dormiam em solitárias, um aposento quase vazio, no qual passarias suas últimas horas. Boz imagina um homem em suas horas finais naquele lugar, e sua descrição termina o artigo, deixando o leitor com um enorme nó na garganta.

Poucas páginas depois, encontramos Oscar Wilde. Seu poema, The Ballad of the Reading Gaol foi inspirada na execução de Charles Woolbridge, executado na prisão de Reading em 07/07/1896. Wilde conta como os prisioneiros viam Woolbridge em seu exercício diário, olhando saudosamente para o pedaço de céu que atinge o mirrado pátio, calmo como se aceitasse seu destino. Ele matou quem amava, diz o poema, e por isso deve morrer.

E neste relato, Wilde acaba contando um pouco do dia a dia na prisão, nos trabalhos que fazem, nas celas que habitam, a rotina de limpeza, a expectativa da morte que os espreita. Como na obra de Dickens, o condenado à morte na prisão de Reading também aguarda seu destino numa solitária, e ouve a missa acompanhado de seu caixão. A Balada toma um caráter mais passional, mais pessoal, para Wilde (bastante compreensivamente), e imaginei em vários momentos os presos cantando em sua cela as palavras de Wilde, em homenagem ao homem que tinha de morrer, pois matou aquela que amava.

Eis a leitura do poema, lida por Nick Gisburg:

que indico ouvir junto com a Balada musicada por Jacques Ibert:

E, para finalizar, o próprio Wilde lendo um pedacinho de seu poema

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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