Marie Schneider, child murderer

ihutchoE eu continuo lendo “Crime and Horror in Victorian Literature and Culture” – e vou levar um tempo lendo ainda. O texto da vez é Criminal Men, um excerto do trabalho de Havelock Ellis (1859-1939), publicado em 1890. Os livros de Ellis eram considerados tão perigosos para os ‘não-iniciados” que algumas de suas obras só podiam ser lidas por profissionais da medicida. A proibição se manteve até 1935.

Em The Criminal,  Havelock Ellis trabalha a mente criminosa, explorando os estados de insanidade que propiciariam atos criminosos. Durante o trabalho, ele trata com bastante detalhe a vida e as atitudes de alguns criminosos de sua época, entre eles Marie Schneider, uma garota alemã que, em 1886 e aos doze anos, assassinou Margarete Dietrich, de três anos e meio.

Ellis nos traz um resumo de suas declarações perante o juiz – Marie Schneider foi condenada a 8 anos de prisão. – e este relato me afetou profundamente. Não consegui avançar na leitura do artigo depois de lê-lo e, como não o encontrei facilmente em lugar algum na internet, tomei a liberdade de traduzi-lo a partir do artigo de Ellis, para que eu possa continuar meus estudos. Sem mais delongas, eis a tradução:

“Eu contarei, com algum detalhe, a história de um exemplo mais definitivo e significativo de insensibilidade moral. Ele está em uma criança, e eu o recolhi nos arquivos alemães. Marie Schneider, uma estudante, doze anos de idade, foi trazida à Corte Criminal de Berlim em 1886. Ela era bem desenvolvida para sua idade, de expressão facial comum, nem bonita nem feia. Seu rosto era redondo, com a testa levemente recuada, nariz relativamente pequeno, os olhos castanhos e vivazes, o cabelo macio e claro penteado para trás. 

Com uma clareza intelectual e precisão bastante notáveis para sua idade, ela respondeu à todas as inquirições postas pelo Presidente da Corte, sem hesitar ou se encolher. Não havia o menor traço de alguma emoção intrínseca ou excitação profunda. Ela falou com o mesmo tom baixo e equânime com o qual uma estudante fala com seu professor ou repete suas lições. E quando as questões feitas a ela tomaram um caráter tão sério que até mesmo o juiz involuntariamente alterou seu tom de voz, a garotinha permaneceu contida, lúcida, infantil.

Ela não era de maneira alguma audaciosa, mas sabia que tinha de responder como se seu professor com ela falasse, e o que ela falou soou perfeitamente verdadeiro, e concordava em todos os pontos com as evidências demonstradas na corte. Seu depoimento foi substancialmente, o seguinte:  – ‘Meu nome é Marie Schneider. Eu nasci em primeiro de maio de 1874, em Berlim. Meu pai morreu faz muito tempo, eu não sei quando; eu nunca o conheci. Minha mãe ainda vive; ela é operadora de máquinas. Eu também tenho um irmão mais novo. Eu perdi uma irmã faz um ano, eu não gostava muito dela, porque ela era melhor que eu, e minha mãe a tratava melhor. Minha mãe me bateu várias vezes por ser desobediente, e é certo que eu devia pegar o bastão com o qual ela me batia, e bater nela.

Eu vou para a escola desde os meus seis anos. Eu fiquei na terceira série por dois anos. Eu parei aí por ociosidade. Me ensinaram a ler e escrever, aritmética, geografia e história e também religião. Eu sei os dez mandamentos. Eu conheço o sexto: é “não matarás”. Eu tenho alguns colegas de brincadeira na escola e na vizinhança, e estou frequentemente com uma jovem dama (que acreditam ser imortal) que tem vinte anos e mora na mesma casa. Ela me contou sobre sua infância, e que ela era tão desobediente quanto eu, e que ela bateu no professor que iria puni-la.

Algum tempo atrás, brincando no pátio, eu me postei atrás de uma criança, segurei seus olhos, e perguntei quem eu era. Eu apertei meus polegares bem forte nos olhos dele, e então ele chorou e ficou com os olhos inflamados. Eu sabia que o estava machucando e, apesar do choro dele, eu não o soltei até ser obrigada. Isto não me deu nenhum prazer especial, mas não me senti arrependida.  Quando eu era menor,  eu enfiava garfos nos olhos dos coelhos e depois abria suas barrigas. Ou pelo menos minha mãe diz isso com frequência; eu não me lembro disso. Eu sei que Conrad matou sua esposa e filhos, e que sua cabeça foi cortada. Eu ouvi minha tia ler o jornal.

Eu gosto bastante de doces, e várias vezes tentei conseguir dinheiro para comprar doces para mim. Eu falava para as pessoas que o dinheiro era pra alguém que não tinha trocados. Eu sei que isto era enganação. Eu sei o que roubo significa. Qualquer um que mate é um assassino, e eu sou uma assassina. Assassinato é punido com a morte, o assassino é executado; sua cabeça é cortada fora…. Minha cabeça não vai ser cortada fora, porque ainda sou muito jovem.

No dia 7 de julho minha mãe me mandou em uma missão. Então eu encontrei a pequena Margarete Dietrich, que tinha três anos e meio de idade,  e que eu conhecia desde março. Eu disse para ela que ela tinha que ir comigo, e peguei a sua mão. Eu queria pegar seus brincos. Eles eram pequenos brincos de ouro com uma pedra colorida. Eu não queria os brincos para mim, mas para vender em uma loja de segunda mão para comprar alguns bolos. Quando eu cheguei no pátio eu queria ir em algum lugar e eu chamei minha mãe para que ela jogasse a chave para mim. Ela jogou a chave e também um pouco de dinheiro, para a missão que eu tinha que fazer.

Eu deixei a pequena Margarete na escada e lá ela ficou. Do pátio eu vi que a janela do segundo piso estava meio aberta.; eu subi as escadas com ela em direção ao segundo andar para tirar os brincos, e daí empurrá-la pela janela. eu queria matá-la, porque estava com medo que ela me traísse. Ela não podia falar muito bem, mas ela podia apontar para mim, e se descobrissem o que eu tinha feito, minha mãe teria me batido.

Eu fui com ela para a janela, a abri por completo, e a sentei no parapeito. Aí eu ouvi alguém descendo as escadas. Rapidamente coloquei a criança no chão e fechei a janela. O homem passou sem nos notar. Então eu abri a janela e pus a menina no parapeito, com seus pés balançando para o lado de fora e seu rosto de virado para longe de mim. Eu fiz assim porque não queria encará-la, e porque assim era mais fácil de empurrar. Eu tirei seus brincos. Grete começou a chorar porque eu a machuquei. Quando eu ameacei empurrá-la pela janela ela ficou bem quieta.

Eu peguei os brincos e coloquei no meu bolso. Daí eu empurrei a criança, e ouvi ela bater na lâmpada e a calçada. Então eu corri escada abaixo para cumprir o pedido da minha mãe. Eu sabia que devia matar a criança. Eu não pensei que os pais de Grete ficariam tristes. Isso não me machucou; eu não me arrependi; não me arrependi por todo o tempo que passei na prisão e não me arrependo agora. No dia seguinte um policial veio até nós e perguntou se eu tinha jogado a criança pela janela. Eu disse que não, que não sabia nada sobre isso. Então eu joguei fora os brincos que tinha escondido, pois fiquei com medo que os policiais iam buscar nos meus bolsos e encontrá-los.

Então veio outro policial, e eu disse a verdade para ele, porque ele disse que bateria nas minhas orelhas se eu não contasse a verdade. E então eu fui levada embora, e tive que dizer para as pessoas como tinha acontecido. Me levaram de táxi para a funerária. Eu comi um pedaço de pão que me deram com bastante apetite. Eu vi o corpo da pequena Grete, despido, numa cama. Eu não senti nenhuma dor ou me arrependi. Eles me puseram com quatro mulheres, e eu contei minha história para elas. Eu ri quando contei a história porque elas me faziam perguntas esquisitas. Eu escrevi para a minha mãe da prisão e pedi que ela mandasse dinheiro para comprar algo para passar no pão, porque eles nos davam pão seco.’

Isto foi o que Marie Schneider contou para o juiz, sem hesitação ou impudência, numa maneira completamente infantil, como uma aluna em dia de prova; e ela mostrou certa satisfação por ser capaz de responder questões longas tão bem. Seus olhos brilharam uma única vez, quando disse como na prisão lhe tinham dado pão seco para comer. O oficial médico da prisão, que a observou cuidadosamente, declarou que não pôde encontrar nada de errado com seu intelecto. Ela era inteligente até demais para sua idade, mas não conseguia entender a extensão de suas ações, e era uma idiota moral. E esta foi a opinião dos demais médicos chamados para examiná-la. A Corte, tendo em mente que ela era perfeitamente capaz de entender a natureza de sua ação, condenou Marie Schneider à prisão por oito anos. A questão da hereditariedade não foi levantada. Nada se sabe sobre seu pai, exceto que está morto.”

(Texto extraído de Crime and Horror in Victorian Literature and Culture, Volume I, p. 213 e seguintes – “The Criminal” by Havelock Ellis – tradução livre)

Duas coisas me chamam a atenção: a frieza da menina e, este segundo diretamente ligado à Victoria, a moça imortal mencionada quase en passant em seu depoimento. Cada vez que leio me arrepio com o horror da cena, como eu a imagino.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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