La boîte à Pensées: Relendo Liaisons Dangereuses

Liaisons Dangereuses foi o primeiro livro que li em francês. Eu estava mais ou menos na metade do meu curso do idioma, já com uma boa noção mas com bastante medo de enfrentar um clássico literário. Aquela insegurança e temor de encontrar termos muito complicados, ou um estilo muito rebuscado. Boa parte do meu medo advinha de alguns anos antes, quando li a tradução da Nova Cultural da obra de Pierre Chordelos de Laclos. A razão pela qual resolvi enfrentar meu medo de frente, encarando Laclos ao invés de Dumas ou Messadié (as minhas escolhas na biblioteca do banco) foi simples. Liaisons Dangereuses é bem mais curto que Les Trois Mousquetaires ou Histoire générale du Diable.

Me surpreendi enormemente. E entendi meu medo logo nas primeiras cartas. Entenda, não quer dizer que a tradução da Nova Cultural seja essencialmente ruim. Ela é gramaticalmente correta. Mas o autor optou por traduzir a segunda pessoa do plural (vous) literalmente, usando o vós, o mesmo ocorrendo com a segunda pessoa do singular (tu). O meu problema com isso é que, enquanto por aqui o tu e o vós caíram em desuso, aparecendo aqui e ali em alguns regionalismos, o tu  e o vous são de uso corrente no francês, denotando intimidade ou respeito hierárquico, mesmo na linguagem falada. O que quer dizer que Marquise de Merteuil e o Vicomte de Valmont se tratam por vous, apesar de sua intimidade, apenas por uma questão de respeito.

Logo, a obra tornou-se, inadvertidamente, acessível ao francês intermediário que dominava na época. Li todas as cartas bem mais rápido do que esperava, me deliciando com as tramoias de Merteuil e Valmont, suspirando com o romance inocente de Cécile e Danceny, e com as invectivas infrutíferas da Présidente de Tourvel. De obra temida, Liaisons Dangereuses ganhou um espaço permanente no meu top 5 de livros prediletos. Não preciso nem dizer que assisti ao filme Segundas Intenções mais vezes do que seria prudente anunciar, bem como o Ligações Perigosas com a Glenn Close e o John Malkovich e que, recentemente, vi também o fantástico Colin Firth interpretando Valmont no filme homônimo.

Duas coisas me fizeram começar essa releitura (no original), carta a carta, da obra de Laclos: Esta excelente resenha da Anica e o fascínio que me causou a leitura de O diabo na água benta, do Robert Darnton. A resenha me deixou empolgada para revisitar uma obra querida, bem como ansiosa para conferir uma nova tradução, aparentemente mais próxima do espírito do original. Aproveitei que a obra está em domínio público e a encontrei no Wikisource de uma maneira bastante propícia para meu projeto.

Já a leitura de Darnton me remeteu diretamente aos dois prefácios às cartas: o Aviso do Editor e o Prefácio do Escritor, tão semelhantes em estilo aos libelos estudados em O diabo na água benta. Juntos, aviso e prefácio devem ter servido para aguçar a curiosidade do leitor contemporâneo, já que o editor jura de pés juntos que a obra é claramente uma ficção pois não haveria a possibilidade de pessoas reais do século XVIII portarem-se tão mal num século de luzes e filosofia:

En effet, plusieursdes personnages qu’il met en scène ont de si mauvaisesmœurs, qu’il est impossible de supposer qu’ilsaient vécu dans notre siècle; dans ce siècle de philosophie,où les lumières, répandues de toutes parts, ontrendu, comme chacun sait, tous les hommes si honnêteset toutes les femmes si modestes et si réservées.

Enquanto o escritor jura de pés juntos ter sido responsável apenas pela compilação e organização de cartas a ele confiadas, eximindo-se mesmo da culpa por cartas de estilo canhestro e recheada de erros ou longas demais com assuntos aleatórios, em nome da acuidade histórica e do pedido dos donos das missivas:

J’avais proposé des changements plus considérables, & presque tous relatifs à la pureté de diction ou de style, contre laquelle on trouvera beaucoup de fautes. J’aurais désiré aussi être autorisé à couper quelques lettres trop longues, & dont plusieurs traitent séparément, & presque sans transition, d’objets tout à fait étrangers l’un à l’autre. Ce travail, qui n’a pas été accepté, n’aurait pas suffi sans doute pour donner du mérite à l’ouvrage, mais lui aurait au moins ôté une partie de ses défauts.

A esses prefácios, some-se a ostensiva ocultação de nomes e anos, substituídos por asteriscos, uma das características do libelo, assim como o teor escandaloso. É como se se tratasse de contemporâneos que poderiam ser facilmente identificados pelo leitor atento, num jogo de charadas tão a gosto do público francês. É também uma arma poderosa de crítica política e, se considerarmos a época em que foi escrita, uma dura crítica aos costumes aristocráticos pré-revolucionários, reputados como libertinos e imorais.

A aura de verossimilhança à carta do escritor vem da forma como construiu suas personagens. Enquanto algumas cartas são, sim, canhestras (como as primeiras cartas de Cécile a Sophie), outras são um primor de retórica (principalmente as cartas de Valmont). Não só isso, conforme o tempo e as circunstâncias da história mudam, o tom das cartas mudam, sem se alterar, contudo, o estilo do personagem. Enquanto as cartas de Valmont para Tourvel se tornam mais insistentes, as cartas de Tourvel ficam mais arrebatadas. A partir do momento em que Cécile ganha experiências fora do convento, suas cartas tornam-se menos recatadas,  e por aí vai…

Nesta releitura, estou, no momento em que escrevo essas palavras, na carta 77 das 175 que compõem o livro, e estou curtindo lentamente e com novos olhos. Influenciada por Darnton, procuro ler as cartas pelo menos duas vezes: uma com meus conceitos e valores do século XXI e outra me imaginando uma leitora do início da revolução Francesa. Imagino que muito do que vejo hoje como força da obra – a personalidade forte de Merteuil, por exemplo – não deve ter sido intenção do autor. Quiçá devêssemos lamentar a perdição da Presidenta, ao invés de torcer pela sedução de Valmont. Penso em quantas vezes ainda relerei as palavras Hé bien! la guerre… da épica carta 153 e quantas interpretações ainda são possíveis…

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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4 respostas para La boîte à Pensées: Relendo Liaisons Dangereuses

  1. Ary disse:

    Kika, gostaria de tentar esse livro em francês, não li em português, o francês do livo está acessível ou o fato de você já ter lido em português ajudou?

    • Kika disse:

      acho o texto original bem tranquilo de acompanhar, com uma e outra palavrinha mais complicadas que podem exigir um dicionário, mas nada do outro mundo não… com certeza vale a tentativa. As duas citações em francês do post saíram diretamente do livro, e o texto segue essa linha.

      Depois me conte como foi a experiência!

  2. Júlia Corrêa disse:

    Kika, quais outros livros você recomenda pra quem está começando a ler em francês?

    • Kika disse:

      para quem está começando, eu sugiro obras infanto-juvenis… Petit Nicolas, Asterix e outros tantos quadrinistas legais ^^ Eu li algumas obras reduzidas (tem alguns clássicos adaptados ao vocabulário de quem está aprendendo, e são bem legais)…Sem ter que comprar nada, eu sugiro os blogs franceses (fiz uma coluna com eles por aqui mesmo) como o do Boulet, ou do Guillaume Long. e a partir daí, qualquer coisa que vc ache interessante!

      Mas não se preocupe se no começo vc precisar demais do dicionário… é fase e passa ^^

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