La boîte à Pensées: Da dificuldade de falar sobre os livros que amamos

Se você é leitor do Meia, seguidor da nossa Equipe no Twitter ou segue algum outro blogueiro literário na rede social, já deve ter lido o seguinte comentário: “Gostei tanto desse livro que não tenho a menor ideia de como resenhá-lo!”. Acontece comigo, ouso dizer, com bastante frequência. Talvez eu vá contra a ideia do “todo mundo feliz”  que agitou as redes sociais nos últimos dias, mas acho, realmente, que uma resenha negativa convincente é muito mais fácil de escrever do que uma resenha elogiosa.

Explico. Quando se trata de leitura sou bastante passional e, sim, bem fácil de agradar. Basta um personagem carismático, uma sequência de eventos ou um dos vários assuntos que me interessam estarem presentes. Junta-se a isso o fato de que mais de 20 anos de leitura contumaz terem me dado uma espécie de instinto. Quanto melhor me conheço, mais fácil é selecionar obras com potencial para me agradar. Talvez por isso você não encontre muitas resenhas negativas minhas aqui no blog, ou em qualquer outro lugar. Nem sempre eu acerto, claro.

E num desses erros percebi o quão mais fácil é encontrar um argumento para o que me desagrada. Seja uma expectativa aumentada, repetidos erros de grafia ou gramática, texto truncado, falta de referências, erros de tradução ou um desconhecimento prévio de um assunto tratado de maneira muito técnica. É fácil detectar o que me incomoda num livro, sem recorrer a antipatias com o autor e sua entourage. Ao escrever para o Meia e acompanhar o fórum, consigo detectar coisas que não me atrapalham, mas podem incomodar outros leitores, como um excesso de estrangeirismos.

Também me acostumei a achar qualidades para livros meia-boca. Ele pode ser bem escrito, o tema bem trabalhado, tecnicamente perfeitos. O problema é quando o livro me arrebata. Ao contrário da maioria dos (bons) resenhistas que conheço, não tenho formação em Letras, ou jornalismo, ou pedagogia. Sou formada em Direito e tenho uma quedinha por Matemática Financeira. Mas, assim como eles, quando escrevo sobre um livro, quero apresentar ao leitor, o melhor possível, a minha experiência de leitura. No entanto, quando me apaixono por um livro, perco quase totalmente a capacidade de analisá-lo.

Veja, não falo simplesmente de livros bons, ou melhor, de livros que eu gostei. Os livros difíceis de falar vão além. São livros com um “plus adicional a mais”, que deixam a sensação clara de que o autor falava direto com você, e não para um leitor genérico. Nem sempre o livro pelo qual nos apaixonamos é perfeito tecnicamente, ou pode ser considerado alta literatura. Às vezes ele só traz uma mensagem que você precisava receber naquele momento, às vezes desperta a nostalgia de momentos da infância. O fato é que colocar esse sentimento de conexão com o autor em palavras quase nunca soa certo.

Pior, quando tento escrever sobre como a obra me arrebatou sinto como se tivesse traindo a genialidade da obra com uma opinião incompleta. Os elogios soam ao mesmo tempo exagerados e insuficientes, os argumentos vazios. A ligação emocional faz com que seja difícil apontar quaisquer falhas, ainda que racionalmente eu reconheça que elas existam. São livros arrebatadores que despertam meu lado missionário, aquele que quer que todo mundo leia, só para poder comentar em detalhes. Ironicamente, quando resenho tais obras, hesito enormemente em desvendar algo da trama, por medo de estragar a experiência de leitura de alguém.

Livros que amo têm que ser incorporados, bem digeridos, antes que qualquer coisa próxima de uma resenha seja escrita. Preciso esperar um tempo para a paixão passar e eu poder entender o que me fez gostar tanto. O resultado é sempre insatisfatório, incomparável à experiência em si. Uma sensação que todos os leitores deveriam sentir, pelo menos uma vez.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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Uma resposta para La boîte à Pensées: Da dificuldade de falar sobre os livros que amamos

  1. Vinnie disse:

    Sinto dificuldades de comentar sua coluna: gostei muito dela!

    “É só me dar um minutinho que já acho algo bonito em você”. No fundo essa é mais ou menos a relação que muitos têm com os livros; principalmente quando julgamos a simples “realização” de um livro um feito importante. Há braços.

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