Está tudo bem, querido? (Ricardo Morales)

Estreia de Ricardo Morales, Está tudo bem, querido? é uma coletânea com dezesseis contos. Em comum, as histórias possuem um personagem chamado Morales e falam de situações urbanas e cotidianas. São apanhados de cenas, por vezes narrados em primeira pessoa, por vezes em terceira pessoa, num tom bastante objetivo. A inadequação está onipresente junto a uma certa obsessão por pernas femininas. Muitos dos contos relatam momentos de crise. Seja uma crise familiar, a dificuldade no trabalho ou problemas em controlar instintos, há sempre um problema.

Tomemos como exemplo “Cilada Mortal”, conto que abre a coletânea. Nele um filho ou enteado insatisfeito contra seu pai/padrasto. Ou essa é a primeira impressão. Há certamente uma figura de proteção, que pode ser pai/padrasto ou o próprio narrador, e uma entidade que parece fugir desse controle. No desespero de sair desta zona de opressão, e profundo conhecedor dos hábitos de seu oponente, Morales – o personagem –  planeja cuidadosamente sua morte. O plano parece falhar, mas não podemos ter certeza, em virtude do final abrupto.O mesmo ocorre na maioria de seus contos. Um fim abrupto, normalmente com um momento anticlímax. Em “Temporal”, o conto encerra no meio de uma digressão, quando se esperava que a história que abriu se encerraria. Enquanto “Terminal Tietê” acaba logo após o clímax, deixando o leitor com mais perguntas que respostas na cabeça. Não é um conceito exatamente novo ou bastante usado na literatura em geral, mas talvez dada a inexperiência do autor, ou mesmo que intencionalmente, a sensação que fica dos contos, a exceção de três, é de incompletude.

O que achei uma pena, pois o autor conduz suas histórias com grande talento. Um estilo coloquial e personagens um tanto quanto politicamente incorretos – e, em alguns, casos abertamente misóginos. Os contos começam promissores, e o leitor pode sentir a proximidade com seu próprio cotidiano. Em casos como “Boneca de Pano” ou “Pequenos Prazeres” há o mal estar de acompanhar alguém incapaz de controlar seus desejos, levados às últimas consequências, a partir do mais corriqueiro dos momentos como uma viagem de ônibus. “Adoçante” é a reação a algo que poderia acontecer com qualquer pessoa. Ele possui um bom ritmo, o que deixa o corte abrupto na narrativa ainda mais evidente. Como se o autor simplesmente tivesse desistido de ir até o fim.

As três exceções, “O relógio“; “verde-abacate, quase desmaiado” e “Está tudo bem, querido?” destacam-se por encontrar o equilíbrio entre final aberto e conto inacabado. Enquanto em “O relógio” um casal se muda de casa e recebe uma estranha incumbência de uma vizinha: entregar a alguém um belo relógio. Quando ninguém aparece para reclamar o presente, a vida dos dois começa a ser perturbada pela decisão sobre o futuro do precioso objeto. Neste caso, o final em aberto funciona como um estímulo à imaginação do leitor. Já “verde-abacate, quase desmaiado” é uma história circular, que pode denotar um sonho, uma amnésia temporária ou um desligamento voluntário da realidade.

O conto “Está tudo bem, querido?” se destaca até mesmo desses. É, de longe, o melhor conto da coletânea. Possui uma linha narrativa bem marcada e um final satisfatório. Uma crise de relacionamento, causada pelo tempo e por pequenos desgastes, agravada pela descoberta de uma indiscrição no passado. É vívido, escrito sem grandes rodeios e se o tema tratado soa um pouco clichê, os diálogos o tornam verossímil. Parece claro que o escritor dedicou um maior cuidado a este conto do que a todos os do livro. É o que eu sugeriria a leitura, mas essa discrepância deixou a sensação de que o autor montou a obra em torno de um único conto, deixando os outros inacabados de propósito, como meros coadjuvantes.

Está tudo bem, querido?

Ricardo Morales

112 páginas

Preço sugerido: R$ 30,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Dublinense

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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