O diabo na água benta (Robert Darnton)

“A impaciência de certos nouvellistes costuma degenerar-se em frenesi. Toda sua existência é dedicada a percorrer os passeios públicos para ouvirem ou repetirem tudo o que é dito, tudo o que é impresso. E na sofreguidão de acreditarem em tudo, as conjecturas mais ingênuas tornam-se realidade diante de seus olhos. A corte, a cidade, repúblicas, reinos, o universo inteiro é seu domínio; e nunca estão mais no seu elemento do que quando emitem opiniões sobre ministros, generais do exército e até soberanos” (p.109)

Parece uma frase direcionada ao usuário das famosas redes sociais, que espalham correntes, fotos no Facebook e meias notícias no Twitter. Se endereça diretamente aos comentaristas das notícias online e blogs em geral. Uma crítica dura, verdade, que pode se adequar a muitos usuários de internet. Tão atual que parece improvável que tenha sido escrita há mais de 200 anos. Por um filósofo francês chamado Mercier.

O texto apelativo, as notícias escandalosas e as calúnias não são uma prerrogativa da nossa época. Na verdade, existe desde sempre. Podemos traçar panfletos difamatórios pelo menos até o Renascentismo italiano. Estas obras receberam vários nomes: gazetas, pasquinadas, panfletos, nouvelles à la main, libelos. Em O diabo na água benta, Robert Darnton se concentra em quatro dessas obras, escritas por franceses entre 1770 e 1795. São libelos, criados para destruir a reputação de seus alvos através de anedotas, notícias e retratos.

Utilizando-se de um método indutivo, Darnton traça a partir dessas quatro obras uma história da literatura difamatória da França pré e pós revolucionária. O livro começa com as gravuras das capas desses libelos: Le gazetier cuirassé (1777); Le diable dans un bénitier (1783); La police de Paris dévoilée (1789) e La vie sécrète de Pierre Manuel (1793). Eles estão intimamente entrelaçados pelas histórias dos respectivos autores, e demonstram bem a realidade política de seu tempo. Os dois primeiros foram editados nas Grub Streets de Londres, onde seus autores estariam livres da perseguição de seus governantes, protegidos pela lei britânica de liberdade de expressão. Os dois últimos mostram os caminhos da Revolução, da queda da Bastilha ao Terror.

O nome do livro, O diabo na água benta, faz alusão ao segundo libelo. A expressão foi originalmente utilizada para descrever a atuação policial na busca e repressão das publicações ignominiosas. Para o libelistas, os policiais se debatiam sem chegar a lugar nenhum, tal qual faria um diabo na pia batismal. Essas buscas infrutíferas e dispendiosas feitas pela polícia francesa formam uma grande parte da obra, e a metáfora serve para o leitor ingênuo e também para nós, leitores modernos, para quem a estrutura dos libelos franceses deve parecer caótica. Quiçá teria sido essa a sensação que o autor teve ao ter de escolher apenas quatro dentre tantas obras que parecem ser interessantíssimas.

Embora apoiados em elementos semelhantes, o autor nos mostra o quanto o teor dos textos destinados a denegrir os grandes muda com as mudanças políticas. Começa por descrever cada um dos libelos, dando um espaço razoável ao estudo de seus frontispícios, numa aula de tipografia e impressão do século XVIII. Segue-se um estudo detalhado do teor dessas obras, suas características principais, seu tom de segredo dividido com os leitores, através de enigmas, chaves de compreensão ocultas no texto, enquanto contam histórias escabrosas sobre as indiscrições na corte, os libelistas vendidos, os arquivos escandalosos da polícia.

Os textos são depois confrontados com a história de seus autores e às práticas de leitura na França do século XVIII, no que formam os meus capítulos favoritos de toda a obra. O texto de Darnton é fluido, fazendo com que muitas vezes eu tenha esquecido que estava com uma obra de não ficção. Fui levada aos jardins do Palais Royal (residência dos Orléans), aos cafés, aos livreiros e mascates ilegais. Sua descrição da avidez com a qual essas obras de “segunda classe” eram consumidas e comentadas falou alto. Estava ao mesmo tempo em 1780 e em 2012, levada a acreditar que o ser humano não muda em essência.

Aos poucos, novos personagens e novos libelos são introduzidos à obra, ainda que sua âncora permaneça nos quatro já citados. Em uma avalanche de informações, temos a chance de  olhar para o passado nas letras de seus contemporâneos, temos um vislumbre da infinidade de pequenas obras que eram na maior parte do tempo a única fonte de notícias de uma comunidade. O autor claramente se deixa levar pela imensa pesquisa que fez, e às vezes se perde em divagações. Mas isso não atrapalha a leitura, pelo contrário, a paixão com que ele fala de sua pesquisa é contagiosa e me deixou com vontade de ir atrás dos originais de praticamente tudo.

Mas, talvez, isso se deva ao fato de ele abordar um tema que para mim é uma paixão. Sou colecionadora de obras sobre a Revolução Francesa, para mim um dos momentos mais importantes e interessantes da história. Essa paixão me ajudou a colocar todo o livro em perspectiva, já que eu sabia de quem Darnton fala. Facilitou bastante (e enriqueceu minha leitura) o fato de eu saber francês. Infelizmente, nem todos os títulos de obras em francês são traduzidos.

As citações mais importantes são apresentadas no original e em tradução, mas mesmo assim imagino que a falta da tradução dos títulos dificulte um pouco a leitura, ainda que não a impeça. Porém, o mais interessante de ter o conhecimento do idioma foi poder apreciar as dezenas de ilustrações originais que estão no livro. O autor nos dá uma lição de apreciação de ilustrações nos primeiros capítulos, logo é uma diversão a mais desvendá-las no restante da obra. Isso sem contar no suplemento eletrônico (disponível apenas no idioma original). A leitura não depende desses detalhes, mas com certeza a torna mais especial.

Caso você tenha curiosidade pela vertente literária formada pelos libelos e uma curiosidade grande sobre a França pré e pós revolucionária, eu indico a leitura de O diabo na água benta. Não é uma leitura fácil mas é, com certeza, prazerosa.

 O DIABO NA ÁGUA BENTA – Ou a arte da calúnia e da difamação de Luís XIV a Napoleão

Robert Darnton

Título original: The Devil in the holy water or the art of slander from Louis XIV to Napoleon.

Tradução: Carlos Afonso Malferrari

632 Páginas

Preço sugerido: R$ 74,50

Editora Companhia das Letras

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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6 respostas para O diabo na água benta (Robert Darnton)

  1. Taize Odelli disse:

    Esse livro parece ser muito legal. Darnton tem uma maneira muito boa de escrever, li dele “A questão dos livros” e adorei! Achei muito interessante toda a pesquisa dele da literatura francesa quando ele falou sobre a história do livro na flip. Quando as coisas diminuírem aqui (se diminuírem), vou procurar esse =D

    • Kika disse:

      Esse foi meu primeiro livro do Darnton e eu gostei muito mesmo…cheguei a quebrar uma das minhas regras e sublinhar algumas partes do texto… Se sobrar um tempo vou buscar os demais!

  2. Lucas Deschain disse:

    Esse livro deve ser muito massa. Parabéns pela resenha kika!

    De novo ele se volta para a Revolução Francesa através de um prisma inusitado, muito interessante. Kika, tu já leu ‘O grande massacre de gatos’ do Darnton? Segue nesse esquema de abordar a revolução Francesa de pontos de vista distintos, é muito interessante, acho que você ia gostar. Saiu pela editora Graal por aqui.

  3. Erivalter Fernandes disse:

    “Sou colecionadora de obras sobre a Revolução Francesa”. Kika, você poderia me indicar algum livro sobre a Revolução Francesa, em português, que utilize uma linguagem quase literária, que dê vida aos personagens? Não seria um romance histórico, seria como se Laurentino Gomes tivesse escrito o livro, entende?

    • Kika disse:

      Mais ou menos, já que eu não li Laurentino Gomes. Acho que o mais próximo do que você procura é o livro do Jules Michelet, A Revolução Francesa. Michelet é quase contemporâneo da Revolução, e escreve muito bem. O “A sombra da Guilhotina” da Hilary Mantel, apesar de romance, é todo baseado em cartas e documentos oficiais dos principais nomes da Revolução. Alexandre Dumas escreveu uma excelente biografia sobre Napoleão, que conta inclusive com seu testamento…
      Tem outra biografia, chamada Napoleão e Josefina, da Evangeline Bruce.

      Espero ter ajudado

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