[filme] (Rodrigo Vrech)

“Carta Magna dos Personagens de Ficção, Artigo Quinto: ‘É garantida a todo personagem a liberdade de locomoção, expressão e criação após o cumprimento de um prazo mínimo de 12 obras servindo a um único autor. ‘” (p. 134)

Rodrigo Vrech é ator por formação. Começou a escrever em 2010, e seu conto “Machine Gun” integrou a coletânea A polêmica vida do amor, lançada pela Editora Oito e Meio, a mesma editora que aceitou seu primeiro livro: [filme]. Composto por 13 contos, [filme] é um exercício de transposição de mídia. Os textos seguem mais ou menos a forma de  pequenos roteiros, cada um indicado como um estilo de filme ou série de TV, com suas personagens, problemas e estética. Essa mescla de mídias é bastante intrigante, já que ao mesmo tempo em que foca no campo imagético, exige a interpretação típica do texto escrito. É uma questão de manipulação do leitor. As histórias são facilmente visualizadas como curtas mas são, essencialmente, literatura.

[filme] me conquistou já no primeiro conto, “Persona”. Indicado como um suspense psicológico, é uma cena carregada de tensão, envolvendo dois irmãos, ou duas facetas de uma mesma pessoa. Este conto dá o tom do livro, a narrativa dividida em vozes diferenciadas por letras normais e em itálico, com uma única indicação de cena, típica de roteiros, no fim. Ao fim de duas páginas e meia já estava completamente fisgada. Segue-se o conto referente à guerra particular – “25 de novembro” – uma história de polícia e bandido, e o que sobra da guerra para quem está em volta, num cenário digno de Tropa de Elite.

Seguimos para “Dona Rita”, um melodrama familiar, uma história singela e quotidiana, do amor de uma mãe por seus filhos. Uma história carregada de sentimento, com uma sutileza que dificilmente seria captada pela película. Depois disso conhecemos Baucis e Roberto, casal protagonista do conto homônimo, dedicado ao erotismo cult. Uma história de paixão madura integrada à sociedade digital, com um toque de humor negro. O conto seguinte, “Fábula”, possui uma certa disparidade entre tema e indicação. O autor o categoriza como animação infanto-juvenil, mas apesar da protagonista ser uma jovem em período escolar, o tema está longe de ser leve. Trata da difícil fase da adolescência e da humilhação que algumas pessoas sofrem nesse período. Fala do primeiro amor, mas também da primeira decepção amorosa. É um dos meus contos favoritos entre os 13.

Da depressão adolescente passamos para “O amor em tempos de depressão e pânico”O clássico contemporâneo, cujo título homenageia Gabriel García Márquez, fala de uma ciranda de amores e decepções, baseadas em fotos e comentários do Facebook. Neste conto, o autor merece o elogio que Ana Maria Machado fez a Luis Fernando Verissimo na  introdução do livro Comédias para se ler na escola, e que parafrasearei por aqui: seus diálogos dão até a impressão de que saíram de uma timeline do Facebook. Mas é só a gente lembrar da realidade das interações na rede social para perceber como essa impressão é falsa. Ele chega a simular erros de digitação e abreviações tão típicos desse tempo em que se escreve mais rápido do que se pensa.

Nome próprio”, o drama urbano e história de Dentinho é, por uma margem pequena, meu conto preferido. Num texto em que todos os personagens possuem nome e sobrenome, o protagonista é só um apelido. Anônimo. Fala com mais um problema mais quotidiano do que gostaríamos: as crianças de rua. Dentinho, sem casa, sem família que mereça o nome, ainda assim é sensível à beleza do entorno. Gosta de tirar fotos. Comovente e triste, se o leitor quiser ler só um dos 13 contos, eu sugiro que leia esse. Outra história de juventude, indicada como aventura fantástica, é “Siga em frente se for tolo ou temerário, pois cá existem dragões!”, no qual a missão do protagonista na vida real vira uma aventura de D&D, com cavernas, masmorras e dragões.

Até mesmo o europeu alternativo tem lugar na coletânea de Vrech, com “O verdadeiro sexo de Herculine Barbin”. Com ares de filme cult francês, fala sobre a descoberta do sexo, do amor e do diferente, bizarro. Fala de preconceito e de aceitação, e de religião. Daria um bom filme noir. Já “O engano dos sentidos” é um romance epistolar baseado na troca de emails entre um colunista cego e uma fã. Um souvenir das paixões puramente intelectuais, daquelas que o leitor já experimentado numa leitura especialmente boa, e que a internet trouxe para um círculo mais pessoal.

O penúltimo conto é indicado como terror religioso. “Aquela palavra que nos justifica” fala de morte, de Deus e de estereótipos. Bastante interessante, principalmente o final, a diferença entre impressões e realidade. O último conto dá o nome ao livro e amarra os demais 12 textos. É dele que tiro a epígrafe deste artigo e é ele que faz da obra algo genial. Metalinguístico, é uma espécie de apogeu dos demais contos, uma síntese, uma discussão entre narrador e roteirista, uma explicação para a inspiração do autor.

Por ter conseguido mostrar tanta versatilidade e segurança narrativas em sua obra de estréia, Rodrigo Vrech me surpreendeu. Confesso que não esperava gostar tanto de seu estilo, de sua verve. [filme] surpreende pela qualidade literária, pela segurança do texto, pelo experimentalismo, pela contemporaneidade. Me identifiquei com os personagens, chorei, ri, senti medo e tive vontade de sublinhar o livro inteiro. Costumo gostar das minhas leituras, mas uma paixonite como a que tive por [filme] é mais rara. E é daqueles livros que eu poderia ter passado ao largo sem conhecer bastante facilmente. Fico feliz que a Oito e Meio tenha apostado no autor, e também com o trabalho gráfico que dedicaram à obra. Um livro para comprovar mais uma vez que sim, o Brasil possui bons escritores contemporâneos.

[filme]

Rodrigo Vrech

Ficção Nacional/Contos

146 Páginas

Preço sugerido: R$ 30,00

Editora Oito e Meio

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Oito e Meio

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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2 respostas para [filme] (Rodrigo Vrech)

  1. Rodrigo Vrech disse:

    Kika, que delícia de resenha. Fico muito feliz que o trabalho tenha sido bem recebido. E o blog é uma maravilha!

    Um abraço!

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