O Torreão (Jennifer Egan)

As coisas não vão bem para Danny em Nova York. Esse é o motivo que ele se dá para aceitar o convite do primo, Howard, e ir ao seu encontro em um castelo, num lugar incerto entre as fronteiras entre Alemanha, Áustria e República Tcheca. O objetivo da viagem é reformar o local e transformá-lo num hotel. O problema? A baronesa, moradora d’O Torreão, parece não gostar das mudanças. O narrador é Ray, um presidiário, que escreve a história para as aulas de Holly. É alguém que ainda busca um estilo próprio. São palavras escritas para impressionar a professora.

A princípio Danny não entende por que foi chamado para tal obra. Não é engenheiro, ou designer. Sua relação com o primo é praticamente nula após um certo incidente. Sua primeira impressão do castelo é aterrorizante. À noite, debaixo de chuva, a sombra de uma construção monstruosa sugando a luz da lanterna de bolso. O contraste com a recepção calorosa do primo e sua comitiva é gritante. Tão gritante, que soa falso. Howard possui um novo braço direito, Mick, uma esposa e uma horda de pós graduandos para auxiliá-lo em sua empreitada. Mas Howard não parece mais com Howard. Ao menos não aos olhos de Danny.

O Torreão é um livro com duas linhas narrativas interconectadas. Transita entre a história de Danny, narrada em terceira pessoa, e a história de Ray, o narrador. Podemos dizer que é uma história narrada em dois níveis, um livro dentro de um livro.  E é contada do mais real dos ambientes. O ambiente correcional, onde os dias iguais, as regras claras, as distâncias contadas em passos, e os relacionamentos frágeis. O que faz com que cada vez que um capítulo de Danny é intercalado com o diário de Ray, sejamos arrancados de um mundo e jogados em outro completamente diferente.

Ray, o presidiário, divide seu tempo entre as páginas que digita no computador da prisão para apresentar à Holly e seu diário, uma obrigação do curso. Acompanhamos seu cotidiano de prisioneiro. As aulas, os desafetos, o companheiro de cela. Essa estrutura narrativa desprende a história de Danny da realidade. Logo, o castelo está em lugar nenhum, e pode ter sido inventado, Danny pode não existir, e essa pode ser apenas uma história de fantasma. Mas, Ray insiste, não há fantasmas no que escreve.

Jennifer Egan explora em O Torreão a estrutura dos romances góticos do século XIX. Não sei se foi intenção da autora, mas há várias referências ao gênero dispersas na história de Danny. Seja a descrição de uma corredor como Jane Austen faz e A abadia de Northanger, a primeira aparição do castelo, tão semelhante ao castelo do Drácula de Bram Stoker, a presença de um estranho na casa, como em A volta do parafuso de Henry James. A própria descrição de Danny contribui para o clima, já que ele é a expressão do gótico moderna, extremamente sensível ao ambiente, de pele branca, cabelos negros e batom cor de terra.

A realidade é um dos focos narrativos. A autora coloca esse questionamento na voz de Ray, que o faz sair da boca de Danny. O que é real? A visão de mundo de Danny é propositadamente confusa, de modo a turvar ainda mais a linha entre real e imaginário. A autora consegue nos transportar tanto para a mente de Ray quanto para a de Danny. A imersão na história é natural e em alguns momentos, confesso, acreditei piamente na existência de Ray, e no castelo de Howard. Fiquei mesmo com medo em algumas situações, um medo visceral. O medo de perder o senso da realidade.

É um livro bastante diferente de A visita cruel do tempo  ou de Black Box. Mas traz em si o estilo de Jennifer Egan na forma de explorar as vertentes narrativas, de arriscar contar histórias de um jeito diferente, de misturar gêneros, de focar nas personagens, de manipular o leitor. Para escrever este livro, a autora contou durante a FLIP que passou algumas horas dentro de uma prisão, somente para poder descrever o ambiente. É, em suma, uma experiência única de leitura, uma oportunidade de reflexão e um excelente entretenimento. Daqueles livros de dar vontade de conversar sobre, de discutir sobre. Uma obra que desperta meu lado missionária das letras.

O Torreão

Jennifer Egan

Tradução: Rubens Figueiredo

Páginas: 240

Capa: Rafael Coutinho

Preço sugerido: R$ 29,90

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Intrínseca

Anúncios

Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
Esse post foi publicado em Literatura, Resenhas e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para O Torreão (Jennifer Egan)

  1. Pingback: O Torreão (Jennifer Egan)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s