Black Box (Jennifer Egan)

Na entrevista que concedeu à New Yorker quando da publicação de Black Box, Jennifer Egan declarou que acaba explorando o futuro inadvertidamente ao investigar o futuro de seus personagens. Disse não ser suficientemente conhecedora de ficção científica para ser dela uma boa escritora. Seus leitores, e a própria New Yorker, parecem discordar. Após ser publicado no Twitter da revista entre 24 de maio e 2 de junho de 2012, a história foi compilada e está disponível justamente no número da publicação dedicada ao gênero.

A história é composta por uma sequência de instruções e pensamentos de uma “bela” que, em missão sigilosa para proteger seu país do terrorismo, é inserida no meio deles. Essas instruções e pensamentos são registrados num chip implantado em sua cabeça, e a protagonista ainda possui algumas outras modificações corporais para aperfeiçoar seus sentidos. A gravação efetuada pelo chip é a caixa preta da missão, e serve tanto para a espiã em missão, quanto para o treinamento de outros agentes.

Apesar de nenhum personagem ser nomeado em Black Box, quem leu A visita cruel do tempo deve encontrar diversos indícios da identidade da protagonista. No conto, ela tem 33 anos. Trabalhou alguns anos com promoção musical, é filha de uma publicitária, que a criou sozinha. Descobriu recentemente quem é seu pai. É casada com um queniano, não tem filhos.

Sua missão a leva ao Mediterrâneo, na costa sul da França. Deve infiltrar-se na casa de um “homem violento”, deve seduzi-lo e descobrir seus segredos. Sua recompensa será o heroísmo. É um heroísmo de sacrifício, um sacrifício pela pátria. A espiã busca constantemente lembrar-se disso. Seus pensamentos são objetivos, mas em momentos de vulnerabilidade percebemos sua ligação com a família, com o marido, suas saudades de casa. Nesses momentos, ela deixa de ser um ciborgue, para tornar-se humana.

Black Box chama a atenção por vários fatores. Seja pelo uso da rede social como veículo narrativo, ou pela retomada de uma personagem de A visita cruel do tempopela estrutura peculiar ou por ser um thriller de espionagem ambientado num futuro próximo extremamente avançado tecnologicamente; a sensação de ler a história é, para dizer o mínimo, estranha. Jennifer Egan convida o leitor a preencher as lacunas de sua narrativa, a ligar as instruções a um cenário, às pessoas que cercam a espiã, à sua vida pregressa.

É um exercício de leitura interessante. Ele permite ao leitor uma imersão maior na história, como se dela fôssemos agentes. A cada capítulo me via mais na pele da narradora. É um tipo de história que casa bem com a leitora que sou, levada a imaginar visualmente a história lida.

Uma história que é melhor aproveitada por quem leu A visita cruel do tempo, mas que deve agradar os amantes das histórias de James Bond e os leitores de ficção científica. Para quem ficou curioso, o conto está disponível gratuitamente no site da New Yorker, e será publicado em português através do Twitter da Intrínseca em agosto.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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2 respostas para Black Box (Jennifer Egan)

  1. Raquel Toledo disse:

    Que massa, Kika!! Quando ela comentou sobre esse conto na Mesa da Flip fiquei pensando “WHAT?”. Nem sabia que esse conto existia, muito menos que fora publicado inteiro no twitter! Achei a história massa e bem mais massa que a Intrínsceca irá lançar em se twitter a tradução!
    Amei a resenha!
    Beijocas.

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