A visita cruel do tempo (Jennifer Egan)

Falar sobre o tempo nunca é fácil. É algo ilusório, traiçoeiro e que muda tudo. Jennifer Egan vai ao cerne da questão em A visita cruel do tempo. Como as resenhas da Taize e da Anica já deixam bem claro, este não é um romance típico. Não segue uma narrativa tradicional, não é tratado linearmente, não tem nem mesmo protagonistas bem definidos.

Montada sobre pontos de vista diversos, com técnicas diversas, A visita cruel do tempo é o que eu chamaria de narrativa episódica; ou seja, cada capítulo tem um começo, um meio e uma conclusão. Alguns críticos consideram tratar-se de uma coletânea de contos, mas acho essa classificação um tanto limitador.

Os treze capítulos formam uma colcha de retalhos narrativa, de retratos da vida de um estrito círculo de pessoas cujas vidas se cruzam ao longo de um período que varia do início dos anos 70 a um futuro próximo, em torno de 2020. O que dá a esses retalhos a sensação de união é a descoberta dos efeitos da passagem do tempo.

Não me refiro aqui à passagem dos dias, das horas, mas à descoberta de que o tempo muda as pessoas. Como naquele momento em que você encontra seu amigo de infância e descobre que, além de algumas lembranças difusas do passado, vocês não compartilham mais a mesma vida. É sempre uma descoberta chocante, ainda que nem sempre a mudança tenha sido para pior.

No centro da história estão Bennie Salazar e Sasha. Bennie foi um jovem músico empreendedor, que se torna um conhecido produtor musical. Sasha é uma bela ruiva, levemente cleptomaníaca, e que por algum tempo foi assistente de Bennie.  Cada capítulo acrescenta uma dimensão a esses dois personagens, sem deixar de contar a história dos narradores, personagens que passariam por periféricos em um livro comum.

Essa descoberta fragmentada e não linear é uma das características que tornam A visita cruel do tempo uma obra tão fascinante. Mas não é a única. Jennifer Egan consegue criar personagens complexamente humanos, sem maniqueísmos ou atalhos. Mostra a vida de pessoas únicas, com problemas e preocupações reais, às vezes levados a atitudes drásticas por motivos mesquinhos ou banais.

São, na verdade, dotados de tal humanidade que muitas vezes a leitura se torna desconfortável. Seja pelo embaraço sentido, ou o relacionar dos trejeitos de um personagem com um amigo querido que se perdeu, o fato é que toca. Toca no âmago de nossas relações. Bate saudades dos amigos que deixamos para trás, bate o medo de perder contato com pessoas queridas. Bate o medo de se tornar um mau pai ou de ter sido um mau filho. Faz pensar sobre o que o tempo nos fez ganhar, e no que ele nos fez perder.

Li em uma entrevista que Jennifer Egan teve a inspiração para o livro por conta de uma carteira esquecida na pia de um banheiro. E que só levou a narrativa para o futuro por querer saber do fim da história de Alex e Sasha. Diz ainda que não é escritora de ficção científica, mas sua projeção do futuro é assustadoramente possível. Uma obra, portanto, que temos de agradecer ao acaso e à curiosidade da autora.

A visita cruel do tempo

Autora: Jennifer Egan

Tradução: Fernanda Abreu

Editora: Intrínseca

Páginas: 336

Preço sugerido: R$ 29,90

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Intrínseca

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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7 respostas para A visita cruel do tempo (Jennifer Egan)

  1. Valentina disse:

    Acho que preciso parar de elogiar as resenhas da Kika, né? Ok, não preciso, não. Mais uma vez, parabéns, pelo belo texto, dona moça.

    Sou suspeita para falar sobre A visita cruel do tempo porque gostei muito do livro.

    Gostei, bastante, da sua leitura para os capítulos “independentes” que formam o livro. Acho que a expressão “colcha de retalhos narrativa” metaforiza bem o processo estilístico da Egan. Ela disse, em entrevista, que escreveu cada capítulo como se ele pudesse ser lido separadamente sem prejudicar a construção de sentido por parte do leitor. Para ela, cada um dos treze capítulos era como se fosse um livro novo. Gosto, bastante, da definição que ela deu para “A visita cruel do Tempo”, é algo assim: “É como um álbum de música. São pequenos trechos que formam uma obra completa”. Achei a comparação dela tão feliz quanto sua, com o “colcha de retalhos”.

    • Kika disse:

      Por mim, pode elogiar à vontade, eu fico bem feliz!!!

      Eu li essa analogia da Egan, achei tão poética! Mas como sumiu a entrevista em que eu li isso, resolvi nem comentar…

  2. nelly disse:

    Alguem já leu O Torreão, que também é da Jennifer Egan? quando terminei com a Visista cruel do tempo, me deu vontade de ler outro dela e comprei O Torreão. É muito bom! pode parecer até estranho, mas estou gostando mais deste último!

  3. Mimi disse:

    Oi, Kika. Eu comentei no post do fórum, se vc puder dar uma olhada.

  4. Pingback: Black Box (Jennifer Egan)

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