O Amante (Marguerite Duras)

Marguerite Duras é uma das escritoras mais emblemáticas do idioma francês. Quando se fala do lirismo francês, é a prosa dela que se destaca. Mas Duras é conhecida também por seu estilo difícil. Não hermético, mas dissociado da costumeira linha narrativa/cronológica que relacionamos à maioria dos romances. O Amante foi lançado em 1984, quando Duras já contava 70 anos. É considerado seu cânone, seu livro mais acessível e o livro com maior conteúdo autobiográfico.

O Amante tem como protagonista uma adolescente de 15 anos e meio, filha de uma diretora de escola que, por ter de sustentar os três filhos na Indochina (hoje Vietnam), está à beira da miséria. A menina mantém uma rotina liceu – pensionato e conhece um rico empresário chinês na balsa que faz parte de seu caminho. Ela se veste de maneira exótica, com um chapéu masculino, um cinto em volta de seu vestido de menina de seda quase transparente e sapatos de lamê dourado. Estamos por volta dos anos 30. A relação entre os dois é intensa, marcada pela sensualidade da jovem e a tradição que limita os sentimentos de seu amante. A fragilidade dele é patente e contrasta com a força da personalidade da menina.

Entrementes, as difíceis relações entre a menina e a mãe, entre a menina e o irmão mais velho, entre o irmão mais velho e o irmão mais novo, entre o amante e esta família composta de silêncios desconfortáveis; a complexidade da sociedade da Indochina francesa no período entre guerras. Fiel ao estilo que havia feito dela famosa, Duras não se prende a uma linha narrativa ou temporal. O romance é composto por uma série de episódios e fragmentos de lembranças, no que pode ser descrito como um fluxo de consciência, mas que eu preferiria chamar fluxo recordatório.

Há poesia em suas frases, cenários idílicos em meio a cenários de miséria. Lembranças de um futuro distante, aparentemente lançadas a esmo, a repetição de adereços carregados de simbolismo, como o chapéu masculino ou o sapato de lamê dourado. Como o posfácio da edição de bolso da Cosac Naify, escrito por Leyla Perrone-Moisés aponta com propriedade, o estilo de Duras faz com que seja difícil especificar o que é verdade ou não nesse relato, já que a autora substitui lacunas de sua memória com pequenas verdades inventadas.

O que quer dizer que essas memórias são trabalhadas literariamente, as frases construídas com cuidado, dando ao texto um ar poético, legando-lhe uma atmosfera de sonho e nostalgia. A beleza literária quase esconde toda a tragédia que envolve essa história. Porque esta é uma história triste, onde a melancolia está presente mesmo nos momentos de maior felicidade. Por outro lado, em nenhum momento a narradora se queixa de seu destino. Mostra-se uma pessoa estoica, que entende que estes eventos fizeram dela a pessoa que é, revelando assim a maturidade da escritora. O Amante se torna assim um clássico da literatura, não tanto por sua história, apesar de esta ser exótica e interessante como poucas, mas pela maneira com que a história é contada. Um livro que demanda a atenção do leitor, a mesma atenção ao detalhe que a autora deve ter dedicado ao manuscrito.

O AMANTE

Marguerite Duras

Tradução: Denise Bottmann

112 Páginas

Preço sugerido: R$ 21,90

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Cosac Naify

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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