Flip 2012 – Entre Fronteiras

Na décima oitava e penúltima mesa da Flip, fomos convidados a conhecer um pouco do ponto de vista de Gary Shteyngart, russo nascido em Leningrado (atual São Petersburgo) que migrou para os Estados Unidos ainda criança; e Hanif Kureishi, britânico de pai paquistanês, com a mediação de  Ángel Gurria-Quintana. Shteyngart é autor de O pícaro russo, Absurdistão e Uma história de amor real e supertristeJá Hanif Kureishi é roteirista de Minha adorável lavanderia, filme que foi indicado ao Oscar, e autor de Buda do subúrbio, Intimidade O corpo. Ambos têm em comum terem sido eleitos, cada um a seu tempo, pela Granta como melhores jovens escritores americano e britânico, respectivamente.

Depois da leitura de Estrambote Melancólico, de Drummond, o colóquio começou efetivamente com a leitura de trechos das obras dos autores. Shteyngart leu Uma história de amor real e supertriste, justificando o título de entertainer que se atribuiu. Faz vozes, caras e bocas, e arranca risadas da plateia. Hanif Kureishi, com jeito clássico de um humorista inglês, leu um de seus contos: Weddings and Beheadings,  uma sátira um pouco mais séria, sobre cameramen durante a guerra no Iraque.

Uma das primeiras perguntas feitas pelo mediador diz respeito ao uso do humor para falar de temas difíceis. Hanif diz ser o mundo um lugar horrível, mas que só é horrível por ser tão engraçado. Falando mais sério, disse que grandes escritores usam de humor para transmitir suas mensagens. Cita, entre eles, James Joyce, a quem chama de sitdown comedian. Ainda com a voz séria, excetua Tolstoi, que não seria divertido. Gary disse que seu humor vem de sua família, que seis pais contavam piadas absurdas. Seu tom de voz e postura pareceu muito com a de um stand-up comedian, e foi difícil separar o que é real e o que faz parte da piada, o que pode ter incomodado quem esperava uma conferência mais séria. Devo dizer, portanto, que seu jeito caiu nas graças do público presente, que ria e aplaudia com gosto as suas declarações.

Ángel voltou ao assunto que trouxe os escritores a essa mesa: o fato de ambos possuírem histórias de vida que repartem uma multiplicidade cultural ajudaria na escrita? Hanif disse que começou a escrever para não ficar louco, e hoje deixa seus leitores malucos. Continuou dizendo que sempre se sentiu intimidado com a pergunta “De onde você vem?”. que seria muito existencial. No fundo, ele disse, “escrevo para responder a essa pergunta”. Gary falou, desta vez francamente, da influência que a obra do colega de mesa, Buda do subúrbio teve sobre seu início como escritor. Alegou que este livro abriu seus olhos, o libertou, e o ensinou sobre sexo. Falou ainda que escrevia para fazer amigos, já que era o russo – o forasteiro – mesmo estando numa escola judaica.

Aproveitando a deixa, o mediador resolveu puxar a conversa para o sexo. Especificamente, a presença de sexo na obra dos dois autores. Hanif começou dizendo que onde cresceu, os anos 60 chegaram no início dos anos 70, proporcionando a ele alguns anos dessa experiência enquanto era jovem. Falou que em Buda do subúrbio seu protagonista é um jovem de uns 19 anos que decide partir em diversas aventuras sexuais, o que seria uma forma de autoconhecimento. Gary disse que é um ato de amor falar de si e dos seus nos livros, e brinca dizendo que escrevia sobre sexo porque não estava fazendo sexo. Hanif falou de seu conto baseado em Gogol, chamado The Penis, que seu editor teria pedido para não publicar pois, “seus fãs iriam amá-lo para sempre”.

Falando em Gogol, o mediador lembrou que também Gary Shteyngart trabalhou sobre a obra dele, e com ele é comparado. Perguntou então sobre as reescritas intertextuais. Gary não conseguiu responder a sério a pergunta, e falou que são seus amigos indianos que trabalham com essa intertextualidade, numa empresa que se chamaria “Gogol Intertext CO.” Hanif e Gary complementam, bem humorados, mas não mais fazendo piadas, com algumas frases de admiração pela obra de Gogol.

Ángel decidiu perguntar sobre as múltiplas identidades – Gary como judeu, russo e americano, Hanif como inglês e paquistanês. Gary acha que é um bom “jogo de cartas com o qual é legal jogar”, e que sintoniza a personalidade que seu público requer. Hanif disse que não é muito focado na religião, pois teria vindo de uma família que lê, então não teve tanto contato com o lado fundamentalista da cultura paquistanesa. Falou sério sobre a perseguição a Salman Rushdie por um líder fundamentalista do Irã. Lembrou que o fundamentalismo mostra a importância da leitura, do esclarecimento. Chamou de fundamentalistas as pessoas que odeiam livros e atacam escritores.

A partir deste momento, apesar de continuar bem humorada, o debate tomou rumos mais sérios. O mediador pediu para os autores falarem de suas famílias, de seus pais. Hanif se considera sortudo e azarado por ser filho de um imigrante. Disse que descobriu, após enfrentar a opinião contrária de seus editores, que seu público queria conhecer esse seu “background” exótico, que queria saber como é a vida de um paquistanês gay dono de uma lavanderia (como seu protagonista no filme Minha adorável lavanderia). Disse ainda que seu pai gostaria de ter sido escritor, e que se ressentiu um pouco por o filho ter tido sucesso nesta área, escrevendo textos satíricos.

Gary disse que sua primeira editora foi sua avó, que o incentivou a escrever suas histórias, principalmente a que ele imaginava sobre a estátua de Lênin, a qual chama de Latin Lenin. Voltando o assunto anterior, disse que com Hanif descobriu que as pessoas queriam que ele fosse exótico, então ele assumiu o papel. Imigrantes, disse ele, são como uma ponte para que os americanos conheçam culturas estrangeiras, já que há um certo preconceito com a literatura estrangeira.

O assunto agora é sobre o estilo de escrita. Se os autores sabem, quando iniciam um texto, se ele será um conto ou um romance, e qual preferem escrever. Hanif respondeu que, como pai de família e escritor profissional, é importante que escreva romances, pois estes dão mais dinheiro. Mas que tenta equilibrar a obrigação com a escrita por prazer. Gary disse que também não pode bancar escrever só histórias curtas, mas que ele e Hanif têm sorte por escreverem em inglês.

O mediador lembrou que ambos são professores de escrita criativa, e perguntou se se pode ensinar alguém a escrever. Hanif foi categórico ao dizer que todos os escritores aprendem a escrever com alguém. Disse, no entanto, que ao ensinar é mais um editor do que um professor. Falou que a edição é o mais importante a ser aprendido, o que realmente faz falta a um escritor. Afirmou ainda que ensinar a escrever o ajuda, pois o faz pensar em escrever. Já Gary se preocupa em buscar em seus alunos a escrita honesta, sua verdadeira voz. Disse que a maioria deles não escreve como quer, mas como acha que deve escrever. Se sente emocionado e motivado quando encontra alguém que tenha conseguido se libertar desse “dever ser” e acha sua própria voz.

Mas Hanif disse que escrever textos longos não é tarefa fácil. Demanda tempo, planejamento, organização. Considera que a maioria dos escritores profissionais têm uma janela de cinco anos nos quais é realmente boa, e que a partir daí começa a se repetir. Seriam poucos os que  conseguem se manter bons a longo prazo. Mas, disse ele, se você deve se repetir, ao menos seja bom nisso.

Buscando um assunto “polêmico”, o mediador perguntou sobre a declaração de Vila-Matas de que os autores devem ser lidos, não vistos. Hanif acha que é uma declaração estúpida, pois em muitos lugares os escritores seriam a voz da integridade, muitas vezes a única voz honesta a ser ouvida. Disse que escritores não só escrevem coisas interessantes, mas têm coisas significativas a dizer. Já Gary acha que é importante para um escritor ser visto, ser ouvido, e ver e conversar, conhecer o mundo, em suma.

O assunto permanece na literatura, com Gary falando, agora sério, sobre seus pais. Disse que a geração de seus pais adorava ler, principalmente na Uniáo Soviética, onde se fechar num quarto para ler não era exatamente visto com bons olhos. Falou que seus pais achavam liberdade em ler. Ele teme que nossa geração, mais livre por definição, tenha perdido a urgência, e por isso o interesse, na leitura. Falando em leituras, o mediador perguntou sobre Tchekhov, autor que ambos admiram.

Gary, surpreendentemente sério, declarou sua admiração, dizendo que o autor russo era tão bom que o intimidava. Ele acha que ninguém conseguiu captar a essência da natureza humana tão bem quanto Tchekhov, e que se ele não pudesse ser tão bom quanto ele, não valeria a pena escrever. Completou dizendo que Tchekhov foi uma das melhores coisas que saíram da Rússia e a coisa mais bela que ele encontrou na vida.

Devo dizer que a leveza desta penúltima mesa teve o tom ideal para um melancólico último dia em Paraty. Quase todos os presentes riram a bandeiras despregadas, enfeitiçados pelo carisma de Gary Shteyngart e o discurso da Hanif Kureishi. Apesar dos autores serem brilhantes no que fazem, grande parte do mérito dessa mesa vem da qualidade do mediador, que soube conduzir esses dois sátiros como um bom maestro, fazendo perguntas acertadas e pertinentes, equilibrando o humor exagerado de Gary sem deixá-lo constrangido. A mesa foi conduzida com naturalidade, deixando a plateia com um sorriso no rosto, e o coração leve.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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