Flip 2012 – O mundo de Shakespeare

Mediada por Cassiano Erick Machado, a sexta mesa da Flip 2012 conversa sobre Shakespeare. Participaram dessa discussão James Shapiro, autor de Quem escreveu Shakespeare e 1599 – Um ano na vida de Shakespeare, e por Stephen Greenblatt, que escreveu Como Shakespeare se tornou Shakespeare, já resenhado aqui no Meia Palavra, e do recém lançado A Virada – o nascimento do mundo moderno.

A tenda do telão estava repleta, mas o silêncio reverente imperou. A mesa abre com a leitura do poema Viagem na Família, do homenageado Carlos Drummond de Andrade. Cassiano aproveita a deixa e cita o poeta “quando não se falar inglês, se falará Shakespeare”.

Mostra também uma imagem do First Folio, com uma das raras imagens atribuídas a Shakespeare. Ao lado da imagem, um texto ao leitor escrito por Ben Johnson, que diz algo como “não olhe a imagem, veja o livro.” Os livros dos dois autores aos pés do mediador, que lança a primeira pergunta: Teria Shakespeare existido?

Percebo neste momento que a emissão feita pela Flip na Tenda do Telão utiliza o áudio da tradução simultânea. Ansiosa por ouvir a voz dos autores,  sigo para o balcão e solicito um headset, disponível para todos na tenda. A transmissão em inglês é baixa, e compete com a voz da tradução simultânea da tela, mas não me importo. Sou um pouco preciosista. Gosto da naturalidade da conversa sem intermediários, prefiro ouvir o inglês claro de James Shapiro e Greenblatt.

James Shapiro toma a palavra e nos conta sobre esta controvérsia acerca da existência de Shakespeare. Diz que não importa tanto se ele existiu, mas “a pergunta por trás da pergunta”, se um gênio criativo como Shakespeare poderia existir, ser um homem como os demais. Conta-nos que parte desta controvérsia devemos a Freud, e sua teoria sobre Hamlet e a relação entre Shakespeare e seu pai. Quando descobre que a peça foi escrita antes da relação que confirmaria esta proposição, ao invés de descartá-la, negou a existência de Shakespeare.

Então, o mediador questiona a influência da época em que o Bardo viveu na escassez de documentos sobre sua vida. Stephen Greenblatt diz que o espantoso é exatamente o contrário. Uma vez que Shakespeare não era religioso extremista, nem santo, nem nobre, a gama de documentos sobreviventes, como sua certidão de nascimento e até mesmo seu testamento, é bastante contundente. Acha interessante o fato de ele ser tão famoso em seu tempo, a ponto de ter um retrato gravado no First Folio, algo que não era praxe nas publicações da época.

No entanto, Greenblatt complementa,  apesar de haver mais documentos do que  o esperado, estes não são exatamente os que gostaríamos de ter acesso, como seriam os rascunhos de Shakespeare, um diário, ou o relato de amigos e da família. O que faz de Shakespeare tão notório é o fato de ter descoberto uma substância viva, presente no sangue, sua essência, que ele poderia usar em suas obras.

Cassiano então questiona sobre a existência de escrita colaborativa na obra de Shakespeare. Shapiro acredita que sim, e que faz pouco tempo, uns 20 anos, que conseguimos parar de idealizar Shakespeare como autor único de suas obras, e aceitar que ele tinha colaboradores. Continua, dizendo do hábito de Shakespeare em reescrever compulsivamente suas peças, e que por isso as maiores evidências de colaboração estão em suas últimas peças, como Péricles, cuja primeira parte não parece pertencer a Shakespeare; como Henrique VIII e também em sua “obra perdida”. Shapiro confessa que apesar de saber da existência de uma digital literária, algo no discurso de um autor que o torna único, não é especializado no assunto.

Stephen Greenblatt admite idolatrar Shakespeare e nos conta que, apesar de haver uma colaboração, acredita que Shakespeare conseguia indeterminar a voz do colaborador ao abordar temas conhecidos, temas históricos, o que seria para Greenblatt um “truque de gênio”. O Bardo reciclava e desconstruía histórias de outros autores, para reconstruí-las a seu modo. Dessa maneira, acredita Stephen, também se configurava a colaboração.

Shapiro complementa, afirmando que, por outro lado, os organizadores do First Folio deixaram de fora muito do que soava extremamente colaborativo. O mediador direciona o debate questionando o quão comum era essa prática de reciclagem de obras, e se havia o conceito de plágio na época de Shakespeare.

Stephen Greenblatt acredita que os autores da época de Shakespeare não possuíam direitos sobre sua obra.  Alguns autores, como Ben Johnson,  protegiam seus escritos, mas a maioria não. Sobre a reciclagem, ele nos lembra que os plots de filmes atuais são frequentemente reciclados, e nos lembra que Shakespeare fazia parte da mídia popular.

O que o destacava da multidão era seu poder de transmitir, um poder tão forte que não se precisa lê-lo no original para percebê-lo. Ele era inquietantemente bom, melhor que qualquer um, em qualquer momento.

Já Shapiro declara que, apesar de pensarmos em Shakespeare como um escritor, ele era, antes de tudo, um excelente leitor. Fala novamente das reescritas, contando-nos que uma das versões de Rei Lear, o final é feliz. Stephen Greenblatt fala que Shakespeare tirava partes de sua peça que dariam sentido à narrativa.

 Shapiro diz que ele é exímio em localizar as partes inertes de sua obra e expurgá-las nas versões posteriores. As alterações constantes eram em parte relacionadas à percepção que Shakespeare tinha de seu mundo, de como ele mudava.

Shakespeare possuía seu próprio teatro, e ações sobre a companhia de teatro que apresentava suas peças, portanto o mediador questiona os autores sobre o controle da obra, tanto o de qualidade, como o autoral. Com bastante bom humor, Greenblatt relata que Shakespeare foi o único escritor de teatro de seu tempo que realmente ganhou dinheiro com sua obra. Enfatiza: muito dinheiro MESMO. Conta-nos que Shakespeare era um empreendedor, que se mantinha extremamente ocupado.

Ele graceja, diz ter a curiosidade de saber com quem o Bardo dividia os lençóis em 1599, e que fez a pergunta a James Shapiro, e obteve como resposta um objetivo: ninguém! Ele estava muito ocupado. As conjecturas não param por aí. É a vez de Shapiro se questionar como Shakespeare se mantinha acordado, já que a cafeína não fazia parte do cotidiano inglês de seu tempo. Bom, rebate Greenblatt, ele morreu bem jovem! Risos na tenda. James Shapiro, ainda se divertindo com as conjecturas, fala que essa conversa não existiria se um vigário escrevesse as memórias de alguém da família de Shakespeare.

Retomando o assunto original, Greenblatt nos esclarece, dizendo que Shakespeare não se preocupava tanto com esse controle (autoral) sobre sua obra, que ele era um homem do seu meio, um homem do teatro, e o entendia bem. Tanto era dedicado a essa expressão da arte que liberava seus textos para outras companhias.

 E somos herdeiros dessa liberação, continua Greenblatt. Somos herdeiros dessa liberação. Shakespeare teria antecipado as mudanças em seus textos, e até mesmo as aprovado, mesmo as mais atuais versões de sua obra.

James Shapiro recorda a audiência que autores não controlavam seu trabalho naquela época. E, caso Shakespeare fosse protetor de sua obra como o foi Bem Johnson, teríamos 18 peças a menos no First Folio, peças como Macbeth.

Cassiano comenta e questiona sobre a atitude contracorrente de Shakespeare, que não falava diretamente de seu cotidiano em sua obra.  Shapiro conta que Shakespeare achava que se ganha e se perde ao elaborar muito sobre a notícia de ontem, que ele sabia o que a História grava: os momentos bombásticos, de mudança de estrutura.

Stephen Greenblatt também pensa ser Shakespeare muito engajado com o que acontecia em seu tempo, mas não assumia o risco de abordá-los diretamente. Achava mais interessante, mais profundo, transferir preocupações de seus dias para outros cenários e outras épocas.

Apesar da mão doendo de tanto escrever no meu caderninho, não sinto a hora passar, e me espanto quando começam as perguntas da audiência. A primeira já é uma pergunta difícil: Quando Shakespeare ganhou o status de o melhor escritor da língua inglesa?

Para começar, responde Greenblatt, ele era conhecido em seu próprio tempo, o que ajudou bastante, mas que o reconhecimento veio mais tarde, em torno do século XVIII. Diz que em Weimar, na Alemanha, até hoje Shakespeare é cultuado oficialmente. Já Shapiro considera estranho e pouco saudável que tenhamos que escolher UM autor nacional, mas que isso foi bom para Shakespeare. Greenblatt complementa, nos diz que nem todos concordam com a genialidade do Bardo, nos lembra que Tolstoi, por exemplo, o detestava.

O mediador engrossa o rol de perguntas com um questionamento pessoal: até que ponto a leitura frequente de obras passadas afeta o dia a dia dos autores? As respostas são contraditórias. Enquanto Stephen Greenblatt considera que o oposto ocorre com ele, que os textos antigos são dotados de uma aura de atualidade, Shapiro diz ter “vivido em 1599 por quinze anos” durante o processo de escrita de seu livro.

A pergunta seguinte é sobre a célebre citação shakespeariana: “to be or not to be”. Por que esta frase se tornaria o emblema da obra de Shakespeare? Tanto Shapiro quanto Greenblatt concordam. Essa era uma das suas especialidades: dirigir-se a questões fundamentais do ser humano com palavras curtas, sonoras e simples. Shapiro diz que Shakespeare sabia que “o que fica são as perguntas”.

Após uma digressão sobre o Shakespeare inventor de palavras, vem a última pergunta: Qual o personagem preferido dos autores? Shapiro fala bonito, declarando seu amor para um serviçal em Rei Lear que ao ver seu mestre cegar um homem tenta impedir, mesmo sabendo que morreria por isso, enquanto Greenblatt, mais convencional, elege Hamlet.

Mesmo com as dificuldades técnicas, não me arrependo de usar o headset durante a apresentação. Esta mesa só comprovou quão bem os organizadores da FLIP escolhem os autores e os temas debatidos. Greenblatt e Shapiro demonstraram sincronia de pensamentos, e complementavam as falas um do outro. Dois poços de conhecimento shakespeariano, dos quais só vimos a superfície na breve hora que passamos a ouvi-los.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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