Flip 2012 – Literatura e Liberdade

A oitava mesa da Flip 2012 teve mediação da portuguesa Alexandra Lucas Coelho, e a participação do poeta sírio Adonis e o autor nascido no Líbano e vencedor do Prix Goncourt Amin Maalouf.  Após a leitura de O lutador, do homenageado Drummond, Alexandra abriu a conversa falando que a cultura é a melhor saída para a política, e convidou o tradutor de Adonis, Michel Sligam, para a leitura de três poemas do autor. Para ouvi-lo, os autores retiraram os fones de ouvido que lhes transmitia a tradução simultânea, um gesto bastante comovente.

Na sequência, a mediadora pediu que Adonis os declame em árabe.  Mesmo sem entender as palavras, o tom de sua voz e seu gestual, seus olhos fechados, transmitiram toda a emoção da poesia. Amin Maalouf, por sua vez, leu em francês – o idioma em que escreve – um trecho de seu livro lançado ano passado O mundo em desajuste. O restante da conversa se passou neste idioma.

Começou enfim, com uma conversa sobre a herança paterna, com uma anedota referente ao pai de Amin, ele também um poeta, que decorara cerca de cem mil versos da poesia árabe. Muito desse feito, disse Amin, diz respeito à geração à qual seu pai pertence, que, diferentemente da nossa,  não possui tantos artefatos de memória artificial. Seu pai, lembrou ele, jogava com seus amigos de recitar versos começando com a última letra do verso recitado anteriormente, numa brincadeira que podia varar a noite.

Adonis falou também do pai de Maalouf, a quem conheceu nos anos 60, e que foi uma grande influência para ele. Falando de sua infância, disse que só foi à escola depois dos 12 anos. O pai fora seu primeiro tutor, e o iniciou na poesia e na literatura árabe, bem como no Corão. Disse Adonis que ir à escola o “mudou completamente”.

Recordou que mesmo durante seu tempo aprendendo com seu pai, sentia uma espécie de revolução interna contra o passado, contra a sua cultura, mas que foi durante a escola que teve acesso a obras que não pertenciam à cultura árabe. Contou que o que abriu seus olhos foi a leitura da criação marginalizada de poetas revolucionários e contra a religião.

Para Adonis, nenhum grande poeta é religioso; a poesia deve ser anti-religiosa para ser boa. Falou também sobre a leitura de grandes nomes do Misticismo, que teriam sido protagonistas de uma revolução Cultural, com um texto mais profundo e lógico que a filosofia e que alteravam a noção de Deus e da identidade. Relatou que, para ele, a identidade é uma criação, precisa do outro,  que “o outro é uma dimensão do ser”.

Dividiu com a plateia também seu pensamento sobre a suposta dicotomia Oriente X Ocidente na criatividade literária, sobre a qual possui uma forte opinião. Para ele esta dicotomia simplesmente não existe. Seria uma das criações do imperialismo político. Amin concordou, e diz que mesmo na sua infância não sentia essa diferença, já que sua criação foi influenciada por culturas diversas e que em todas elas busca sua inspiração.

A mediadora perguntou então sobre a cidade que ambos os autores têm em comum: Beirute. Para Adonis, Beirute é uma cidade aberta para o futuro, nunca fechada, sempre em movimento, um projeto aberto, uma aventura, um sonho, uma digressão. Enfim, moderna. Ele teme que o ocidente político tente apagar essa Beirute, transformando-a em algo sem diversidade, sem distinção, monótona e monoteísta; ele entende isso como uma falta de sensibilidade ocidental à essa cultura árabe.

Amin , falando ainda de sua infância, contou que foi sua vó que decidiu que a família sairia do vil; especificamente, na frente de uma universidade americana por lá. Era um lugar de muitas comunidades e de muita tolerância, e foi um choque descobrir que o mundo não é assim, e da fragilidade dessa estrutura. Para ele, Beirute é um laboratório de coexistência e não se organiza a coexistência.

A conversa sobre política se aprofunda quando Alexandra pergunta sobre os 3 anos do governo de Barack Obama e a chamada Primavera Árabe. É um assunto sensível para os autores. Após brincar com a mediadora, dizendo que sobre o Obama devia-se perguntar aos brasileiros, Adonis diz que quer comentar sobre a Primavera Árabe, que foi um evento protagonizado pelas seções marginalizadas da sociedade: jovens e mulheres.

Mas lamenta que estes tentem mudar o regime, quando é a sociedade que deve mudar. Acha que é necessária uma revolução que mude esta sociedade medieval onde a mulher quase não existe como cidadã, como ser humano, não é dona de suas vontades, nem faz parte da constituição. Para Adonis, a separação entre Religião e Estado é urgente, assim como agregar direitos à mulher. A sociedade não será livre enquanto a mulher não for livre. Sua declaração mais bombástica, no entanto, não diz respeito à Primavera Árabe, mas ao presidente americano: “Obama é só uma máscara negra sobre um homem branco”.

Já Amin, que não compartilha a história de vida de Adonis, se diz um otimista inquieto. Acredita que o movimento começado por Obama seja legítimo, disse não gostar do termo “Primavera Árabe”, pois “já assistimos a todas as estações”. No entanto, entende que o movimento tenha um elemento encorajador: a criação do hábito de votar, de organizar eleições, algo que deve ser preservado.

Como Adonis, porém, ele acha que o combate mais difícil será mudar a mentalidade da sociedade árabe e que os intelectuais serão parte fundamental dessa mudança. Claro, diz ele, que há coisas nessa sociedade que são dificilmente reversíveis, mas que nisso é menos pessimista que Adonis, tem esperanças.

Adonis falou ainda sobre os regimes árabes, dizendo que nenhum deles é defensável, posição que compartilha com Amin Maalouf. Porém, para ambos, o fim do regime não é a solução, pois se deve saber o que fazer em seguida. Adonis ainda retoma o assunto, declarando que se não houver a separação entre religião e estado, a troca do regime seria como “trocar um fascismo militar por um religioso”.

Para ambos, a saída é cultural. Não se deve entender a cultura como elemento marginal, ela deve ter primazia. Uma das saídas dessa situação se daria através da literatura árabe criativa, já que esta é por definição, pelo menos para Adonis, transgressora e questionadora, em confronto direto com o inconsciente religioso deste povo, para o qual a cultura religiosa não é pessoal, mas uma lei, uma instituição, onde Deus não teria mais nada a dizer porque teria dito sua última palavra ao último profeta.

Amin, que não cresceu num mundo islâmico, acha que a ficção reimagina o mundo, e acredita que o Romance nasce da liberdade individual. Porém, para ele, a literatura se beneficia da tensão, dessa pressão da autoridade. Lembra-nos que grandes momentos literários seguem momentos de grande tensão política.

Quando chegamos a esse ponto, o tempo já tinha estourado há muito. Não houve oportunidade de ouvirmos os autores responderem questões da audiência, o que foi uma pena. Saí embevecida com as palavras francesas com sotaque árabe, que acabara de ouvir.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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