Flip 2012 – Drummond, o poeta moderno

Clique para ver grandão

É cedo na sexta-feira iluminada de Paraty, e o assunto é Drummond. Nesta mesa participam Antônio Carlos Secchin que, além de poeta e crítico é professor titular de literatura na UFRJ. Ele conversa com Alcides Villaça, também ele crítico, poeta e professor, mas da Universidade de São Paulo; num debate mediado por Flavio Moura.

Chego logo após o começo, mas infelizmente perco a leitura de Villaça para O Elefante, famoso poema de Drummond. No momento que entro na tenda do telão, Secchin parabeniza o colega por sua leitura.

Secchin, por sua vez, faz uma leitura do poema Áporo. Sua leitura é crítica e fascinante. Fala das diferentes leituras e interpretações do poema, da alusão a Mallarmé ao significado da palavra áporo. Da inexistência da palavra orquídea em alguns dicionários. Faz assim, do poema aparentemente simples, uma miríade de poemas, de ideias.

Logo após, é a vez de Villaça falar sobre O Elefante. Fala da dicotomia entre o homem e seu disfarce. Diz que “numa primeira leitura, o leitor não tem a menor ideia de porque alguém se ocuparia dessa tarefa insólita: fabricar um elefante”. Lembra que o poema fala mesmo é da busca pela amizade, a amizade verdadeira. Drummond, para ele, busca o absoluto, seja o amor, o conhecimento, a amizade ou mesmo a poesia. Ainda falando de O Elefante, Villaça lembra que Drummond questionava a política. “Será que sou um animal político”, diz Drummond, aqui na voz de Villaça.

Lidos os poemas, o assunto passa a ser a obra A Rosa do Povo, a melhor de Drummond e composta por 55 poemas. Secchin considera que é neste livro que Drummond deixa de ser modernista, que seu estilo muda e que, mesmo que a maior parte dos poemas não seja regrada pela métrica, ela existe, por exemplo, em Áporo. Ele e Villaça lembram que, apesar de Drummond ser conhecido pelos versos livres e brancos, ele sabia, e muito bem, usar a métrica a seu favor.

A seguir, Secchin fala do livro recém publicado, 25 poemas da Triste Alegria, contendo poemas de Drummond datados de 1924, seis anos antes da publicação de seu primeiro livro. Secchin diz que este seria um “quase livro de um pré poeta”, no qual declara-se admirador de Olavo Bilac, um conhecido parnasiano.

Esta descoberta põe novamente na roda a questão do Drummond modernistas. Villaça nos fala das cartas trocadas entre Mário de Andrade e Drummond. Para ele, Mário de Andrade “soube ler a personalidade de Drummond”. Na sequência, diz que Drummond tinha dificuldades em ver o Brasil como uma unidade. Para ele, ainda segundo Villaça, para Drummond existiam Itabira e o cosmos.

O mediador pergunta então sobre o impacto da poesia modernista de Drummond na época dele. A guisa de resposta, Secchin lê Quarteto, texto seu publicado em O Globo distribuído aqui na Flip. Claramente inspirado na Quadrilha de Drummond, o texto começa com as seguintes palavras: “Mário amava Manuel, que amava Carlos, que amava João, que não amava ninguém”. Refere-se a Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Villaça lembra-nos da admiração que Manuel Bandeira tinha por Drummond. E demonstra que a recíproca é verdadeira. Conta uma anedota acerca do poema Gesso, de Manuel Bandeira, que acreditava que “só é verdadeiramente vivo quem sofreu”. Compara-o ao poema Cerâmica de Drummond, citando-o: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. / Sem uso, ela nos espia do aparador”. Villaça declara a estranheza com a qual Drummond enxergava o mundo. Lembra-nos que Mário de Andrade entendia isso, entendia essa personalidade do amigo, ainda mais que sua obra.

O tempo do colóquio escasseia, mas os autores ainda têm tempo de ler mais dois poemas de Drummond, que fecham a mesa. Foi emocionante, e a plateia do telão, ciente de não estarem na tenda dos autores, aplaude ruidosamente a imagem na tela. Mais um momento emocionante desta Flip.

Anúncios

Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
Esse post foi publicado em FLIP 2012, Literatura e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s