Flip 2012 – Ficções e Histórias

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Paraty, quinta feira 17:15h. Estou na cidade há menos de 30 minutos, sentada nas últimas filas da tenda dos autores. O tema é “Ficção e História”, uma conversa entre Javier Cercas, autor de Os Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante, e Juan Gabriel Vásquez, autor de Os Informantes e A história secreta de Costaguana, intermediada por Ángel Gurria-Quintana.

Abrindo com excelência, o mediador cita Robespierre: “História é Ficção”. A temática é interessante e complexa, e trata da dificuldade em escrever um texto historiográfico, e da sua adaptação para a linguagem do romance.

Como parece praxe nas mesas da Flip, tudo começa com a leitura de trechos das obras dos autores presentes. Juan Gabriel lê um trecho de A história secreta de Costaguana, que trata da história da Colômbia e da construção do canal do Panamá. Nele, o narrador (José Altamiro) conta de sua experiência auxiliando Joseph Conrad a escrever Nostromo, livro de 1904. Com voz de leitor experiente, Juan escolhe falar do momento em que Altamiro descobre o destino de seu pai, no capítulo “Na Barriga do Elefante”(p.144).

Quando questionado sobre a ideia para o romance, Juan Gabriel confessou espanto por nada parecido ter sido publicado antes, sobre este importante evento da história da Colômbia, e pela própria presença de um romancista como Conrad.

Na sequência, Javier Cercas lê um pedaço de seu Anatomia de um Instante, livro que trata do 23-F, o dia 23 de fevereiro de 1981, data da nomeação do segundo presidente espanhol após a era Franco, e da tentativa de Golpe de Estado no ataque dos militares à Câmara dos Deputados. O autor, por sua vez, escolheu ler o momento da nomeação do presidente Adolfo Suárez, um “arrivista franquista” que acabou se tornando um dos heróis da democracia, ao não se jogar no chão durante o ataque à Câmara. Javier Cercas diz que seu livro é uma não-ficção que não deixa de ser romance, e também se diz surpreso com a escassez de obras tratando do assunto com clareza. À pergunta do mediador “Como os autores trabalham com as fontes históricas, principalmente quando se escreve ficção?”, Juan Gabriel responde parafraseando Milan Kundera: “o romancista deve escrever sobre o desconhecido”. Citando a obra de Carlos Fuentes, Terra Nostra, como exemplo, diz acreditar que o dever do romancista é “reinventar o mundo” e que não deve contar as coisas como aconteceram, mas sim como poderiam ter acontecido.

Javier Cercas, com um discurso claro e cativante, nos fala que tanto o historiador como o romancista buscam a verdade. Mas as verdades buscadas são distintas, contraditórias e por vezes opostas. Enquanto o historiador procura a verdade concreta do que, de fato, aconteceu, a verdade literária procura uma resposta abstrata, moral e universal, em busca dos porquês.

Para Cercas, cada romance segue regras próprias e únicas, e que a obscuridade e o mistério que envolviam a documentação referente ao momento histórico de Soldados de Salamina fez com que ele usasse mais a estrutura de romance: “iluminei com a ficção a obscuridade da história”. Já o processo de escritura de Anatomia de um instante foi diferente. A obra nasceu como romance e tomou posteriormente os rumos da não-ficção, na procura de duas verdades: o que ele considera raro tanto na literatura quanto na historiografia. Em um instante de descontração da plateia, que silenciosa acompanhava ávida as palavras de ambos os autores, Cercas nos fala do momento em que esse segundo rumo foi definido. Para tanto, cita Umberto Eco, que diz que 25% dos britânicos pensam que Winston Churchill era um personagem fictício. Neste caso, a falta de documentação confiável o fez buscar a verdade histórica.

Para os autores, cada livro, cada obra parte de uma pergunta. Javier fala das fases do Romance, que começariam com a pergunta que se desenvolve numa busca até a resposta. Mas as respostas da ficção normalmente geram mais perguntas, complementa Juan Gabriel. E é por isso que os escritores escrevem sobre o que ainda não sabem, concordam os dois.

Juan Gabriel, perguntado sobre a quem pertence a história, relata o fascínio, a obsessão que o levou a escrever Os informantes: a relação entre a história e o relato, a descoberta de novas verdades. Compara sua obra à obra do colega, dizendo que ambas buscam o processo de escrita, a fragilidade e a vulnerabilidade do passado. Em um momento filósofo, compara a Literatura a um fósforo aceso num lugar escuro. Não serve para iluminar o caminho, mas serve para descobrir a dimensão do escuro; deixam claro que o passado não passou, está vivo, é “uma dimensão do presente” nas palavras de Cercas, é algo frágil e vulnerável, propenso a se alterar quando investigado. Foi a partir dessa constatação que mudou sua forma de escrever.

A conversa está tão interessante que não se vê o tempo passar, e quando menos esperamos as perguntas dos participantes já estão nas mãos do mediador. Fala-se de Gabriel García Márquez e de sua influência na literatura colombiana, e sobre a presença do pai de Javier Cercas em suas obras. Tanto Javier Cercas quanto Juan Gabriel Vásquez são exímios oradores. Seu discurso sugere intimidade, aquela cumplicidade autor-leitor que por vezes experimentamos ao ler um bom livro. São também autores de visão bastante parecida, o que não gerou um debate, mas sim uma troca de ideias descontraída e interessante. Minha vontade era ficar ali por horas, só aproveitando o colóquio. A Flip não poderia começar melhor para mim.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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