Memórias gastronômicas de todos os tempos, seguido de Pequena História da Culinária (Alexandre Dumas)

“Mais, quelque part que l’homme soit né, il faut qu’il mange; c’est à la fois la grande préoccupation de l’homme sauvage et de l’homme civilisé. Seulement, sauvage, il mange par besoin. Civilisé, il mange par gourmandise”(Alexandre Dumas). ((Tradução livre: “Mas, onde quer que o homem tenha nascido, ele precisa comer; é ao mesmo tempo a grande preocupação do homem selvagem e do homem civilizado. Só que o homem selvagem come por necessidade. Civilizado, come por gula”))

Alexandre Dumas é um dos grandes responsáveis pela minha paixão pelos livros e pela ficção histórica. O excêntrico autor excedia em muito o campo da literatura de capa e espada, tendo escrito relatos de viagem, peças de teatro, ensaios, estudos históricos, etc. Seus contemporâneos não conseguiam acreditar que este monstro literário, bon vivant, glutão, pródigo e mulherengo pudesse ser tão prolífico, e Dumas sofreu alguns processos que o acusavam de empregar vários ghost writers, supostamente os verdadeiros autores de sua gigantesca bibliografia.

Os últimos anos dessa vida fascinante, no entanto, foram dedicados a um projeto bastante peculiar. Apaixonado pela boa comida, ele mesmo um bom cozinheiro – se acreditarmos em suas palavras, Dumas viajou em busca da boa comida. Os resultados dessas viagens, feitas especialmente para restabelecer-se de alguma doença, se encontram num magistral Dicionário de Culinária, onde a verve literária encontra o culto gastronômico de maneira verdadeiramente única.

Para quem não tem paciência para dicionários, a Zahar editou  as Memórias gastronômicas de todos os tempos, um livro de apenas 148 páginas, contendo uma carta e a introdução do dito dicionário. A carta é direcionada a seu amigo, Jules Janin, que era escritor e crítico literário. O que era para ser uma “conversa rápida” se torna uma missiva de mais de 100 páginas, nas quais ele discorre sobre seus dias em uma aldeia na Bretanha, sobre a história da gastronomia, sobre rinhas entre grandes gastronomistas de sua época e até mesmo algumas receitas.

Segue-se a “Pequena história da culinária”, uma carta ao leitor que serve de introdução ao Grande Dicionário de Culinária. Aqui o tema é principalmente o do título. Dumas inicia o capitulo no Éden, e o encerra na abertura do primeiro restaurante em Paris. É uma verdadeira aula, na qual a comida e os costumes dela advindos são os personagens principais, figurando detalhes como o uso de temperos e especiarias e a introdução dos talheres à mesa. Os dois documentos compartilham um ar de intimidade e informalidade. A edição da Zahar conta ainda com extensas notas, explicando quem são todos aqueles personagens históricos citados no texto, bem como um “Cardápio D’Artagnan”, de receitas recolhidas do Grande Dicionário.

Com um bom humor patente e um texto cativante, sentimos vontade de participar de uma de suas ceias, nas quais reproduzia cardápios históricos. Ou ter visitado a Bretanha com ele e seu amigo, cozinhando frutos do mar e peixes frescos adquiridos pela boa vontade de seus vizinhos. Pelo conteúdo de sua carta, percebemos que não tinha medo de por a mão na massa e preparar sozinho alguns pratos. Suas dicas lembram muito algo que poderia ser dito hoje por Jamie Oliver, Nigella ou Julia Child, em um de seus programas.

As Memórias Gastronômicas são, antes de tudo, o relato da paixão do artista, de sua curiosidade infinita, de seu talento para a História. A simpatia pelo missivista é imediata, somos fisgados pelo Alexandre Dumas contador de histórias.  Seu nível de erudição, longe de assustar, fascina. Ele transita entre as curiosidades da arte culinária à história, às memórias com uma fluidez particular.

É como uma boa conversa de bar, em que um assunto se engata no próximo, e que dura enquanto durar a bebida. Sou fã incondicional, então aceito suspeitas quanto à minha paixão por seu estilo. Mas acredito que alguém que conseguia escrever 3 volumes por mês – o que, estou convicta, ele fazia com os próprios punhos –  e ainda escrever uma carta como a que inicia este livro, mereça toda a minha admiração e respeito.

Memórias gastronômicas de todos os tempos, seguido de Pequena História da Culinária (Alexandre Dumas)

Editora: Jorge Zahar

Ano: 2005

Páginas: 148

Tradutores: André Telles, Sandra Secchin

Preço Sugerido: R$ 39,10

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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