Paris, a festa continuou (Alan Riding)

Alan Riding nasceu no Brasil, é filho de britânicos e desde 1989 está radicado na França como correspondente do New York Times. Meu primeiro contato com um de seus textos foi uma excelente resenha do livro HHhH, no jornal norte-americano, livro este também resenhado aqui no Meia Palavra. Admirei seu texto como sendo ao mesmo tempo conciso, elegante e altamente informativo. Logo me interessei por seu livro Paris, a festa continuou. Minha curiosidade foi atiçada pela expectativa do trabalho que um bom jornalista poderia fazer ao falar de temas tão instigantes como a cultura francesa e a Segunda Guerra Mundial.

O livro de Riding é, pelo menos, o quinto livro que li que trata sobre a época da ocupação nazista na França entre junho de 1940 e agosto de 1944. Já conhecia o destino das obras de arte “abandonadas” pelos judeus ao ler A dinastia Rothschild, da fuga dos judeus para os Estados Unidos e América Latina no Navio do Destino, sobre as dificuldades que os judeus enfrentaram na zona ocupada n’O diário de Hélène Berr e mesmo o que passaram Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre no lindo Tête-à-Tête. A obra de Riding, no entanto, oferece um panorama geral sobre o destino das artes durante os quatro anos de ocupação, um pano de fundo complexo para todas as histórias acima.

Seu ponto de partida são os anos pré-ocupação. O autor nos apresenta a uma cultura fervilhante em todos os ramos da arte, resquícios dos anos de ouro relatados na Paris é uma festa, de Ernest Hemingway. Conhecemos uma Paris com 105 cinemas, inúmeros cabarés, teatros e artistas, onde o entretenimento e a arte “séria” andam lado a lado. Conhecemos pouco a pouco as inclinações políticas de grandes artistas, como Céline, Malraux e Gide. Apesar de efervescente, o cenário apresentado já traz notas que determinariam a história dos anos que se seguiram, como uma tendência antissemita, antimaçônica e a criação do partido Comunista na França.

De grupos que divergiam artisticamente, formam-se pouco a pouco grupos ideológicos, divididos em pétainistas, nazistas ou membros da resistência. Mas as delimitações destes grupos são tênues, e muitas amizades as ignoravam. Cada cena artística teve seus expoentes, colaboradores do regime, judeus deportados ou salvos. Todas possuem heróis e covardes e todas as cenas floresceram apesar, ou por causa, da ocupação nazista. Nos bastidores da criação, vemos a influência da propaganda nazista, da censura, das escolhas feitas. Faziam parte do dia a dia dos cânones da arte francesa os acordos e publicações clandestinas, manobras para despistar a Propaganda Staffel e a censura do governo de Vichy, a decisão entre apresentar suas obras para um público alemão.

Mas também somos confrontados com a realidade das milhares de obras pilhadas, escondidas ou destruídas pelo regime nazista. Grandes obras às quais não teremos mais acesso, pois na época eram consideradas “degeneradas” ou “antigermânicas”. Àqueles grandes nomes, com futuros promissores negados pela câmara de gás ou nas doenças epidêmicas dos campos de concentração; à sombria conotação de obras aparentemente singelas e apolíticas.

Somos levados a reavaliar a posição de todas as partes do processo, não só a postura cruel do nazista, mas das decisões do governo “livre” de Pétain em Vichy, a história humanizadora de alemães amantes da boa arte, que salvaram vidas, ou obras que seu regime destruiria. Revemos também as posições dos artistas. Sem direcionar seu raciocínio, Alan Riding apresenta fatos relacionados à época a partir do que nela foi produzido, mas também contando com várias entrevistas com sobreviventes da guerra, cuja arte ainda é relevante.

Numa prosa fascinante, bastante distante de termos acadêmicos que costumam afastar os leitores deste gênero conhecido como não ficção,  conhecemos não só a Paris nos anos negros, mas a França como um todo através de sua vida cultural. Uma vida cultural que pode tê-la poupado de um destino ainda mais negro. Uma cultura que encantava os mais altos escalões do regime nazista, e também os mais fanáticos membros da resistência. Uma cultura pela qual ofereceram-se vidas, fizeram-se sacrifícios, se viveu.

Se eu tenho uma crítica a fazer sobre a edição brasileira, seria a escolha do título. Embora eu entenda a referência à obra de Hemingway, acredito que a relação entre a arte e o momento político seja melhor representada pelo título original And the show went on, inspirado, entre outras coisas, numa famosa música do Queen. Apesar de ambos serem referências válidas, entendo que o show continuou pois devia continuar, não podia parar. A vida cultural intensa fazia (e faz ainda) parte da identidade nacional francesa, e era ao mesmo tempo o ópio da população e uma declaração. A França podia estar ocupada, mas a nação francesa sobrevivia.

PARIS A FESTA CONTINUOU

Alan Riding

Título original: AND THE SHOW WENT ON

Tradução: Celso Nogueira e Rejane Rubino

464 Páginas

Não Ficção

Selo: Companhia das Letras

Preço sugerido: R$ 54,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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