La boîte à Pensées: Varekai

“The word Varekai means “wherever” in the Romany language of the gypsies the universal wanderers. This production pays tribute to the nomadic soul, to the spirit and art of the circus tradition, and to the infinite passion of those whose quest takes them along the path that leads to Varekai.” ((Site oficial do espetáculo Varekai, do Cirque du Soleil.))

Sexta feira, 15 de junho de 2012. Quase 6 horas da tarde. Já cansada de uma semana especialmente puxada no trabalho, estou pensando basicamente na minha cama e na minha TV quando recebo um telefonema. Minha mãe. “Oi, tem alguma coisa marcada para hoje à noite?”. Querendo responder “Sim, dormir”, resolvo dizer “Não, por quê?”. A resposta foi, no mínimo, inesperada: “Quer assistir ao Cirque du Soleil?”. Em segundos, todo o cansaço, a expectativa pela volta do marido, a festa de aniversário por planejar, tudo ficou em suspenso. “Cirque du Soleil? Assim, do nada?”. Sim. Eu tive essa sorte.

Acontece que meu irmão – a quem não tive ainda a oportunidade de agradecer como se deve – conhece algumas pessoas ligadas ao espetáculo, e me deu de presente um ingresso para a apresentação. Saí correndo do trabalho, empolgada com a possibilidade de ver um espetáculo único, de uma companhia de circo única, algo para lembrar para sempre. No táxi, tentando tirar a cara de cansada com um pouco de maquiagem, o primeiro percalço: quebrei meus óculos. No meio. Chegando na tenda do espetáculo, o segundo percalço: “Tec”, e lá se foi metade do salto do meu sapato.

Foi assim, meio cega e meio manca que cheguei ao lugar marcado naquela tenda abarrotada de gente, com um lindo palco no meio. Decidi segurar as duas metades dos óculos durante a apresentação, mas pelo incômodo resolvi deixar para o último segundo. Uma das (poucas) belezas em ser míope é ver o mundo num permanente desfocado místico. Nós, míopes, temos instalados nos olhos um filtro que deixa tudo meio mágico, como envolto em brumas.

As lâmpadas, penduradas por fios para iluminar a plateia, virou para mim uma miríade de constelações, os bambus iluminados do palco, que simbolizavam a floresta, viraram delicadas fitas em espiral, etéreas. Quando as constelações começaram a fenecer, coloquei meus monóculos, esperando muito, de tudo. Foi tudo, e muito mais. A história de Varekai começa com a queda de Icarus. Ele tem suas asas arrancadas por criaturas de uma floresta, e parece rendido sob uma rede, até que ascendem, homem e rede, ao céu.

A beleza da interação entre o artista e aquela singela rede é difícil de colocar em palavras. Sua luta silenciosa, acompanhada por uma música instrumental acompanhada de poucos acordes vocalizados, traduzia-se imediatamente aos sentidos. Neste momento fui completamente fisgada. Deixei de estar em Curitiba, deixei de estar e qualquer outro lugar. Estava na floresta encantada. A história contada pelo Cirque du Soleil não foi feita para ser racionalizada, mas experimentada. Ela pede entrega, ela pede uma volta à infância.  Ela espera que acreditemos na magia.

E eu acreditei em magia naquela sexta-feira fria de junho. Neguei a presença de cabos de segurança e armadilhas mecânicas no palco. Acreditei em voos impossíveis e em personagens de um mundo imaginário. Mesmo os interlúdios humorísticos não me distraíram. Pelo contrário, me fizeram imergir num mundo novo. Foi difícil levantar da cadeira para o intervalo. Foi difícil sair de Varekai e voltar ao mundo em que meus óculos estavam quebrados e eu estava manca, em que o esforço para não cair me dava dor de cabeça.

A segunda parte do show me ganhou, surpreendentemente, num esquete envolvendo um cantor, um microfone, um facho de luz e a música Ne me quitte pas. Neste momento, esqueci o trauma do intervalo e voltei ao mundo de sonhos. A sensação foi exatamente a mesma de acordar de um sonho bom, tentar dormir novamente para continuar sonhando, e conseguir. Uma pena que tenha passado tão rápido, e eu tenha sido novamente arrancada deste sonho.

Fui tomada de uma “depressão pós espetáculo”, uma vontade de não sair daquela tenda. Voltei para casa quase sem falar, tentando reviver o deslumbramento daquelas horas, em que tudo estava tão errado, mas tudo estava tão certo. Por sorte, o resto do fim de semana foi quase tão mágico quanto o espetáculo…

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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