Dr. Heidegger's Experiment (Nathaniel Hawthorne)

Dr. Heidegger é um médico de reputações um tanto excêntricas. Em seu escritório, finamente decorado, possui uma foto de uma dama que um dia fora sua noiva, um busto de Hipócrates e um enorme livro, que todos consideram mágico. Tentado a fazer um experimento, convida quatro de seus amigos: Mr. Medbourne, Colonel Killigrew, Mr. Gascoigne e a viúva Wycherley para uma reunião. Todos idosos que já viram dias melhores e no presente passam o tempo a reclamar dos áureos tempos vividos, que seus corpos carcomidos e fortunas diminuídas lembram com certa amargura.

O honorável doutor acena-lhes a possibilidade de uma vida nova ao reviver uma rosa morta há mais de meio século. A rosa pertencera à sua falecida noiva e é um memento de seu amor por ela. Alegando um envelhecimento difícil, Heidegger oferece a seus amigos o que chama de água da “Fonte da Juventude”, encontrada por um amigo, ali mesmo nos Estados Unidos. Os amigos não perdem tempo questionando a veracidade de tal água e, copo atrás de copo, sentem seu efeito. Porém, algo inesperado surge deste experimento.

Ao invés das “cobaias” buscarem aproveitar da efemeridade da juventude com sua sabedoria de pessoas mais velhas, quanto mais jovens os corpos, mais inconsequentes as pessoas se tornavam e suas preocupações proporcionais à idade aparente de seus corpos. E logo o efeito acaba. Apesar de seus mais honrosos esforços, seus amigos não apreendem a lição tão honrosamente apresentada e correm atrás da Fonte.

Nathaniel Hawthorne, o autor de A letra escarlatefoi minha mais recente escolha dentro da lista de 100 Contos Essenciais da revista Bravo!. Ao contrário de muitos autores desta lista, já me familiarizei com a prosa de Hawthorne antes da leitura deste conto. Me cativaram a franqueza e a simplicidade de suas palavras, em contraponto à profundidade do assunto abordado. Com Dr. Heidegger’s Experiment não foi diferente. O conto é bastante curto, e tudo que contei nos parágrafos anteriores ocorre num átimo.

O assunto não é simplesmente a Fonte da Juventude, mas a opção da segunda chance, a experiência dos anos e o próprio envelhecimento. Antes de realizar o experimento, o protagonista pede que seus amigos reflitam sobre “passar novamente pelos anos da juventude”. Uma experiência que normalmente vemos com nostalgia, mas que nunca foi exatamente tão boa como nos lembramos. Ele se exime da tentativa de voltar a ser jovem, lembrando-se dos anos passados e das perdas sofridas que nenhuma ruga a menos poderiam compensar.

E se, num paralelo com O Retrato de Dorian Gray, nossas experiências não nos marcarem o rosto, será que não seríamos também inconsequentes? Numa sociedade onde reina a ditadura da beleza e da juventude como a de hoje, este pequeno conto torna-se ainda mais relevante, tanto como leitura quanto como reflexão. E ainda que a história termine de maneira cética em relação ao ser humano perante sua tentação, podemos  pensar a história pela ótica do doutor, esperançosos de um mundo melhor.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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