Contra o dia (Thomas Pynchon)

“O elenco, numa descrição atribuída ao próprio autor, inclui ‘anarquistas, balonistas, jogadores, magnatas corporativos, entusiastas de drogas, inocentes e decadentes, matemáticos, cientistas loucos, xamãs, físicos, ilusionistas, espiões, detetives, aventureiros e assassinos profissionais’ (além de um cão que lê Henry James). ”  ((Lido na orelha do livro Contra o Dia,  na edição da Companhia das Letras.))

Em três linhas e muitas vírgulas, bem ao meu estilo, me apaixonei por Contra o dia. Antes mesmo de ter o livro em mãos conjecturava com meus botões como tais personagens iriam se cruzar, se relacionar. Me intrigavam os plurais. Quando soube que se tratava de um catatau de 1088 páginas, o interesse só fez aumentar, ainda que a ideia de enveredar na obra de um autor bem reputado, mas por mim desconhecido logo por sua mais longa obra tenha me assustado.

Mesclando aventuras no ar, vendetas de faroeste, romances, descobertas científicas e ícones da matemática, Thomas Pynchon apresenta para o leitor uma obra singular. Logo nas primeiras páginas, conhecemos os Amigos do Acaso, a bordo do aeróstato Inconveniência, que participa de uma convenção de balonistas próximos à Exposição Colombina, em Chicago, no ano de 1893. Formada por uma cidade branca, voltada à tecnologia, e uma “cidade negra” dedicada a culturas exóticas, encimada pela primeira Roda Gigante, esta feira é o ponto de partida perfeito para a história que se desenrola nos capítulos subsequentes.

A descoberta da eletricidade e, principalmente, seu controle, foram um marco para a ciência. O homem se via capaz de realizar o inimaginável: capturar e controlar a luz. Isso deu margem às mais diversas experiências, teorias e seitas. A Cidade Branca era um monumento à eletricidade, com seus caminhos  iluminados, barcos silenciosos e aparelhos que, para todos os efeitos, funcionavam à base de mágica.

No outro extremo, as minas de carvão solapavam cada vez mais vidas e os trabalhadores se viam fascinados pelos conceitos do Anarquismo. Dominando o uso dos explosivos, aterrorizando os patrões e sendo por eles aterrorizados, os mineiros de Colorado se veem cada vez mais próximos de uma rebelião. É nesse contexto que conhecemos Webb Traverse, um anarquista especializado em explosivos cuja morte, anunciada na mesma orelha de onde tirei a citação acima, desencadeará mais e mais explosões na vida dos personagens.

E são vários os personagens. Entre a família Traverse, a família Vibe, o P.A.T.A.C, os Amigos do Acaso, as comunidades científicas, os matemáticos de Göttingen e seus amigos, colegas, conhecidos e inimigos às vezes é difícil acompanhar o fio da meada. Personagens se dispersam e se encontram como resíduos de uma explosão, passando por vários lugares no mapa real e levemente imaginário da prosa de Pynchon. E ainda assim, cada personagem é cativante a seu modo. Somos capturados pelo charme Western dos irmãos Traverse, pela rebeldia ruiva de Dahlia Rideout, pela evolução dos Amigos do Acaso, que são ao mesmo tempo inventados e reais, pela sabedoria de Yashmeen. E com eles, reais e imaginados, contracenam personalidades como Tesla e Franz Ferdinand.

A realidade em Contra o dia é levemente deslocada, como se colocada sob um espato da Islândia – uma das chaves do romance. Real e imaginário convivem numa existência paradoxal e única, mesclando-se a ponto de suas fronteiras se confundirem. O livro é, sem exageros, enciclopédico. E difícil. Mesmo que, aparentemente, ele seja apenas uma grande aventura. Dando vida a seus personagens, Pynchon os faz discutir política, matemática, filosofia e viagens no tempo, como se aqueles fossem apenas um instrumento para discutir estes. O tempo em que se passam as ações é tão importante quanto estas.

É como se cada uma das teorias científicas postuladas naquele momento histórico em particular se tornasse realidade, em determinado momento. Muitas dessas teorias dizem respeito à eletricidade ou ao Tempo, o que me faz pensar que o título do livro esteja diretamente relacionado a esses dois conceitos. Pois a luz elétrica é uma manifestação humana contra as regras naturais de viver o dia e dormir a noite, e as teorias sobre a quarta dimensão colocam por terra aquele conceito batido do contínuo dia a dia.

A leitura de Contra o Dia  tem o efeito de tirar o termo “exatas” de ciências como a matemática e a engenharia. As discussões tomam um rumo quase religioso, como se a crença em uma filosofia da matemática pudesse torná-la comprovável no mundo real. Por outro lado, coisas que tomamos por certamente imaginadas pelo autor realmente ocorreram, como o evento em Tunguska ou o sumiço de Louis le Prince. As referências externas, literárias, históricas e científicas são inúmeras, e descobri-las é um prazer à parte. Longe de ser um pastiche, tais referências tem razão de ser na vida dos personagens, e muitas vezes difíceis de discernir. Muitas dessas referências, tenho certeza, são inseridas expressamente pelo autor, num  momento nudge nudge, outras são lembranças de leituras passadas. Seja como for, para cada referência que eu peguei, devo ter perdido outras dez.

A leitura é fascinante, mas exaustiva. Contra o dia é um livro que exige tempo, uma leitura atenta e dedicação exclusiva. Sugiro que, mesmo que o leitor tenha o costume de ler vários livros simultaneamente, leia este sozinho. Ele tem uma gama de personagens e tramas capaz de suprir sozinho o afã de histórias diferentes que alguns leitores possuem. Uma leitura calma, atenta, possibilita diversas descobertas interessantes, tanto para o âmbito da história quando ao conhecimento geral. Dedique um tempo a procurar no dicionário as diversas expressões idiomáticas – de diversos idiomas, procure numa enciclopédia (ou no Wikipedia mesmo) as teorias e acontecimentos. Convivi com Pynchon por mais de um mês e devo dizer, já estou com saudades…

CONTRA O DIA

Thomas Pynchon

Título original: AGAINST THE DAY

Tradução: Paulo Henriques Britto

1088 Páginas

Preço sugerido: R$98,00

Selo Companhia das Letras

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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10 respostas para Contra o dia (Thomas Pynchon)

  1. Thales disse:

    Pynchon é um dos meus autores favoritos de longe, Arco-íris da Gravidade flutua bem no topo do meu cânone imaginário.
    Se tu estiver procurando uma forma mais condessada da prosa dele, recomendo Vício Inerente e Viceland.
    Uma pena o preço do volume, terei que me aventurar em inglês.

  2. gilberto ortega jr disse:

    adorei a resenha maravilhosa
    quero um deste pra mim ainda mais que amo tijolões

  3. Rubens "Ramalokion" disse:

    Catso Kika! Vc faz essas resenhas e agora terei que comprar o livro!

  4. Kika, se quiser sugiro que pegue o Vício Inerente para conhecer outro lado do Pynchon. Se quiser outro catatau, Gravity Rainbow é ótimo mesmo.

  5. Taize Odelli disse:

    Ai, esqueci de comentar ontem: acho que tu conseguiu colocar bem na resenha tudo o que o livro tem hehehe To na maior dificuldade de falar sobre ele. Terminei ontem e é tanta coisa que dá pra comentar, mas o principal acho é que o livro parece não ter fim, que acabou porque o Pynchon teve que entregar ele pro editor e apenas por isso, porque a história de cada um poderia continuar infinitamente (óbvio, até morrerem, mas assim como ele faz com quase todas as personagens, há os filhos, os netos, e por aí vai…). Adorei =D

    • Bruce Torres disse:

      “Terminei ontem e é tanta coisa que dá pra comentar, mas o principal acho é que o livro parece não ter fim, que acabou porque o Pynchon teve que entregar ele pro editor e apenas por isso, porque a história de cada um poderia continuar infinitamente […]”

      Taize, eu sinto a mesma coisa quando leio Murakami. 😀

    • Kika disse:

      é bem assim mesmo….acabou pq acabou o tempo… ou o editor falou “não quero que passe de 1000 páginas”.hehehe O interessante para mim é a quantidade de focos que a narrativa permite…

  6. Pynchon é um autor que gosto muito, muito mesmo (tenho todos os livros, inclusive o Slow Learner) e fiquei surpreso ao ler que você começou logo com um dos mais complexos. A surpresa aumentou ao saber que tu embarcou na narrativa caótica e complexa dele e ainda por cima gostou, algo que é, na maioria dos leitores, um empecilho. Já que você passou na “prova de fogo”, aconselho a leitura de O Arco-irís da Gravidade, que ainda considero sua obra-prima.

    Sobre o que a Taize falou, realmente o Pynchon deixa essa impressão sobre muitos personagens, aquela coisa fragmentada e abandonada, tanto no Contra o Dia quando O Arco-irís da Gravidade, mas isso faz parte da proposta dele, de toda aquela teoria sobre a entropia e afins. A leitura de um texto sobre isso publicado aqui mesmo no blog dá uma ajuda nesse sentido.

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