Livros Pipoca

Imagine o cenário: semana de provas na faculdade, acumulada com a semana oficial de descascar o abacaxi no trabalho. Entre livros técnicos e clientes irritados, sua capacidade de concentração vai aos poucos se esvaindo. Nesses momentos, tudo que seu cérebro pede é sono e distração. Seu corpo pede cama, e no caminho para casa seu sonho é colocar os pés para cima e ligar a TV naquele programa bobinho e previsível para “não pensar”.

Mas há aqueles que prefiram um bom livro pipoca, daqueles que você devora sem perceber às mancheias. Livros muitas vezes caracterizados como “guilty pleasures”, livros de leitura mais prazerosa que instrutiva, um passatempo na sua melhor definição. São livros que normalmente vemos massacrados pelas mídias consideradas mais sérias.

Toda forma de entretenimento tem sua versão que minha mãe chamaria de “zera QI”. Nos cinemas são as comédias românticas e os filmes de ação. Na televisão, bom, é quase qualquer coisa. Teatro, música e até as artes mais conceituadas possuem sua versão “Hard Day’s Night”. E com livros não é diferente.

Você se depara com os Livros Pipoca em qualquer livraria e/ou lista de best-sellers. Em geral são tramas fáceis de acompanhar, com ganchos entre os capítulos, munidas de um final razoavelmente previsível e feliz para o protagonista. Não importa em quantas enrascadas ele se meta, no final tudo fica bem. Não têm como propósito a alta literatura, ou o questionamento.

Foram feitos para entreter, passar o tempo, distrair dos problemas do dia a dia. São francos em sua mensagem e diretos em seu discurso. Sabemos para quem torcer, para quem direcionar nossa raiva. Como as crianças que querem ver o mesmo desenho diversas vezes seguidas, esses livros nos transmitem segurança e diversão, sem o estresse mental de livros considerados mais sérios.

Mas ser um livro de entretenimento não quer dizer necessariamente um livro ruim. Entram nessa categoria livros e autores que adoro,  como Agatha Christie, cujos assassinos sempre são descobertos pela genialidade de seus detetives; viciantes livros de Dan Brown, que contam sempre com a mesma estrutura, livros de humor como as crônicas de Luis Fernando Verissimo ou os livros do Mário Prata, romances como os de Nicholas Sparks, Danielle Steel e Anne Tyler, e mesmo alguns clássicos, como os romances de capa e espada de Alexandre Dumas.

Considerando a rotina cada vez mais agitada da população em geral, não espanta esta forma de entretenimento disparar nas listas dos mais vendidos. É um tipo de literatura que garantiu seu espaço no mercado ao longo dos anos, merecidamente, e tem sua origem junto com a literatura. Isso não tira o valor dos grandes clássicos, pelo contrário, valoriza sua existência.

Mas tem dias em que os grandes clássicos ou livros mais densos simplesmente não descem. Dias como os que descrevi acima, nos quais seu cérebro não consegue diferenciar ironia de sarcasmo, nem desconstruir um pensamento complexo em conceitos palatáveis. Ou então, não estamos preparados para lidar com a carga emocional de um personagem perturbado como Holden Caufield ou Emma Bovary.

Os livros pipoca encontram nossa necessidade de sonhar um mundo melhor. O ser humano tem a tendência a definir padrões e determinar opostos, como maneira de encontrar sua segurança. Por isso vemos formas em nuvens, por isso gostamos de saber quem é “bom” ou quem é “mau”. Na alta literatura, como na vida, esses conceitos são misturados numa grande área cinza, e não raro o leitor de clássicos se descreve como transtornado, modificado em sua essência por essas questões. E isso é ótimo, mas também pode ser exaustivo.

E é para esses momentos de cansaço mental que, penso, os livros pipoca servem. Como uma transição, um descanso, e  como uma diversão. E, sejamos francos, quem não gosta de ser transportado para um mundo onde definir quem é bom ou mau é fácil, e o primeiro sempre se dá bem no final? É reconfortante saber que há histórias feitas para levá-lo a esse mundo. Afinal, não é sempre que você tem cabeça ou estrutura emocional para um livro mais sério. Agora eu pergunto: qual é seu livro pipoca favorito?

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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4 respostas para Livros Pipoca

  1. Rubens "Ramalokion" disse:

    Pois eu vou cobrar royalties da expressão “Livros-Pipoca”!! hehehehehehehhe

    Falando sério, eu me atrevo a ir até mesmo mais longe: os Livros-Pipoca são a assência do prazer de ler! Óbvio que obras mais densas tem uma atratividade toda especial, mas entendo que essa leitura simples, descompromissada, feita pelo simples prazer de ler é a raiz do amor a leitura.

    Inclusive tenho certeza que pessoas diferentes terão títulos iguais dentro e fora da lista de Livros-Pipoca.

    Minha lista: Sherlocke Holmes; a série Percy Jackson; Arsene Dupin; Grau 26 (apesar do tema); entre (muitos) outros.

    PS: olha só a coincidência, uma das séries de Livros Pipocas (Anita Blake) mais deliciosamente geniais começa em seu primeiro volume com o titulo “Guilty Pleasures”!!

  2. Silvia disse:

    Não sou muito chegada a livros pipoca, mas tem um que eu li nesses últimos tempos e achei muito legal : A Menina Que Não Sabia Ler” de John Harding.

  3. Odair Dota Bertizola disse:

    ahahah….o livro que estou lendo no momento “A garota de papel” de Guillaume Musso possui as características de livro pipoca…e a leitura está muito legal

  4. R. Moss disse:

    Haha, bom texto.

    Os livros da “trilogia” Força Sigma (lançados porcamente pela Ediouro), do James Rollins.

    Lembrei dessa série assim que terminei de ler esse post.

    O engraçado é o preconceito que leitores, cof, “sérios” tem com esse tipo de livro.

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