Por que ler os clássicos para o vestibular?

Muito se fala sobre a dificuldade em fazer o aluno gostar de ler na escola. Um dos argumentos mais usados é que somos levados a ler grandes clássicos da literatura brasileira ainda muito novos, sem o arcabouço intelectual necessário para entendê-los. Talvez este artigo soe um tanto reacionário, mas há uma razão para os programas pedagógicos do Ensino Médio e, consequentemente, os vestibulares, abordarem tais obras. Um argumento que muito poucas vezes foi abordado nas discussões que participei.

Programas de ensino, ao contrário do que muitos alunos possam pensar, não é feito para acabar com a vida do estudante, nem feito do nada. Currículos escolares podem ser falhos, mas têm a intenção de repassar ao estudante o mais importante do conhecimento adquirido ao longo dos séculos. E o conteúdo programático de literatura não foge à regra. Claro, não sou professora nem pedagoga. Mas fui aluna, e tive a sorte de estudar com professores competentes e bem pagos.

Professores que me mostraram o porquê de ler Machado de Assis ou Gregório de Matos. Poucos ligam para o fato de que lemos livros para o vestibular focando principalmente a prova de literatura. E que estudamos literatura brasileira, incluindo sua história. Que passamos dos trovadores portugueses ao Modernismo, passando por classicismo, barroco, romantismo, realismo e naturalismo. E cada uma dessas escolas literárias possui seus cânones que podem e devem ser conhecidos na escola. Eles representam nossa história, a evolução de nossa escrita e nosso pensamento.

Na escola não se lê simplesmente para incentivar o hábito, mas para ensinar literatura. E não há melhor maneira de conhecer a escola literária do que ler um cânone do estilo. Não estou dizendo com isso que o leitor deve gostar de tudo o que lê. Pelo contrário. Conhecendo os diferentes estilos literários, o aluno desenvolve seu senso crítico, e até mesmo suas preferências. Achou Senhora um lixo, mas leu A lira dos vinte anos numa tacada só? Talvez você prefira o romantismo da segunda geração. Odiou A Luva, mas discute até hoje se Capitu traiu Bentinho? Talvez o Machado de Assis lhe atraia mais. Eu, por exemplo, adorei O Cortiço, um cânone do naturalismo brasileiro, mas não suporto Olavo Bilac – representante do Parnasianismo.

Você pode até aprender a diferenciar os tipos de narrativas e de personagens com os best-sellers, mas Stephenie Meyer não substitui Vinícius de Moraes como exemplo de simbolismo. A leitura dos clássicos fica assim plenamente justificada. Mas nem sempre a conexão entre literatura e livros para vestibular é trabalhada em aula. Os livros são lançados aos alunos sem um contexto histórico/literário que justifique sua leitura, desconectados de seu fim pedagógico. Sem esse respaldo fica fácil confundir a leitura obrigatória como uma leitura de incentivo, e exigir ler Harry Potter e Crepúsculo para o vestibular.

E por isso não devíamos estar discutindo por quê os clássicos são apresentados no Ensino Médio para serem lidos no vestibular, mas COMO esses clássicos são apresentados ao estudante. O bom professor deve incentivar a leitura de entretenimento e o gosto pela leitura, não discordo. Mas sua função principal é demonstrar a importância da leitura desses cânones, para o conhecimento da Literatura Brasileira. Ao bom aluno cabe perceber essa importância.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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5 respostas para Por que ler os clássicos para o vestibular?

  1. Arrasou. Também tive a sorte de ter professores competentes, não tão bem pagos, mas apaixonados, que não só ensinaram a importância da leitura – coisa que todo mundo deveria aprender em casa, né? – mas souberam introduzir os clássicos de forma não-traumática, e eles me acompanham até hoje.

  2. Bruce Torres disse:

    Talvez o que seja mesmo necessário é uma nova abordagem para introduzir os clássicos aos jovens em idade escolar. Digo que a leitura dessas obras deveria ser um fim, não um meio, porque “forçá-los” a ler livros com carga hermética ou que tratem de coisas a margem de seu cotidiano pode repelir, em vez de seduzir. Contudo, eu sempre digo que é por causa das leituras dos clássicos que eu sei porque posso dizer que certos livros são mal escritos – incluindo esses fenômenos que a garotada adora. 😛

    P.S.: Deem uma olhada no link abaixo e chorem. 😦

  3. **Maniaca do Miojo** disse:

    Parabéns Kika!!!

    Concordo contigo, é válido a escola mostrar a importância desses escritores na literatura e história brasileira.
    Afinal, é bem difícil de um aluno ir atrás sozinho para ler José de Alencar e afins.

    Adorei “O Cortiço”, maior zona o lugar huahuahua tb curti ler Capitu,Memórias Póstumas de Brás Cubas,O Triste Fim de Policarpo Quaresma,O Guarda Roupa Alemão…já outros eu tive que inspirar e ler na marra hehehe

  4. Rubens "Ramalokion" disse:

    GdF servindo de inspiração!! Legal Kika!! Bom, assim como falei antes eu entendo que a escola tem como principio básico ensinar. E isso inclui ensinar que ler não é ruim ou inútil (pensamento muito comum).

    Temos sim que ler os clássicos brasileiros/portugueses, vou mais longe: temos quer os clássicos mundiais! Mas antes a criança deve aprender a ver o livro como um objeto amigável. E nisso Harry Potter, Sherlocke Holmes, Frodo Bolseiro e similares podem ser muuuuito mais úteis!

    • Kika disse:

      Pois é, viu? Concordo que ensinar a gostar ler faz parte, mas acho que isso deve fazer parte do currículo do Ensino Fundamental, não do ensino Médio. Veja bem, você tem 9 anos para formar um leitor no Ensino Fundamental. A pessoa que chega no Ensino Médio já deve possuir senso crítico o suficiente para saber porque ler clássicos para o vestibular…

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