Um copo de cólera (Raduan Nassar)

Um homem levemente chauvinista numa relação essencialmente sexual com uma jovem jornalista com fetiche por pés. Ele mora num rancho onde os dois vivem sua relação. Um copo de cólera é a descrição de um momento na vida dessas duas personagens. O que começa com uma noite de prazer, acaba com uma discussão monumental iniciada por uma questão aparentemente rotineira.

Na manhã seguinte de uma longa noite de lascívia, o narrador descobre que sua cerca viva possui um rombo, feito por formigas saúva. A cólera com que ele ataca as formigas e direciona sua ira aos empregados do rancho acabam por levar à ira sua amante, e o bate boca acaba acordando diversos fantasmas da relação entre os dois. Fica claro que, além da compatibilidade sexual dos dois, pouco resta que sustente tal relação. É uma explosão de ressentimentos e diferenças misturados com intenso desejo animal que dá o tom do restante da narrativa.

Entre uma novela e um romance, Um copo de cólera é uma obra visceral, fortemente apoiada em diálogos. A linguagem tem um forte tom erótico, quase pornográfico. Despido de vergonha social, o autor permite que seus personagens sejam preconceituosos, irados, excitados e tomados de desejo, sem filtros. O narrador descreve sua relação com a jornalista sem romantizá-la. Suas descrições, pelo contrário, são cruas, quase bruscas, em contraste direto com o recanto bucólico que o narrador criou para si. Raduan Nassar devolve a seus personagens sua natureza animalesca, reduzindo-os a seu status de seres regidos por seus instintos. Ironicamente, quanto maior a intelectualização do diálogo, mais premente a sua característica animal.

É um texto forte, não indicado para puristas da língua ou a puritanos. Indicaria a maiores de 18, mas seria um preconceito meu. Digamos que é um texto para ser lido por aqueles que já sentiram em seu âmago o ardor do desejo sexual, ou o calor de um debate inflamado. Não há muito espaço para uma leitura moralista. Talvez lembre ao leitor aquelas discussões em que as palavras saem da boca sem raciocínio, daquelas que deixam remorsos no momento que são proferidas.

É quase irônico que apenas com palavras Raduan Nassar consiga estabelecer uma relação tão gutural entre leitor e obra. Ele descreve sentimentos que nossa máscara social normalmente pede que deixemos adormecidos. É tão cru que, quando resolveram levar a história pro cinema, em 1999, o diretor buscou um casal de verdade – neste caso Alexandre Borges e Júlia Lemmertz – para que a ação parecesse mais realista.

Um copo de cólera

Raduan Nassar

88 Páginas

Selo: Companhia das Letras

Preço sugerido: R$ 29,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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