La boîte à pensées: O que fica do que lemos

Nos últimos meses acompanhei uma discussão bastante acirrada sobre o ritmo de leitura de cada um cada um, iniciada por esta coluna da Anica. Um dos pontos polêmicos era exatamente que uma pessoa que lê 30 livros em dois meses (aham, Lucas) não teria tempo para absorver o que leu. Num dos comentários, um leitor sugere que se fale do que sobra do que lemos, e desde então eu ensaio este post.

Antes de mais nada, devo deixar claro que 90% das minhas leituras são de entretenimento, e que desde agosto de 2009 resenho praticamente todos os meus livros lidos aqui no Meia Palavra. Mas o que absorvo de cada leitura depende muito do que leio, e do tempo que passou desde a leitura.

Não sou o tipo de leitora que decora citações, nunca fui. Você não me verá citando Shakespeare ou identificando o autor de citações como as pessoas “cultas” fazem no cinema. De brinde, tenho uma certa dificuldade para lembrar de nomes de personagens e uma tendência terrível a denegar o título dos capítulos.

Minha leitura é, muitas vezes, imagética. Enquanto leio, um filmezinho vai passando na minha cabeça, personagens ganham forma, cor, voz, plano de fundo e, em alguns casos, até cheiros caraterísticos. Praticamente uma leitura sinestésica. E por isso o que sobra do que leio são cenas.

Isso não quer dizer que eu não possa contar o enredo e as implicações de um livro que acabei de ler. Mas quanto mais tempo faz que leio, mais fácil lembrar das cenas, mais que do contexto geral. São cenas específicas, muitas vezes detalhes que me fazem lembrar com carinho de alguns livros, com espanto para outros. Ironicamente, os livros que não gostei deixam marcas mais indeléveis, como que para justificar sua leitura.

E é assim que na minha memória, entre outras tantas lembranças, uma cena dolorosa de Dick Sharpe sendo açoitado, um navio repleto de gás saído de Scoundrel, de uma árvore e uma ponte ou um barco atravessando um rio no pôr do sol no Japão medieval de Musashi.

Lembro ainda de um coração de vidro verde em Sandman, da leitura de uma carta em Orgulho e Preconceito,  do cheiro de manteiga batida em Uma casa na Floresta; de um senhor varrendo uma rua em Manu, a menina que sabia ouvir, ou do café amargo servido como licor em O Conde de Monte Cristo.

Todas essas cenas fazem parte da minha memória como se eu as tivesse vivido. Estão juntas da lembrança da formatura, ou dos amigos de escola. Pode-se dizer que um livro bem lido é um livro bem vivido. E quanto mais falo sobre um livro, mais cenas deste me vêm à mente depois de terminá-lo, assim como quanto melhor a leitura, mais cenas sobram.

De todos os livros lidos, porém, fica, imagino que para sempre, uma sensação. Seja o carinho por algo lido na infância ao simples gostei ou não gostei dos livros obrigatórios para o vestibular. Esta sensação volta com tudo sempre que passo os olhos na capa de um livro.  Mas não é só isso.

Cada livro lido me mudou de alguma forma, seja me dando uma referência visual, seja arruinando um preconceito. Com um currículo de mais de 600 livros lidos em vida, posso dizer que cada nova leitura traz  as velhas à tona. Às vezes é algo banal, como  “eu li essa palavra pela primeira vez no livro tal”; mas às vezes acende a memória para todo um enredo que eu imaginava esquecido.

E aquela pessoa que leu 30 livros em dois meses, tenho certeza, tem a memória plena de cada um deles. Talvez ela não consiga dizer em que página ou capítulo o protagonista se corta com uma faca, ou em que parte aquela reviravolta se deu, mas ela se lembra do essencial. E isto independe da velocidade com a qual leu as palavras. Depende somente da atenção que dedicou ao lê-las.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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4 respostas para La boîte à pensées: O que fica do que lemos

  1. Bobbie disse:

    É bem próxima a minha relação com os livros também. Creio que cabe aqui uma citação:

    “Exigir que alguém tivesse guardado tudo aquilo que já leu é o mesmo que exigir que ele ainda carregasse tudo aquilo que já comeu. Ele viveu do alimento corporalmente e do que leu, espiritualmente, e foi assim que se tornou o que é. Mas, da mesma maneira que o corpo assimila o que lhe é homogêneo, o espírito guarda o que lhe interessa, ou seja, o que diz respeito a seu sistema de pensamentos ou o que se adapta a suas finalidades”

    [Arthur Schopenhauer – A arte de escrever]

  2. O que fica para mim de cada livro é tão relativo e pessoal, depois de anos eu geralmente não me recordo do final, mas sempre fica a parte que marcou, algo que me identifiquei, ou que não concordei, uma lembrança, uma sensação.

    Isso acontece também com filmes o que me interessa ou o que me toca num filme ou num livro pode não ser exatamente o que toca outra pessoa, e é isso que torna essa experiência tão mágica e ninguém pode vivencia-la por você do mesmo modo.

    A leitura somasse a sua bagagem, ao seu humor, ao seu momento, e é por isso que mesmo que se leia um livro por duas vezes, sempre terá impressões e sensações diferentes.

  3. Alexandre disse:

    “Minha leitura é, muitas vezes, imagética. Enquanto leio, um filmezinho vai passando na minha cabeça, personagens ganham forma, cor, voz, plano de fundo e, em alguns casos, até cheiros caraterísticos. Praticamente uma leitura sinestésica. E por isso o que sobra do que leio são cenas.”

    Cara, comigo tb é assim – fica rodando um filminho na cabeça enquanto vou lendo o livro; alguns personagens acabam se tornando amigos bem próximos, quase da família. E o que fica de cada leitura, acho que é aquilo que toca mais fudo, emocionando ou fazendo refletir.

    Ótimo texto.

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