Contos Essenciais: O Barril de Amontillado (Edgar Allan Poe)

Para mim, nenhuma lista de contos essenciais está completa sem Edgar Allan Poe. Este norte-americano é responsável por uma das coletâneas de contos mais interessantes que já passou pelas minhas mãos: Histórias Extraordinárias. Confesso que conheci Poe tardiamente, através de meu marido que, de tanto insistir, me pôs a ler esta coletânea. Foi amor ao primeiro conto.

O que faz de Edgar Allan Poe essencial é sua maestria em ambientar suas cenas. Ele constrói a tensão aos poucos, engajando o leitor a desvendar o próximo passo, o próximo parágrafo, o próximo barulho estranho. E essa ambientação está especialmente presente em O Barril de Amontillado. Neste conto, Montresor, um conaisseur de vinhos italiano e narrador da história, decide vingar-se de um desafeto – Fortunato – após uma série de insultos e lesões (não claro se físicas ou psicológicas). 

Montresor planeja com cuidado sua vingança de modo a permanecer impune. Ao encontrar Fortunato em meio às comemorações italianas de carnaval, ele desperta uma espécie de desejo mórbido neste ao mencionar en passant que em sua adega haveria um barril de Amontillado de origem escusa. Fortunato, também ele conaisseur, e dos mais apaixonados, não se faz de rogado e – contra diversas invectivas habilmente formuladas por Montresor – se decide a provar o tal do Amontillado.

Vestido como um Bobo da Corte, com direito ao chapéu com guizos, Fortunato acompanha Montresor à sua adega. Esta é ampla, vasta, e formada por várias celas, que vão diminuindo e ficando cada vez mais tomadas pela umidade e pelo salitre. Fortunato, sem estar vestido de acordo para um ambiente frio, começa a sentir os efeitos de respirar um ar intoxicado, e apoia-se mais e mais no braço de Montresor. Ao chegar na última sala, decorada à moda das catacumbas de Paris, eis que Fortunado encontra não o barril de Amontillado, mas a vingança do protagonista.

Todo este enredo é construído basicamente em torno de um singelo diálogo entre Fortunato e Montresor, salpicado por um e outro parágrafo explanatório. A escolha das palavras é o ponto forte da narrativa, que faz o leitor seguir ingenuamente Montresor com o mesmo ímpeto de Fortunato atrás do Amontillado. Nesse ínterim o subconsciente do leitor grita por um perigo oculto.

Fortunato está tão obsedado pela perspectiva de provar uma bebida rara que denega todos os sinais de perigo que uma mente tranquila captaria e que, talvez maliciosamente, Montresor ecoa tantas vezes. E o leitor está tão imerso no caminho que fica tão aturdido quanto Fortunato ao se deparar com a última sala. Não é à toa que, quando fez a sua biografia de Poe, a Anica tenha indicado este como um dos contos para enveredar na obra do autor. O Barril de Amontillado  é um ícone do estilo de Poe, e uma obra prima de ambientação.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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3 respostas para Contos Essenciais: O Barril de Amontillado (Edgar Allan Poe)

  1. R. Moss disse:

    Pra mim, longe de ser um dos melhores contos do Poe, mas esse é o meu 2º favorito e é um dos mais acessíveis.

    O final é simplesmente arrepiante.

  2. Cabal disse:

    Vou seguir o conselho, conheço pouco de Poe.

  3. Raquel Toledo disse:

    Totalmente assustador e interessante! Um dos meus prediletos de Poe, sem dúvida!

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