O último suspiro do mouro (Salman Rushdie)

Quando Moraes “Mouro” Zogoiby inicia seu relato, sua vida está no fim. Ele decide soltar suas amarras de todo o preconceito e contar sua história como realmente aconteceu, mesmo que às vezes seja traído por memórias e afeições antigas. A história do clã Gama-Zogoiby começa no início do século XX, quando a Índia era ainda uma colônia britânica. O Mouro faz da história de seus bisavós o início, e segue até a sua própria. Os Gama são católicos descendentes de portugueses, e dizem descender (numa linha bastarda) do navegador Vasco da Gama. Formam uma família endinheirada e próspera, ainda que repletas de conflitos internos.

Se dizem que “de perto ninguém é normal”, a família do Mouro é um retrato desta “loucura” familiar. Da matriarca ultra religiosa, ao dândi excêntrico, da talentosa e durona mulher de negócios à artista cruel e genial, passando por  uma versão moderna de Rumpelstiltskin e membros da máfia, tudo envolto em uma mitologia bastante particular, tudo parece exótico e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.

O narrador muitas vezes escolhe se enganar, e nos conta a versão fantasiada de algum acontecimento, só para desmenti-lo algumas páginas depois, junto à declaração de que a versão fantasiada é a que ele escolheu como verdade. Custa-lhe aceitar alguns fatos, como nos custa aceitar que nossos pais não são perfeitos. A humanização de sua família é das partes mais dolorosas na prosa do protagonista.

E não é uma história bonita a do clã Gama-Zogoiby, o cerne de O último suspiro do mouro, mas muito interessante. Através dela conhecemos uma vasta gama de corrupções do ser humano, seus preconceitos e o modo que estes afetam as relações entre os homens. Para o narrador, todas essas pequenas crueldades, corrupções e preconceitos são partes do ser humano, o insaan hindi, um retrato de sua família e de seu país. Por abarcar praticamente todo o século XX, a vida dos Gama-Zogoiby é pontuada por vários acontecimentos políticos que mudaram a cara da Índia. Esses acontecimentos atingem diretamente as vidas e as decisões dos familiares do Mouro.

O Mouro, que tem sangue português, indiano, judeu e árabe é um estranho no ninho. Nascido com uma deformidade na mão direita e uma estranha patologia que o faz envelhecer rapidamente, possui também uma maneira única de observar o mundo a seu redor. Sua deformidade o leva a encarar-se como um monstro, criado numa casa em que o belo era o centro de tudo.

Segundo o site da CiaO último suspiro do mouro é uma resposta de Rushdie à sua condenação à morte pelo aiatolá Khomeini em 1988, por ter escrito um livro que desagradou fundamentalistas islâmicos. O romance pretende ser, ainda de acordo com a mesma fonte, “uma defesa contundente das virtudes do pluralismo e da tolerância, em oposição às pretensas verdades únicas e excludentes.”. Com efeito, muitas das rupturas e conflitos passados por esta família se dão pela intolerância e ao preconceito religioso. O protagonista procura, ainda que nem sempre consiga, narrar sua história sem o véu das realidades pré concebidas. Ele mesmo é único, sem par no mundo em que vive.

Salman Rushdie consegue, usando de realismo mágico, nos apresentar um retrato bastante verossímil das relações familiares como um todo. Algumas descrições são tão contundentes que me vi buscando mais da vida das personagens na internet, mesmo sabendo que são fictícias. O titulo da obra – O último suspiro do mouro –  faz menção a duas obras de arte homônimas: uma pintada pelas mãos de sua genial mãe Aurora da Gama Zogoiby, outra por seu então amigo Vasco Miranda, artista menos talentoso. Além das obras de arte, o título ainda se remete à história de Boabdil, com quem o protagonista se identifica em vários sentidos.

Para um livro tão complexo e cheio de nuances, narrado em uma espécie de fluxo de consciência, a leitura é surpreendentemente fluida. Queremos saber cada vez mais sobre a vida de tais personagens, e as páginas vão aparentemente rápido. É somente quando fechamos o livro e refletimos sobre a leitura que o impacto de sua profundidade nos atinge. Mas quando vem, vem em força total. O livro nos obriga a nos despir momentaneamente de nossos próprios preconceitos, para aproveitarmos melhor suas palavras, cada uma matematicamente bem posicionada.

E neste ponto devo aplaudir o trabalho do tradutor Paulo Henrique Britto. Poucas vezes li um livro tão bem transportado para a cultura brasileira. Sua tradução transmite as palavras de Rushdie, mas de uma maneira tão bem estruturada que o texto parece ser originalmente brasileiro. É especialmente talentoso em jogos de palavras e nas idiossincrasias linguísticas dos personagens. Um excelente casamento entre qualidade literária da obra e qualidade de tradução. E um livro para ler e rever conceitos.

O último suspiro do mouro

Salman Rushdie

Título original – THE MOOR’S LAST SIGH (POCKET)

Tradução: Paulo Henriques Britto

504 Páginas

Selo: Companhia de Bolso

Preço sugerido: R$ 29,90

 

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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