La boîte à Pensées: As bibliotecas da minha vida

Olá, meu nome é Clarisse e eu sou uma acumuladora de livros. Daquelas que compra o livro “pra ter”, mesmo se já leu emprestado da biblioteca pública. Minha justificativa politicamente correta é que eu quero que meus filhos (se um dia vierem) tenham acesso aos livros como eu tive desde muito nova. A verdade é que eu gosto de estar cercada por esses amigos de papel, e acho muito estranho um lar sem livros. Por isso, queria  compartilhar com vocês, num estilo bem “meu querido diário”, de onde vem essa minha paixão pelos livros.

Talvez eu tenha sido mal acostumada. A primeira biblioteca a que tive acesso era uma estante que ocupava a parede esquerda do quarto dos meus pais, lá nos idos dos anos 80, quando morávamos num apartamento pequeno. A estante era repleta de livros, e me lembro de montar na bendita e ficar bagunçando eles. Pois é, é de família, o apartamento pequeno era recheado de livros – da minha mãe – e  LPs – do meu pai. E minha mãe tem um gosto bastante eclético, então ali encontrávamos Isaac Asimov e Shirley McLaine, Stephen King, Jorge Amado, Máximo Gorki, livros com os quais brinquei e muitos que ainda não li.

Eu e os livros - 1982

Como nem tudo são flores, meus pais se separaram e me dividi em duas casas. Meu pai e seus LPs e livros técnicos (administração, economia, esportes, peixes), minha mãe e os livros (ficção, técnicos, poesia, best seller, autores desconhecidos). Logo, a biblioteca da mãe ganharia uma bela adição: a biblioteca do meu padrasto. Uma das minhas lembranças mais queridas de férias em casa aconteceu quando minha mãe convidou meus amigos para  arrumar aquela biblioteca, para nós imensa, recheada de coleções (Nobel, Escritores da Humanidade, Abril, Círculo do Livro) e edições completas de Érico Verissimo a Balzac, passando por Frank Herbert e Fernando Sabino. Ficamos a tarde toda limpando, catalogando e guardando mais de 1000 livros e, como é inevitável, falando sobre eles. Alguns anos mais tarde, as estantes dessa biblioteca viraram as paredes do meu quarto, o que me fazia acordar cedo aos domingos, escolher um livro da estante ao lado e só sair da cama para as refeições.

Há também a biblioteca lendária do meu avô que, diziam, continha diversas primeiras edições e livros em francês e espanhol, e que foi vítima de uma “Fogueira das Vaidades”, depois que meu avô, um advogado que falava 6 idiomas, sofreu um acidente e perdeu a cabeça. O que restou da biblioteca, um amontoado de livros de capa dura, lombada de couro e letras douradas, ocupou por muito tempo um quarto escondido na casa da minha vó. Eu adorava o cheiro daquele quarto, ainda que hoje não recorde um título dentre os livros que estavam ali.

Biblioteca arrumada

Tive a sorte, ainda, de estudar numa escola que dava valor às suas bibliotecas. Ela ficava aberta nos intervalos, e tínhamos “aula na biblioteca”, uma maneira de incentivar a ler. Foi neste lugar calmo, com vista para árvores e mesas redondas de fórmica, que li um dos livros mais marcantes da minha vida, um romance de autoria de alguns alunos da 8ª série. O primeiro texto escolar a usar a expressão “no entanto” e um final surpreendente. Infelizmente, esse livro nunca foi publicado.

A biblioteca da faculdade, por sua vez, tinha menos brilho, mas nem por isso passava menos tempo por lá. Era formada basicamente de livros técnicos, mas foi lar das mais divertidas discussões de literatura que tive, era o ponto de encontro do meu grupo de estudos, chamado “Persona Psique”, e tinha grandes objetivos ainda por serem conquistados. O maior deles é estudar a obra de escritores ingleses do século XIX à luz da história da Inglaterra.

meu quarto biblioteca

Tive contato com bibliotecas também no local de trabalho. Foi no meu primeiro estágio, há mais de 10 anos, que li a primeira página de Ensaio sobre a Cegueira e conheci Saramago. No Banco do Brasil, tenho acesso a uma das melhores bibliotecas do país online. Peço o livro, recebo no local de trabalho e tenho um mês para ler. Sem custos. Foi nessa biblioteca que encontrei o já esgotado O Homem que se tornou Deus, de Gerald Messadié, e a edição em francês d’Os Três Mosqueteiros (Alexandre Dumas). É o lugar para achar livros inacessíveis, e de graça. No trabalho aprendi a catalogar livros com o código CDU, e passei a respeitar ainda mais o trabalho de um bibliotecário.

E foi com esse histórico que comecei a montar a minha biblioteca pessoal, que hoje conta com mais de 700 livros espalhados por todos os cantos da casa. E é essa paixão pelos livros, advinda das muitas bibliotecas da minha vida, que quero passar aos meus irmãos e, futuramente, aos meus filhos (ou sobrinhos). Eu sou uma acumuladora de livros, com muito orgulho.

Biblioteca pessoal

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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3 respostas para La boîte à Pensées: As bibliotecas da minha vida

  1. Rafa disse:

    A-M-E-I essa coluna.
    Pena que eu não fui criado sob tamanha referência literária, mas isso não me impediu de gostar de ler… A biblioteca do colégio era até boa, mas mais com best sellers… E a da cidade, alguns livros mais antigos. E eu ainda usava a mesada, o dinheiro do aniversário e outros pra comprar livros pra mim *_*
    E que fofura tu e os livros! E tua biblioteca pessoal. Gostei também de saber que no teu trabalho tem essa iniciativa. ;]

  2. marcel disse:

    belo texto. pena que as fotos estão pequenas (mesmo abrindo em outra janela). tem como aumentar a resolução?

  3. Pingback: Lumos | Bibliophile

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