A maleta do meu pai (Orhan Pamuk)

“Os romances nunca são totalmente imaginários nem totalmente reais. Ler um romance é confrontar-se tanto com a imaginação do autor quanto com o mundo real cuja superfície arranhamos com uma curiosidade tão inquieta. Quando nos refugiamos num canto, nos deitamos numa cama, nos estendemos num divã com um romance nas mãos, nossa imaginação passa a trafegar o tempo todo entre o mundo daquele romance e o mundo no qual vivemos.” (p.56)

Orhan Pamuk tem uma visão bastante particular sobre literatura e sobre a profissão de escritor. Em A maleta do meu pai temos acesso a três discursos proferidos pelo autor: o primeiro, homônimo ao livro, marca o recebimento do Prêmio Nobel, o segundo a cerimônia de entrega do Friedenspreis de 2005 e o último a Conferência Puterbaugh sobre literatura mundial. São três momentos em que o autor, já bastante autobiográfico em suas obras, se abre para o ouvinte e para o leitor de uma maneira simples e emocionante.

O primeiro discurso é o mais carregado emocionalmente. Orhan Pamuk divide sua angústia ao receber do pai uma maleta com velhos escritos deste. Nos conta como se sentiu ao recebê-la, fala de seu medo que seu pai, tão diferente em temperamento, fosse um bom escritor, e do medo maior de ele ser um mau escritor. Refletindo sobre a maleta, acaba por voltar às origens e se lembra de sua decisão de deixar a pintura, de seu afinco solitário, de sua dependência da literatura. Ele aproveita um momento de felicidade para refletir como chegou lá, o que fez dele ser um escritor como ele é.

O discurso da cerimônia do Friedenspreis, proferido em Frankfurt, debate um assunto recorrente nas obras de Pamuk: a dicotomia Oriente/Ocidente, nesse caso exemplificado pela vivência do autor pelas ruas de Frankfurt e Kars (Turquia), durante a pesquisa para seu livro Neve, mas também de suas leituras, da invenção europeia do romance, do Orhan Pamuk leitor. É deste discurso que tirei o parágrafo que inicia esta resenha, uma das mais belas definições de ler um romance.

Já na Conferência de Puterbaugh, denominada “O autor implícito”, temos um discurso voltado para dentro. Pamuk nos abre as portas para suas pequenas manias, para o que faz em seu estúdio, para seu vício em literatura. É um retrato, finalmente, do Orhan Pamuk autor, numa reflexão sobre 30 anos de trabalho.

Esses três discursos, proferidos em datas e ocasiões distintas, se complementam perfeitamente. São um vislumbre do autor, uma bela conversa com este turco de coração dividido entre a tradição e o moderno, o oriental e o ocidental. É uma bela (e rápida) maneira de embarcar na obra deste que é, na minha opinião, um dos melhores escritores desta era.

A maleta do meu pai

Orhan Pamuk

Título Original: My father’s suitcase

Tradução: Sérgio Flaksman

96 Páginas

Preço Sugerido: R$ 35,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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