Noites das mil e uma noites (Naguib Mahfouz)

Naguib Mahfouz, egípcio, foi o primeiro escritor de língua árabe a ganhar um prêmio Nobel de literatura. Ao conceder o prêmio, em 1988, a Academia Sueca justificou dizendo que “por meio de obras sutis, ora abertamente realistas, ora evocativamente ambíguas, [o autor] criou uma arte narrativa em árabe que abarca toda a humanidade”. Noites das mil e uma noites, inspirado no clássico da literatura árabe, é um excelente exemplo desta justificativa.

A história se passa numa cidade islâmica não nomeada, e inicia-se na manhã em que Scherazade tem seu destino decretado pelo sultão, ao fim das 1001 noites. Por três anos a paz – superficial – reina no sultanato, e a perseguição às virgens, aos xiitas e aos karjitas é quase inexistente. Encantado e profundamente mudado pelas histórias de sua esposa, o sultão Shahriar decide deixá-la viver, para alegria de seu pai, o vizir Dandan e euforia do bairro onde a maioria dos personagens vive.

Mas nem tudo são rosas neste cenário, e por trás dessa euforia a corrupção reina em todos os níveis hierárquicos do bairro, desde o governador e o chefe  da guarda aos comerciantes mais abastados. Todos se beneficiam de uma rede de riquezas e trocas de favores ilícitos, botando em risco a frágil harmonia dos cidadãos. Eis que ali aparecem gênios (ou jinns) que colocam em teste o caráter e a força de vontade dos humanos. E as histórias de Scherazade começam a criar vida.

Cada história ou alegoria está recheada dos preceitos da fé muçulmana. Das lendas à sabedoria do sheik, à observação das orações e abluções diárias, e regras do Corão. Para nós ocidentais, além das lições de vida, uma bela lição de que o islamismo não é formado apenas por terroristas e mulheres submissas de burka, mas sim uma religião com bons preceitos, homens de fé, bons e maus, como em quase todas as outras organizações sociais. As tais lições de vida não são impostas, mas sugeridas com uma sutileza sublime, que atribuo a quase todos os escritos orientais que já li, e que está especialmente presente em “As Noites“.

A estrutura da obra lembra as histórias de “As 1001 noites”, com histórias de realismo fantástico e alegorias em que cada capítulo tem um personagem como protagonista. Naguib Mahfouz traduz a magia de djinns e feitiços e amuletos para um mundo cínico e empobrecido, no qual seres sobrenaturais não são facilmente aceitos como nos contos de fadas. Cada personagem vive uma alteração brusca de existência, alguns incentivados pelo sobrenatural, outros levados pelo curso dos acontecimentos, mas todos são diretamente responsáveis por seus próprios destinos.

Muitos desses personagens aparecem nas 1001 noites, como Shahriar, Scherazade, Nuredin, Aladim e Sindbad. Outros parecem saídos de suas histórias, como Ajar, o barbeiro, ou o louco. O autor toma extremo cuidado ao relatar uma trama com começo, meio e fim através de contos inter-relacionados. A história, no fim das contas, não pertence aos personagens, mas sim à cidade, ao bairro. É um livro que ocupa, com honra, seu lugar na bela coleção especial do Nobel, comemorativa dos 25 anos da editora Companhia das Letras.

NOITES DAS MIL E UMA NOITES (NAGUIB MAHFOUZ)

Título original:LAYALI ALF LELA (ARABIAN NIGHT AND DAYS)

Tradução: Neuza Neif Nabhan e Georges Fayez Khouri

308 Páginas

Coleção: Prêmio Nobel

Companhia das Letras

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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Uma resposta para Noites das mil e uma noites (Naguib Mahfouz)

  1. melissa disse:

    quem escreveu a historia as mil e uma noites

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