A pedra que cresce (Albert Camus)

Publicado em 1957 no livro “O Exílio e o Reino”, A pedra que cresce conta  a história do engenheiro d’Arrast, chamado a Iguape, pequena cidade litorânea em São Paulo, para ali construir uma represa. D’Arrast chega à cidade embaixo de chuva e em meio às comemorações do Bom Jesus de Iguape.

A visão do estrangeiro sobre os costumes de uma cidadezinha do interior, onde procissões católicas e terreiros de macumba convivem e se misturam, onde brancos, negros, mestiços, mulatos e japoneses são um só povo, que fala uma língua que ele não entende, é o foco da história.

Albert Camus visitou Iguape entre 5 e 7 de agosto de 1949. Ali chegou com seu amigo Oswald de Andrade, na festa religiosa do Bom Jesus do Iguape. Por um motivo não explicado, Camus é alojado no Hospital “Feliz Lembrança”, e ali conhece a história do Bom Jesus, estátua que, como tantos outros santos brasileiros, foi encontrado num curso de água (neste caso, o encontro entre o mar e o rio). Reza a lenda que esta estátua ficava mais leve ao rumar para Iguape e que a pedra onde foi lavada mantém seu tamanho original, não importa quantas lascas dela forem tiradas.

Camus se viu tão impressionado que transferiu esta experiência para a ficção. D’Arrast fica abismado com a diversidade cultural e física dos brasileiros. Acolhe com espanto os ritmos e as danças do candomblé, às quais participa quase involuntariamente. Se incomoda com o excesso de importância que os “notáveis” da cidade lhe conferem. Através de Socrate, conhece pessoas das camadas mais baixas da sociedade, entre eles um cozinheiro de navio que fez uma promessa por ter sido salvo de um naufrágio. E nos casebres dos pobres conhece a felicidade.

A pedra que cresce conta a história de um Brasil que as grandes metrópoles não veem. De um Brasil capaz de unir toda uma cidade numa comemoração religiosa; capaz de se orgulhar de sua diversidade cultural, de sua mistura étnica, de suas idiossincrasias. É também o relato de um estrangeiro sobre uma cultura considerada exótica, e se algumas vezes o texto usa termos hoje considerados racistas, o autor trata a cultura brasileira com bastante respeito, e até admiração, nos lembrando que não podemos julgar com as regras morais do século XXI um texto dos anos 50. O conto encanta pela simplicidade do relato, pelo francês incorreto que o autor empresta a seus personagens brasileiros, e por contar a história brasileira que muitos brasileiros desconhecem.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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