Barba Azul (Charles Perrault)

Um homem de muitas posses mas extremamente feio devido a sua barba azul pede uma das filhas da vizinha em casamento. As garotas hesitam diante da possibilidade de casar com Barba Azul, ainda mais sabendo que este já fora casado diversas vezes, e suas ex-esposas sumiram. Para reverter a hesitação, Barba Azul convida toda a família para uma temporada em uma de suas casas de campo. A visita é tão agradável que a filha mais nova resolve que a barba nem é tão azul assim. Logo após o casamento, Barba Azul sai em viagem de negócios, entregando à esposa todas as chaves de suas casas e bens terrenos, inclusive a chave de uma pequena sala, onde a esposa está proibida de entrar.

Tomada de curiosidade, a jovem esposa abre e entra no cômodo proibido, e lá encontra degoladas as antigas esposas de Barba Azul. Horrorizada pela cena, deixa cair a chave no chão coberto de sangue, e esta fica manchada, de maneira permanente, pois se trata de uma chave mágica. Para piorar a situação, Barba Azul retorna antes do esperado para a casa, e pede pelas chaves. Assim que descobre a traição da esposa, não vê outra saída, senão matá-la.  Ela é salva no último segundo, por seus irmãos militares.

Este foi um dos contos mais marcantes de minha infância. Charles Perrault escreveu seu livro de contos “Os contos da Mamãe Gansa” tanto para jovens quanto para senhoras, e sempre havia uma moral explícita. Este conto é direcionado às jovens senhoras casadas. Em uma época em que os casamentos eram arranjados, muitas vezes considerando as posses de um e o dote da outra, e muitas vezes mais os casais se conhecendo às vésperas da união conjugal, imagino que a imagem do Barba Azul não diferia muito do que as jovens noivas podiam esperar de seus noivos, homens mais velhos, de posses, mas nenhuma beleza, que poderia ser gentil, mas também um ogro.

E é o papel de Ogro o que Barba Azul possui neste conto.  Um sujeito solitário, que se casa e some com suas esposas, conhecido por sua crueldade. Ele representa o medo de casar, o mal, a implacabilidade do macho dominante. Por outro lado, a relação entre a jovem e Barba Azul começa de maneira harmoniosa. Ele lhe confia seus bens, oferece sua casa de campo para que a esposa possa se divertir enquanto ele viaja, convida seus amigos, enfim, dá toda a segurança e estrutura de um lar, sem suas limitações. A limitação se restringe a uma porta mas, a mulher é um bicho curioso, e a proibição logo vira tentação. E é só a partir do momento em que a jovem trai a confiança do marido que sua ira desperta.

A mensagem de obediência conjugal é bastante presente em todo o texto, mas a crueldade excessiva também é punida. Passa a ideia de um conto com um propósito, um ensinamento. Mas minha primeira leitura deste conto foi um tanto quanto traumática. Explico. Meu processo de leitura é bastante imaginativo, e criei desde nova uma facilidade em transformar textos em pequenos filmes mentais, recheados de detalhes. Lembro de me deparar com esta história ainda na infância, e a imagem da sala com as mulheres mortas me marcou demais. Passei anos em busca deste conto para relê-lo, mas a única coisa que me lembrava ela do chão forrado de sangue e das mulheres degoladas (e na minha imaginação enganchadas na parede) de uma pequena sala.

Foi uma grata surpresa descobrir o texto numa coletânea de Contos Popular es editada por  Flavio Moreira da Costa. Foi mais madura, lendo e relendo o texto, que comecei a perceber as várias mensagens nele inseridas, bem como o quanto da cultura da época (O conto foi publicado em 1697) transparece no texto. Há vários personagens históricos correlatos ao” Ogro” Barba Azul, um deles nosso conhecido Henrique VIII, aquele das seis esposas. O epíteto Barba Azul foi também utilizado para o Assassino em série Henri Désiré Landru, e ainda resta na minha memória o conto popular mais impressionante da história.

Anúncios

Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
Esse post foi publicado em Literatura, Resenhas e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s