Os Mortos (James Joyce)

Parte da coletânea “Dublinenses”, o “Os Mortos” é tido como símbolo de epifania. Ele parte de um acontecimento banal. Uma soirée anual da família Morkan, ou melhor, das Senhoritas Morkan. Uma festa de fim de ano bem planejada, com músicas, danças, e um jantar farto, o auge do entretenimento burguês. Apesar de contada em terceira pessoa, a história possui um ponto de vista principal, de Gabriel, sobrinho das anfitriãs. Literato, tido como culto, Gabriel sente-se superior aos demais participantes da festa e, como fica claro na preparação de seu tradicional discurso,

E tudo transcorre da maneira tradicional, com os chatos eventuais, o primo levemente bêbado, a prima academicista que toca uma peça desinteressante ao piano, os comentários normais, a nostalgia dos velhos, a despreocupação dos jovens. À parte uma rusga com uma velha amiga, tudo corre conforme o esperado por Gabriel. Conforme a noite cede lugar à manhã, os convidados se vão, mas uns poucos seguem  no salão, cantando velhas árias irlandesas. Gretta, a esposa de Gabriel, os ouve numa espécie de transe enquanto Gabriel está às voltas com os últimos convidados na sala dos casacos.

Gabriel ama sua esposa, admira-a, acha-a linda, e está extremamente desejoso dela quando chegam ao quarto do hotel onde estão hospedados.  Mas Gretta parece distante, abstraída, inquieta. Ao insistir sobre o motivo, Gabriel descobre, entre lágrimas da esposa, que a velha ária tocada ao fim da festa a lembra de um rapaz, morto, que teria sido seu primeiro amor. A revelação se dá como um baque, e faz Gabriel repensar seus últimos e seus próximos passos.

“Os Mortos” fala sobre a consciência da mortalidade. Nenhum dos protagonistas é jovem, e Gabriel, em especial, está em plena meia-idade. E essa para mim é a grande epifania do conto: a descrição do momento onde o homem descobre que vai morrer um dia.  James Joyce o fez com precisão, mesmo porque a maioria das epifanias decorrem de acontecimentos banais, à primeira vista. A festa, Joyce deixa claro, acontece todos os anos há vários anos. Os pratos servidos são sempre os mesmos, sempre as mesmas pessoas cortam as carnes. É o tipo da rotina que faz com que esqueçamos que as pessoas podem não estar mais lá no mês que vem.

Sua descrição dos acontecimentos leva o mesmo tom ordinário, comum. São pessoas reais, vivendo sua vidinha cotidiana, sem pensar muito em si e no futuro. Sem mesmo buscar conhecer melhor a pessoa do lado, tanto os estereótipos se arraigaram. O choque é grande quando algo nos faz perceber que tudo pode acabar um dia. De deixar a pessoa sem chão. James Joyce te envolve de tal maneira no cotidiano, que não se espera o choque quando ele chega. O leitor fica como Gabriel, sem chão, ciente da própria mortalidade e da mortalidade dos outros. Um conto a ser relido.

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Uma menina com histórias pra contar...
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