Crônicas do mundo ao revés (Flávio Aguiar)

Dos anos de repressão durante o regime militar às histórias de família durante a Revolta Federalista, As Crônicas do mundo ao revés tratam de temas difíceis. Trata-se de um livro curto, dividido em quatro partest Tempos difíceis, Palavras difíceis, Causos Difíceis e Histórias difíceis. Como o próprio autor adverte, a parte mais difícil é separar a realidade da ficção.

Com uma prosa de contador de causos, Flávio Aguiar usa vários recursos literários em sua obra. São diversos os narradores, e diversas as narrativas, e mesmo assim ele consegue uma coeão de estilo, que o faz transparecer pelos personagens.

Tempos Difíceis é a seção dedicada aos anos da ditadura militar.  São quatro contos/crônicas que tem a ditadura não como personagem, mas como pano de fundo. São histórias das milícias, dos caídos, pequenas fotografias do viver e ser jovem naquela época. Chamou-me a atenção  principalmente a história d”o jogo”, na qual um jogo de futebol de fim de semana se transforma em uma estratégia de dissimulação

Em Morituri te salutant vemos personagens humanamente agindo contra regras estabelecidas, regras estas estipuladas pela própria resistência. Pequenas infrações, só pelo instinto de desobedecer. E também, em “a confissão”, as sequelas de um regime de terror, levadas ao exilio, e expostas ao analista, numa história que dá o que pensar.

A segunda parte, Palavras Difíceis, é a minha preferida, e também a mais longa. É composta por seis crônicas, todas envolvendo palavras difíceis de dizer, de ouvir, de se entender ou de esquecer.  Aqui descobrie-se óbvio, como em “O ninho”,  compra-se a história de um objeto, em “Um espelho no deserto”, desfaz-se uma fantasia de infãncia, e uma carta de estilo claro de um famoso escritor liga as histórias de Qorpo Santo e Rubião.  Coisa para se levar horas pensando em página e meia de conto.

Causos Difíceis, a terceira parte do livro, deve fazer mais sentido para o gaúcho. O estilo rio grandense de contar causos está impresso em cada palavra, e esta é a seção talvez mais embrenhada de verdade e fantasia dentre as quatro. É a parte mais lúdica da obra, são histórias divertidas e curtinhas, muitas vezes sem final, como as histórias da vida. Aqui ele mistura História e estórias, fábulas familiares a acontecimentos reais, dando uma bela introdução à quarta parte:

Histórias Difíceis, que se inicia com “Ai de ti, 64”, uma história para mostrar os silêncios e as histórias malcontadas que permeiam a vida daqueles que viveram em regime de repressão, não só aqui, durante o regime militar, mas também nesta ditadura da mídia que vivemos hoje. As outras três histórias são a busca de Flávio Aguiar por suas origens, e são uma aula da história do Rio Grande do Sul e da formação da Alemanha.

Tudo isto envolto num belíssimo trabalho editorial da Boitempo, e capeados por imagens do artista plástico Gustav Klimt. Lembrando que esta primeira tiragem tem apenas 1.500 exemplares. Um livro a ser lido e relido, múltiplas vezes.

Título: Crônicas do mundo ao revés

Autor: Flavio Aguiar

Apresentação: Maria Rita Kehl

Orelha: Roniwalter Jatobá

Páginas: 141

Preço: R$ 30,00

Editora: Boitempo

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Boitempo Editorial

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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