A Gata Borralheira

É sempre difícil determinar o verdadeiro autor de um conto popular. Ainda mais difícil é determinar sua forma definitiva. A Gata Borralheira é um desses casos. Muitos tiveram seu primeiro contato com a história através da Disney. Outros conheceram a versão de Charles Perrault. Há ainda quem conheça a versão dos irmãos Grimm. Há mesmo uma versão que eu desconhecia, chamada Finette Cendron, escrita por Madame D’Aulnoy e outra escrita por Giambattista Basile, chamada Cenerentola.

Essas versões possuem similaridades que permitem dizer que se tratam da mesma história: Duas irmãs malvadas, que relegam a terceira às atividades domésticas sem nenhum luxo; Cinzas de lareira relacionadas ao dormitório da heroína que, suja e maltrapilha, ganha a alcunha de Borralheira (Cendrillon, Aschenputtel, Cendron) ; vestidos de ouro e prata, um sapatinho perdido, um príncipe apaixonado, um felizes para sempre. São estas semelhanças que nos levam a pensar numa história bastante mais antiga, cuja origem se perdeu. Sobram-nos os relatos de Perrault, Grimm, D’Aulnoy, Basile e tantas outras versões, uma mais interessante que a outra.

Comecemos por Perrault: Das três histórias é a mais curta, a que deixa mais para a imaginação do leitor. É também a única que li cujo sapatinho é de cristal. É talvez a versão usada como base da animação da Disney, com a carruagem-abóbora, os camundongos-cavalos, o rato-condutor e lagartos como lacaios. Tem também mais ar de conto de fadas, com uma madrinha querida e inteligente, que guia Cinderela aos braços do príncipe. Charles Perrault começou a escrever contos de fadas  já idoso, e seu livro, conhecido como Contos da Mamãe Gansa,  é na verdade um apanhado das histórias que ouvia de sua mãe e dos salões parisienses. Parece-me que é um conto adaptado às festas, feito para divertir senhoras. Sua versão de Cinderela (Cendrillon), data de 1697.

Os irmãos Grimm eram filólogos, advogados e colecionadores de contos populares. Seu livro de contos (que contou com 7 edições durante a vida dos autores, sendo a primeira em 1812 e a última em 1857), chamava-se Kinder- und Hausmärchen (Contos para crianças e para se ler em casa, numa tradução apressada). Sua versão de Cinderela (Aschenputtel) é a mais crua e violenta. Os elementos mágicos estão reduzidos, e o elemento sobrenatural que auxilia  a heroína é representado por uma árvore plantada no túmulo de sua mãe, e regada a lágrimas, além de vários pássaros. É nesta versão que as irmãs malvadas mutilam os pés para caber no sapatinho, e são brutalmente castigadas por sua maldade.

A terceira versão que li é uma variante, escrita por Madame D’Aulnoy, cujos contos de fadas foram publicados entre 1696 e 1699. Esta Cinderela (Finette Cendron) é uma de três filhas de um rei que perdeu seu reino. Após vender todos os seus bens, eles decidem abandonar as filhas à própria sorte. Envolve fada madrinha, um cavalo espanhol mágico, um castelo de ogros, e uma chave encantada. Apesar disso, é a que contém mais traços de verossimilhança. A linha narrativa é bem demarcada, e suas ações e reações precisas.

Cenerentola, a última versão que eu li, é também a publicação mais antiga. Datada de 1634, nesta história são seis as irmãs malvadas, as fadas presenteiam a heroína com uma árvore que realiza desejos, e as garotas são reunidas num baile, para uma cerimônia de testar o sapatinho. Neste caso, a garota vai parar na cozinha enquanto seu lugar é ocupado pelas meio-irmãs, filhas de uma governanta antes querida, que casou com seu pai em segundas núpcias. É também simples, e reflete bastante a oralidade do conto.

Cada uma tem um brilho próprio, suas idiossincrasias, mas o cerne é sempre o mesmo. Como na (antiga) brincadeira do telefone sem fio, cada versão tem elementos da versão anterior, unidos de maneira original. Convido o leitor a comparar as versões como eu fiz e, caso conheçam mais, mandar uma mensagem através dos comentários ou do fórum. Aproveite e acompanhe nossa discussão sobre a Gata Borralheira no nosso Clube de Leitura.

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Uma menina com histórias pra contar...
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