Sandman: Fábulas e Reflexões

Fábulas e Reflexões, assim como Terra dos Sonhos, é um interlúdio. Neste caso são reunidas histórias independentes, que servem como substrato para consolidarmos nossa imagem de Sandman e de sua participação na vida das pessoas. Ela reúne as revistas que na série original foram compiladas como ” Espelhos Distantes” e “Convergência“, além da Canção de Orpheus, originalmente publicada como um especial e Medo de Cair, originalmente publicada na Vertigo Preview.

As histórias de Espelhos Distantes tratam de reis, governantes e seus poderes, e levam o nome de meses em diferentes calendários: Três Setembros e um Janeiro, a partir do calendário gregoriano, Termidor, o 11º mês do calendário republicano, Agosto, também do calendário gregoriano, que correspondia à Sextilis, 6º mês do calendário romano, e Ramadã, o nono mês do calendário muçulmano. ((Fonte: http://fr.wikipedia.org/wiki/Fables_et_r%C3%A9flexions)).

Já as histórias de Convergência, A Caçada, Regiões Abstratas e O Parlamento das Gralhas, mostram lugares e situações onde a vida real e o sonho se misturam, se unem. Medo de Cair, que abre o livro é a primeira das várias reflexões sugeridas por Gaiman. A Canção de Orpheus é, por sua vez, a história central, o elo com a sequência da história de Sandman,

Na edição da Conrad, a primeira coisa que lemos é Medo de Cair (Vertigo Preview). Antes mesmo das apresentações e do sumário, nos deparamos com Todd, cuja peça está para estrear. Ele está a ponto de desistir de tudo, pelo medo. Neste ponto, Sandman intervém. É uma história curta, que traz em si dois dos maiores medos do homem. O de não conseguir o que quer, e o de consegui-lo. Uma primeira reflexão, que nos acompanha mesmo depois do volume fechado.

Continuamos com Três Setembros e um Janeiro (Sandman #31), que conta a história de Norton I, o primeiro e único imperador dos Estados Unidos. Neste caso, a história (real) de Norton é contada na perspectiva de uma aposta entre Sandman e três de suas irmãs mais novas: Desespero, Desejo e Delírio. Joshua Abraham Norton está desesperado. Perdeu tudo. A aposta é mantê-lo longe dos reinos das três irmãs. E então Sandman lhe dá um sonho. Atenção para a participação especial de Mark Twain, e na respeitabilidade da loucura de Norton. Como diz Delírio: ” Sua loucura o mantém são”.

Seguimos pensando na loucura para Termidor (Sandman #29), e caímos nos anos do Terror na Revolução Francesa. Reencontramos aqui Johanna Constantine, que recebe uma missão de Sandman. Salvar seu filho das mãos dos revoucionários, determinados a excluir a fantasia e a religião do mundo. Robespierre é um ditador idealista, usando as palavras de Gene Wolfe na apresentação do volume, e cai num paradoxo muitas vezes repetido na história da humanidade. Ao tentar destruir o passado, ele o reconstrói à sua maneira.

Deixamos os fatos históricos por um momento e chegamos em A Caçada (Sandman 38). AConvergência aqui é a história do Povo, que passa de avô para neta, e esbarra no ceticismo inerente à nossa geração. O avô conta sobre sonhos, Baba Yaga e outros folclores, enquanto busca a moça do amuleto. Construída como um conto de fadas, é uma história de amor, e de como às vezes é melhor que nossos desejos não sejam concedidos. Detalhe para a sutileza da inclusão do sobrenatural ma história, como se natural fosse.

Voltamos a olhar para um Espelho Distante, neste caso na Grécia Antiga. O Imperador Augusto, na companhia do anão Lício, disfarçados de mendigos, passam um dia em Atenas. Em Agosto (Sandman #30), Gaiman nos convida a refletir sobre Terminus (limites). Numa conversa franca, através da máscara de humildade, feita de sabão e vinagre, Augusto conta a Lício sua história, seus sonhos, e sua decisão.

Em Regiões Abstratas (Sandman #39), convergem-se num local onde o tempo e as dimensões se confundem, Marco Polo, Gilbert e Rustichello. Marco Polo, ainda um jovem explorador, se perde da caravana após uma tempestade de areia, e se vê numa das regiões abstratas, refúgio preferido de Gilbert/Fiddler’s Green. Rustichello ali chega através de um sonho. Ele está na prisão, escrevendo a história ditada por um Marco mais velho. Marco Polo representa nesta história a razão. Por sua descrição de mundos distantes e inacessíveis ele mata um pouco a fantasia, diminuindo a quantidade de regiões abstratas. È a diferença entre saber e imaginar.

Chegamos então a uma das mais conhecidas histórias da Grécia Antiga. A história de Orpheus, que foi atrás de seu amor até o mundo inferior e a perde por um gesto de desconfiança. Gaiman faz de Morpheus e Calíope os pais de Orpheus, e de tios os demais perpétuos. Em Orpheus (Sandman Special #1), para chegar ao reino de Perséfone e Hades, o protagonista deve pedir ajuda a seus tios, e visitá-los. Detalhe para o anacronismo da residência de Teleute (mais conhecida como Morte), numa demonstração de que o tempo é uma ilusão. È a história mais longa do volume, e também a que possui a maior participação dos Perpétuos. É também a história que possui a maior ligação com os acontecimentos da saga principal.

Convergimos então para o Sonhar em O Parlamento das Gralhas (Sandman #40), que retrata uma das visitas de Daniel ao reino de Sandman. Nesta visita, ele encontra as Casas dos Segredos e dos Mistérios, e três contadores de histórias: Eva, Caim e Abel. Como tributo ao visitante, cada um conta uma história, e assim sabemos sobre as três esposas de Adão, como Abel e Caim foram parar no Sonhar, e o mistério do parlamento das gralhas, e seu segredo. O destaque aqui é a dinâmica da relação entre os irmãos.

Enfim chegamos ao Ramadã (Sandman #50). Escrito e ilustrado como uma história árabe, Gaiman nos apresenta Harun al-Rashid, soberano de Bagdá em sua era de ouro. Nesta Bagdá, o ouro, a beleza e a fantasia convivem em harmonia, a cidade perfeita, na era perfeita. Harun tem medo de sua destruição, e pede que Sandman preserve sua memória.

E é assim que, mesclando fantasia à realidade, Gaiman nos deixa repletos de novos questionamentos, acerca da importância da fantasia e da loucura em nossas vidas, reflexões do que é a história, o que é a verdade, o que realmente buscamos. São como grandes koan, que os budistas usam para meditação.

Se você chegou agora, aproveite para ler sobre os volumes anteriores de Sandman:

Prelúdios e Noturnos

A Casa de Bonecas

Terra dos Sonhos

Estação das Brumas

Um Jogo de Você

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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6 respostas para Sandman: Fábulas e Reflexões

  1. Pingback: Sandman: Vidas Breves

  2. Pingback: Sandman – Fim dos Mundos

  3. Roberto Joaquim de Melo disse:

    Quando era jornaleiro não perdia um número de Sandmam, nunca uma história em quadrinhos me deixou tão intrigado, ou mesmo chocado quanto ela, mais do que o Senhor dos Sonhos, seus inimigos parecem reais demais, humanos demais, do tipo que voçê pode encontrar numa esquina dessas, para o bem ou para o mal.

  4. Ótimos comentários! Adoro Sandman

  5. Rafael Duarte dos Santos disse:

    Por favor, quais são as 3 esposas de Adão citadas na estória?

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