Trem fantasma para a Estrela do Oriente (Paul Theroux)

“Viajantes são considerados pessoas ousadas, mas nosso segredo indecoroso é que viajar é uma das formas mais preguiçosas do mundo de matar tempo. Viajar não se restringe apenas ao ócio inato, engloba ainda uma esmerada vadiagem escapista que possibilita chamar a atenção para nós mesmos por meio da ausência conspícua, enquanto nos intrometemos na vida alheia – uma atividade tão ultrajante quanto viver à custa dos outros. O viajante é o tipo mais ávido de voyeur romântico, e se oculta nas profundezas da sua personalidade, um nó cego formado por vaidade, presunção e mitomania que beira o patológico. Por isso o pior pesadelo do viajante não é a polícia secrete, o feiticeiro ou a malária, e sim a possibilidade de encontrar outro viajante” (Paul Theroux,  p.13).

“Trem Fantasma para a Estrela do Oriente” foi um livro pelo qual me apaixonei logo no primeiro parágrafo.  Já conhecia o estilo de Paul Theroux, ácido e reflexivo, de A Suíte Elefanta, mas foi só depois de ler este parágrafo que me dei conta. Eu não estava lendo um livro de ficção, e sim um relato de viagem. Em 1973, Paul Theroux viajou  pelo lado oriental do mundo durante 4 meses, e relatou o que viu em O Grande Bazar Ferroviário. Trinta e três anos depois, numa situação familiar completamente diferente, mais velho, mais sábio, o autor resolve pisar novamente na trilha de sua primeira viagem. Um ato de redenção.

O autor viaja com o mínimo de planejamento (alguns vistos, dinheiro), e sempre que possível por terra, de trem. Para ele é a melhor maneira de conhecer realmente o país visitado. Também evita os cartões postais. Prefere conhecer a cidade a pé, por si, ou com a ajuda de um local, alguém que lhe mostre o espírito do local. Paul Theroux também não gosta de relatos de viagem que não mostrem o desconforto e o feio. E viaja sempre sozinho.

Retomando a jornada, ele nos mostra o quanto o mundo mudou em 33 anos. Países e lugarejos antes inacessíveis abriram suas portas, enquanto conflitos em outros países impediram seu retorno. E nós, leitores, acompanhamos cada passo da jornada, sacolejamos em trens desconhecidos, conhecemos o que há de melhor e o que há de pior em países como a Romênia, a Turquia, Geórgia, Turcomenistão, Índia, Vietnã, Mianmar, entre tantos outros. O relato da viagem possui menos de 500 páginas, mas lê-lo toma tempo.

O tempo de absorver a quantidade de informações e impressões de cada local, de conhecer as personagens, de curtir a paisagem. O tempo que o autor levava nos trens, refletindo sobre o que vira. Theroux usa o reducionismo comum entre viajantes para descrever a localidade, e mesmo assim entrega um retrato instigante de suas paragens. Em algumas localidades, podemos ver o país pelos olhos de outros autores, Orhan Pamuk,  Baku, Orwell, Arthur C. Clarke e Murakami. Alguns são representados por livros, outros são visitados por Theroux, e cada encontro entre os escritores é memorável.

Mas não são apenas os encontros entre escritores que fazem deste um bom livro. Theroux tem a sensibilidade de trazer vida aos lugares pelos quais passa, através de suas pessoas. Algumas pessoas que conhece em suas andanças poderiam protagonizar romances, tão únicos seus relatos de vida. Outras foram claramente inspiração para personagens da obra de Theroux. Me emocionei com vários dos encontros, muitas vezes junto com o autor.

E embora seja um livro de viagens, não é uma leitura fácil. Ela esgota o leitor, física e emocionalmente. Nos abre os olhos para situações que talvez preferíssemos não ver, para a miséria de alguns, para  a riqueza conseguida às custas da pobreza em outros, para a beleza duramente conquistada em pós-guerras. Quase todas as localidades visitadas passaram por algum conflito armado, interno ou internacional. Por ser norte-americano, Theroux constata com tristeza a participação dos EUA em vários deles, se surpreendendo ao ser bem tratado e respeitado.

Atravessando como um fantasma quase toda a Ásia e boa parte do Leste Europeu, Paul Theroux nos mostra, finalmente, que,  apesar de todos os esforços ocidentais, há ainda pessoas e culturas muito diferentes espalhados pelo mundo, e que os lugares mudam. Nem sempre para melhor.

Trem fantasma para a Estrela do Oriente

Paul Theroux

Traduçã: Celso Nogueira

495 Páginas

Editora Objetiva

Preço Sugerido: R$ 59,90

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Objetiva

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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4 respostas para Trem fantasma para a Estrela do Oriente (Paul Theroux)

  1. jair disse:

    Olá. Não li este. Li Minha Outra Vida, uma viagem prazerosa pela literatura e pela vida. Gosto de Theroux.

  2. Kika disse:

    Vale a pena… tão bom quanto o romance que li

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