Sandman: Terra dos Sonhos

Depois de nos presentear com A Casa de Bonecas e quase sofrer um colapso nervoso, Sandm… ops, Neil Gaiman nos traz uma série de revistas “independentes”. Uma espécie de interlúdio entre dois arcos complexos e estruturados. Em suas próprias palavras ((numa carta a Kelley publicada junto com o roteiro de Calíope, disponível no final na edição de Terra dos Sonhos da Conrad)), vem o desabafo:

“Estamos fazendo uma série de histórias curtas, por umas quatro, cinco edições; quando estava terminando o arco A Casa de Bonecas, cheguei num ponto em que simplesmente não aguentava mais – um pouco porque não parava de  ter ideias para novas tramas que não podia incluir nos roteiros e também porque queria fazer algumas histórias independentes, das quais ficasse livre depois de 24 páginas.(…)”

Em retrospectiva, Terra dos Sonhos (Sandman #17-20) funcionou como um interlúdio entre A Casa de Bonecas e Estação das Brumas. Uma oportunidade de nos mostrar outras facetas de Sandman, auxiliando o leitor a conhecer melhor o personagem. Apesar de histórias independentes, Terra dos Sonhos possui uma linha narrativa única, a que liga o mundo das ideias ao mundo dos sonhos.

O “arco” se inicia com Calíope (Sandman #17), na qual um escritor cujo romance de estreia obteve muito sucesso, e desde então não conseguiu escrever mais nada. Em troca de um benzoar ele toma posse de uma das nove musas, Calíope, já abusada por seu antigo dono por um período de 60 anos. A partir de então, Ric Madoc (como passa a se chamar) conhece o luxo, a fama e o sucesso. Sua arrogância sobe à estratosfera , como vemos acontecer por aí. Calíope já foi esposa de Sandman, que então atendia pela alcunha de Oneiros ((esta história foi contada em Orpheus, do próprio Gaiman, e é bem linda)), e este, uma vez libertado de sua própria prisão, resolve auxiliar  a ex.

Ric Madoc, depois da intervenção de Sandman, é assombrado, inundado e afogado em ideias. São duas páginas de desvarios, alguns realmente bons, o que me leva a crer que Gaiman aproveitou a loucura do personagem para extravasar todas as ideias que não conseguira colocar em roteiros.  Uma história de arrogância e submissão, e uma oportunidade para Gaiman mostrar o quanto Sandman foi afetado durante seu período encarcerado.

Na sequência vem Um sonho de mil gatos (Sandman #18). Uma história bonita, que fascina gateiros de todo o mundo. Quando anoitece, obedecendo ao chamado de uma gata andarilha, os gatos da região se reúnem no cemitério. A andarilha tem uma história  para contar. A história de um sonho. Após perder seus filhotes por mãos humanas, ela visita o Sonhar, e troca palavras com seu soberano. É uma história de esperança e perseverança. Seu objetivo é fazer com que mil gatos sonhem com o mundo real, no qual os gatos são soberanos. Aqui fica claro que os sonhos não são uma prerrogativa humana. Gosto especialmente de ver Sandman tomando a forma do sonhador, como um Deus ao contrário.

Seguimos para Sonho de uma noite de verão (Sandman #19), que ganhou o prêmio literário World Fantasy Award.Nesta história, Gaiman resgata o encontro de Shakespeare e Sandman em Homens de Boa Fortuna (Sandman #13). Descobrimos aqui o acordo que fizeram. Shakespeare deve dedicar duas peças ao Sonhar, e Sonho de uma Noite de Verão é uma delas. Estamos no palco da pré-estreia, e o público é um tanto quanto inusitado. Os habitantes de Faerie, o reino de Titânia e Auberon. Mesclando o texto do Bardo às reações dos atores e do inusitado público, Gaiman cria uma história “verdadeira que nunca aconteceu”. O traço de Charles Vess complementa a história com perfeição, fazendo desta a minha história preferida do arco.

E finalmente encontramos Fachada, a história de Rainie Blackwell, a Mulher Elemental, personagem da DC Comics que teve sua primeira aparição em  1967. Em Fachada ela é uma mulher sozinha, aposentada por invalidez, com o rosto e o corpo mutilados e feitos de vários materiais. Seu único amigo é um agente da Companhia, a quem só conhece por telefone. Para as poucas vezes que sai de casa, Rainie cria máscaras de silicato e transforma os cabelos em fios de metal, mimetizando um rosto normal. Com o tempo,  os rostos endurecem e caem, mas Rainie não consegue descartá-los. Com traços extremamente sombrios, somos engalfinhados na solidão e no desespero dela, que só quer mesmo por um ponto final em tudo.

Seus lamentos são ouvidos pela irmã de Sandman, a Morte. O que se segue é um dos diálogos mais sensíveis e humanos de todo o arco.  A Morte tem um jeito todo especial de lidar com os vivos. Ela é cativante e compreensiva, e entende a dor de Rainie, e a consola. O final é sublime.

Você pode saber mais dos arcos anteriores aqui e aqui. Na semana que vem, o tópico será “Estação das Brumas“. Não perca!

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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3 respostas para Sandman: Terra dos Sonhos

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