Lendo Shakespeare no original – Parte I

Quando o Clube de Leitura do Rei Lear começou, eu tomei uma decisão: ler Shakespeare no original, pela primeira vez na vida. Mas não bastava ler em inglês. Tinha que ser a edição tirada do First Folio, mais conhecida por ser a primeira publicação das obras do Bardo, escrita em inglês elisabetano, e com todos os erros tipográficos originais.

Meu plano de ação era suficientemente simples, e um tanto megalomaníaco.

1ª fase: Imprimir o texto, ler com uma caneta na mão, marcando toda e qualquer palavra desconhecida, usando uma técnica de inglês instrumental aprendida nos tempos de colégio.

2ª fase: Acessar os dicionários para descobrir o que estas palavras significam e ler uma tradução para ver se entendi a história;

3ª fase: finalmente reler a peça.

E assim foi que, armada com uma edição quase pura de King Lear ((Download Grátis na Biblioteca Meia Palavra)), editada pela equipe do Project Gutenberg; um bom dicionário online; um Concise Oxford de papel  e a tradução do Millor, me lancei numa aventura. Pois ler King Lear no original elisabetano não é nada fácil.

Terminei há pouco a primeira fase do meu plano, adicionei algumas pesquisas em livros e na internet sobre o autor e seu tempo, mas ainda não me sinto segura para falar da Tragédia de Lear, de Gloucester, de Edgar e de Cordélia, ou falar das irmãs Regan e Goneril e discutir com propriedade o papel do Bastardo. Mas a experiência já vale a pena ser compartilhada. A começar pelas considerações sobre o idioma em si.

A invenção da imprensa e do serviço de correios, em fins do século XV e início do século XVI, deram início à padronização do idioma inglês. Isto quer dizer que já havia a intenção de padronizar o idioma nos tempos de Shakespeare, mas ainda não havia de fato um acordo ortográfico, com regras rígidas, como as que temos hoje. Shakespeare usou bem a maleabilidade da língua para seus propósitos; inventando vários termos que hoje nos são comuns – como por exemplo birthplace – e incluindo sufixos e prefixos às palavras, dando-lhes um ar mais “dramático”. Em resumo, Shakespeare fez pelo inglês o que Dante fez pelo italiano.

Mas ler algo escrito de maneira tão crua, sem respeitar a grafia das palavras, deixa o texto um tanto confuso para alguém que, como eu, aprendeu apenas o inglês contemporâneo. Várias vezes tive de tentar pronunciar a frase em voz alta, pra ver se entendia o que era dito. Nem mesmo as indicações dos personagens permanece a mesma do início ao fim. Como exemplos, Edmund às vezes é citado como Edmond, às vezes como Bastard; Gloucester é também chamado de Gloster e  Glouster, Cornwall às vezes vira Cornuall. Não ajudou o fato de a edição manter a tipografia original, na qual o “u” às vezes é “v” e vice-versa.

Outro aspecto interessante é a oralidade do texto. Li King Lear lembrando que a peça era encenada não só para nobres, mas também para o povão, e me surpreendi com o tom coloquial do texto. Pois sim, é uma peça de teatro, foi feita para ser lida em voz alta e conduzir seu público pela história. Mas é fácil esquecer disso ao se deparar com um texto de Shakespeare. O uso de pronomes como thee e thou, que estão hoje em desuso, assim como nosso tu e vós, nos leva a crer que o texto é formal, talvez em excesso.

Nos esquecemos de que a linguagem corrente na época usava tais pronomes com frequência. Shakespeare usa vários recursos que hoje seriam considerados gírias, para diferenciar seus personagens. Em King Lear há a mudança de discurso quando alguns personagens se disfarçam, ou quando falam a alguém de nível hierárquico superior ou inferior. Ele brinca com as palavras no discurso do Bobo (ou Foole, na versão que li), e nos ímpetos de loucura de Lear.

Sabemos também que Shakespeare escrevia suas peças conhecendo (e bem) quem interpretaria qual papel, o que me leva a conjecturar que ele incorporava vícios de linguagem e sotaques dos atores aos personagens, bem como trejeitos e características físicas dos mesmos. Penso ainda que ele aproveitava suas peças para fazer críticas à sociedade em que vivia, mesmo quando o fazia para agradar a rainha, usando a história como escudo.

E é assim, com uma ideia de Shakespeare completamente revista, que inicio a segunda fase de meu plano, que compartilharei num próximo post.

Enquanto isso, seguem algumas fontes consultadas durante a 1ª fase;

Shakespeare Online

William Shakespeare Elizabethan Dictionary

História da Língua Inglesa – by Ricardo Schutz

William Shakespeare e seus atos dramáticos – Andrew Donkin (Cia das Letras)

Biblioteca Meia Palavra

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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3 respostas para Lendo Shakespeare no original – Parte I

  1. Abel disse:

    Kika, embora não seja tradutor e leia pouco mais além do inglês contemporâneo, volta e meia atrevo-me a fazer traduções de poesias clássicas, por puro passatempo. Atrevi-me tempos atrás a fazer uma versão de parte do soneto 7 de “Astrophel and Stella”, de Sir Philip Sidney (escrita aí por volta dos anos 1580). Foi só um trecho – fazia parte de um certo “romance histórico” que comecei a escrever há mais de dez anos e que está parado desde 2007. Bom, mas vamos à tal quadra:

    “Quando a Natureza fez sua obra-prima – os olhos de STELLA
    De cor negra, porque envolveu-os de brilho tão efulgente ?
    Estaria ela em negro radiosa, ao modo dos pintores
    Quadro de primoroso esplendor, misto de sombras luzente ?”

    “Ou deveria ela seu miraculoso poder exibir ?
    Se por outro lado, negro parece ser o oposto da beleza
    Ela, mesmo em negro, pôs todas as belezas a fugir !”

    No original:

    “When Nature made her chief work, Stella’s eyes,
    In color black why wrapp’d she beams so bright?
    Would she in beamy black, like painter wise,
    Frame daintiest lustre, mix’d of shades and light? ”

    “Or would she her miraculous power show,
    That whereas black seems Beauty’s contrary,
    She even if black doth make all beauties flow? ”

    Sobre a questão da “beleza morena” (ou “black”), como eu escrevo no tal “romance histórico”:

    “A beleza feminina ideal – pelo menos do ponto de vista renascentista que ainda ecoava nos sonetos e romances em circulação pela Inglaterra elisabetana – era aquela da mulher loura. Ou talvez nem tanto assim, visto que a cabeleira ruiva de Sua Majestade também era considerada cavalheirescamente como o supra-sumo da beleza. Mas as diabólicas morenas, sendo o soneto de Sidney a exceção que confirmava a regra, pareciam estar relegadas efetivamente à sombra – e ao fogo do Inferno.”

  2. Julia disse:

    Olá,

    Sou simplesmente apaixonada por Shakespeare e gostaria de ler dois livros (meus prediletos) no inglês elisabetano, você sabe me informar onde eu posso comprar, não estou achando.

    Seriam eles:

    O mercador de Veneza.
    Troilo e Créssida.

    Se tu puder me ajudar eu agradeceria muito

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