História Regional da Infâmia (Juremir Machado da Silva)

Às vezes a expectativa que formamos sobre um livro estraga sua leitura. “História Regional da Infâmia” é escrito por um historiador e professor universitário, repleto de formações, e pretende desvendar a história por trás dos mitos criados de nossas revoluções, mormente a Revolução Farroupilha. O subtítulo “(ou como se produzem os imaginários)” foi um dos determinantes para minha escolha de leitura.

E, como uma leitora leiga de um livro acadêmico, eu esperava algo bem específico: Uma boa introdução contendo uma versão resumida do mito a ser destruído, uma sequencia lógica de fatos, uma linguagem mais séria e muitas citações dos 15.000 documentos que o autor e mais 10 pesquisadores leram, todos contemporâneos aos fatos.

O texto de Juremir não é em si um texto ruim mas, para mim, a história dividida em episódios soltos e sem uma cronologia definida, repleto de nomes e notações sem maiores explicações  (alguém me explica, por favor o que significa 7:123$000 e quanto isso valeria hoje?) contados na forma de causos é um tanto confusa.

Eu acredito que o público alvo da obra já conheça a história oficial em todos os seus detalhes, para acompanhar as múltiplas linhas de raciocínio e assuntos diversos contados em poucas páginas.

Quando leio um livro de não-ficção, principalmente relatos históricos, eu busco um autor neutro, que ampara todas as suas alegações em documentos ou estudos. O texto de Juremir é mais leve, mas ao mesmo tempo é recheado de ironias e sarcasmos amparados em documentos por vezes virulentos, por vezes de fontes parciais.

Suas maiores fontes de citação na obra não são os documentos da Coleção Varela, mas as palavras de dois historiadores. Um é o imperialista Tristão de Araripe, que fez sua obra baseando-se apenas em documentos do lado vencedor, o outro é Spencer Leitman que, americano, usa como principal fonte o mesmo Araripe. Quando cita um autor favorável aos “ideais” da Revolução, como Calvet Fagundes, só o faz para rebater suas afirmações.

Os textos da Coleção Varela são muitas vezes citados fora de contexto, sem data, e muitas vezes são cartas pessoais que mais lembram ataques verbais, de temperamentos alterados. Em alguns momentos do livro senti que, para corroborar um argumento próprio, ele acaba consolidando o entendimento que tentava rebater. Não ajudou eu ter implicado com sua maneira de escrever desde as primeiras páginas.

Mas minha antipatia foi levada ao extremo no capítulo “O que prova um carrapato?” No qual ele reputa o início da Revolução a uma praga de carrapatos e depois afirma: “Parece uma zombaria, mas é verdade. Esse é o ponto da discussão. Prova? O que prova que uma prova é uma boa prova?” (p.36) e segue explicando que provas pouco valem quando se trata de história.

Em outro momento, ele afirma que para contar a história da Revolução Farroupilha, o ideal seria fazer um romance histórico, com quatro linhas narrativas. Gostaria muito que ele tivesse seguido a própria sugestão, afinal, seu discurso é muito mais próprio de obras de ficção do que  de obras acadêmicas.

História Regional da Infâmia

Autor: Juremir Machado da Silva

Gênero: História

344 Páginas

Preço sugerido: R$ 48,00

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Uma menina com histórias pra contar...
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3 respostas para História Regional da Infâmia (Juremir Machado da Silva)

  1. Este tema me instiga. Depois de algumas pesquisas acabo de lançar de forma independente um romance intitulado “O Caminho da Bala”, que é ambientado na Porto Alegre de 1837, cercada e bombardeada pelos líderes farroupilhas. Diferentemente do Juremir, não busco uma revisão da história, quero apenas contá-la sob uma outra ótica, a dos portoalegrenses que não aderiram ao movimento épico riograndense. No romance utilizo-me de personagens reais, como o Major Marques de Souza, futuro Conde de Porto Alegre e libertador da cidade, do professor Coruja, erroneamente homenageado na cidade com a rua Comendador Coruja, Gaspar Menna Barreto, Libânio Pereira, Dr Landel, dentre outros. O personagem ficcional Antônio Madeira conduz a trama. “O Caminho da Bala” tem na Palavraria, Vasco da Gama, 165, e no blog carlosraimundopereira.blogspot.com, discorro sobre o assunto.

  2. Claudio de Leão Lemieszek disse:

    A obra do bom historiador Juremir Machado da Silva, História Regional da Infâmia é bastante interessante dando continuidade a discussão aberta pelo mestre Golin. O tema é rico para o debate.
    Contudo partilho do ponto de vista de KIKA, frente a erudição de Juremir esperava mais de sua obra. Deixando de lado questões ideológicas, supunha pelo menos maior rigor na indicação das fontes e não simplesmente citações genéricas que permeiam grande parte da obra (não raro refere determinado ponto como “fartamente documentado”. Onde!
    Igualmente penso também que a linguagem, em alguns momentos, inapropriada e comprometida pelos improperios do autor comprometem sua erudição, em seu bom livro que às vezes peca pela narrativa descontinada.

  3. Cezar disse:

    Mas afinal de contas, antes de ler o livro, há desqualificação da obra? Claro, pelo próprio tema ser controverso, espera-se que haja contrapontos contudo, pela crítica apresentada, não há provas documentais no livro dignas de registro histórico??? Ao que parece o autor foi tendencioso??

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