Passageiro do fim do dia (Rubens Figueiredo)

Não é para qualquer um. Essa é a primeira frase que me vem à cabeça quando penso em comentar sobre esse livro. Digo isso por vários motivos: A temática voltada ao lado feio das cidades, a falta de linearidade da história, a falta de uma história per se, com início meio e fim.

O Passageiro do fim do dia é um momento da vida de Pedro, um rapaz que possui uma loja de livros de segunda mão com seu amigo Júlio. Todo o texto se desenrola no trajeto do ônibus que o levará à casa de sua namorada, Rosane, num bairro chamado Tirol. O nome da cidade não é citado, e pode ser o subúrbio de qualquer grande cidade.A história é contada em “fluxo de consciência”, ou, melhor dizendo, fluxo de divagações. Nas 197 páginas da obra, conhecemos superficialmente a vida no Tirol, um pouco do bairro rival, a Várzea, um pouco do livro que Pedro lê, o dia-a-dia de Rosane, os passageiros do ônibus, os clientes do sebo, sem conhecermos mesmo muito de qualquer um deles. É mais um apanhado de causos, que nos permitem ter um retrato vago da vida de Pedro.

E por isso digo que não é para qualquer leitor. A obra exige do leitor um certo nível de abstração, para entrar de cabeça nos pensamentos do protagonista e não se irritar com suas idas e voltas. Demanda uma certa imaginação para transformar os fragmentos de texto no papel numa imagem completa, preenchendo suas lacunas. Pede ainda um estômago forte, para rebater a insensibilidade e frieza com que os acontecimentos mais cruéis são narrados.

Como a naturalidade com que Rosane fala da pobreza em seu bairro. O relato sem emoção do sogro sobre a doença que o tirou da vida ativa, a lembrança de seu próprio acidente. Como se tudo o que se passa não fosse nada além do normal.

E foi neste ponto que a história me pegou. Apesar de preferir obras com um enredo definido, e talvez pela proximidade com os acontecimentos no Rio, me peguei pensando em quantas vezes li notícias que deveriam chocar com uma espécie de desprezo, de naturalidade, que não deveria ser a regra. O tom neutro dos causos lembrados nas divagações de Pedro, ressaltaram a injustiça e o absurdo de certas situações, valendo por si só a leitura.

Passageiro do fim do dia
Rubens Figueiredo
200 Páginas
Preço Sugerido: R$ 39,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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3 respostas para Passageiro do fim do dia (Rubens Figueiredo)

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