Outras Cores – Orhan Pamuk

Orhan Pamuk garantiu seu lugar em minha estante por dois motivos: a declaração apaixonada de um amigo numa reunião de leitores e a própria leitura de seu romance “Neve”. “Outras Cores”, editado pela Companhia das Letras, no entanto, não é um romance. É uma coletânea de “Ensaios e um conto”, que garantem uma certa proximidade com o autor, com sua sensibilidade e  suas raízes.

É dividido em seis partes:  “Viver e preocupar-se”; “Livros e leituras” ; “Política, Europa e outros problemas de sermos quem somos”; “Meus livros são minha vida”, “Imagens e textos” e “Outras cidades, outras civilizações”. Ao final, encontramos também algumas entrevistas e discursos, mormente o discurso proferido quando o autor foi laureado com o Prêmio Nobel, intitulado “A maleta de meu pai”.

Viver e preocupar-se

Da rotina escolar de sua filha Rüya à sobrevivência a um terremoto em Istambul, “Viver e preocupar-se” é o lugar onde conhecemos um pouquinho mais de Orhan homem, do que ele pensa quando sozinho em casa em meio aos móveis, suas pequenas paranoias diárias, sobre como é viver numa cidade oriental e ocidental ao mesmo tempo, suas lembranças de infância.

Apesar de os textos não serem exatamente conexos, podemos perceber a sensibilidade do homem por trás de tantos romances de sucesso, do homem que faz justiça poética, onde seus desafetos na vida real dão traços aos vilões da ficção. E por nos contar um pouquinho de como funciona sua linha de pensamento, que memórias o construíram, a próxima seção é especialmente divertida:

Livros e leituras

Esta foi a seção do livro que mais acarretou anotações no meu caderninho. De maneira quase aforística, ele fala de como Dostoiévski, Nabokov, Kafka, Hugo, Camus e outros influenciaram sua juventude, sobre a beleza do romance, as diferentes leituras que dele podem ser feitas, as relações com a profissão de escritor. Desta parte do livro saem frases como:

“Carregar um livro no bolso ou na mala, especialmente em tempos de tristeza, é estar de posse de outro mundo, um mundo que pode trazer felicidade” – Leituras, palavras e imagens, p. 137

e,

“Todos os grandes romances abrem nossos olhos para coisas que já sabíamos, mas não aceitávamos, porque nenhum grande romance tinha aberto nossos olhos para elas.” – Prefácio de Tristram Shandy, p. 162

Suas impressões dessas leituras quando jovem, e a madura releitura após 20 ou 30 anos, bem como os olhar de fora sobre a cultura europeia, fizeram com que eu identificasse muito de suas influências no que ele escreve. Mas, suas verdadeiras influências estão no capítulo seguinte:

Política, Europa e outros problemas de sermos quem somos

“…porque a grande literatura não se dirige à nossa capacidade de julgamento, e sim à nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro” – Kars e Frankfurt, p.267

Um dos melhores ensaios desta seção, “Kars e Frankfurt” é uma longa reflexão sobre a experiência que Pamuk teve ao visitar os lugares que seriam palco da obra “Neve”. Ao (re)fazer os passos do herói Ka, Pamuk se depara com realidades tão distintas, que demonstram exatamente o que é viver numa cultura mista, oriental e ocidental ao mesmo tempo.

Este é o tema chave desta seção e, essencialmente, do livro todo. O dilema da Turquia, de se ocidentalizar ou orientalizar de vez, é a força motriz das obras de Pamuk, ainda que ele não queira. E esta questão nos é aberta com tal franqueza que o choque é inevitável. Saber que o autor sofreu um processo em seu país natal pelo fato de mencionar em uma entrevista sobre a questão armênia e curda, é apenas um dos exemplos disso.

Meus livros são minha vida

Tenho de admitir que esta seção do livro é muito mais interessante para quem já leu os livros de Pamuk, ao menos os que saíram por aqui. Não que o texto não seja bom per se, mas ligar as lembranças da leitura – muito prazerosa, diga-se de passagem – dos romances do autor às reminiscências e pequenos segredos de sua confecção, é muito melhor. Seja o cunho autobiográfico na personagem Ka, de Neve, a conexão entre a proximidade dos miniaturistas de “Meu nome é vermelho” à própria vontade que Pamuk tinha de ser pintor, obsessão que o acompanhou dos 7 aos 22 anos, as influências biográficas, literárias e ambientais de seus livros, tudo isso faz parte de “meus livros são minha vida”. Infelizmente, não é indicado para aqueles que não gostam de spoilers, bem como a seção “Livros e leituras”.

Imagens e textos

Mais uma seção melhor aproveitada para quem está familiarizado com a prosa de Pamuk, pois os textos que fazem parte deste subtítulo são claramente derivados de “Meu nome é vermelho” e dos anos em que o autor queria ser pintor. Orhan Pamuk é fluente nesta transição de imagens em palavras, em dar voz às personagens em suas figuras. É a única parte do livro ilustrada, e a grande pena está no fato de as imagens estarem em preto e branco. Mas talvez seja proposital, uma vez que a intenção declarada do autor seja usar a imaginação do leitor para ver as imagens apenas através das palavras. Comigo funcionou.

Outras cidades, outras civilizações

Um pouco como um caderno de viagens mesmo, esta é a seção que nós, brasileiros, podemos nos identificar bem. Por mais que façamos parte de uma cultura “ocidental”, a sensação de deslocamento e fascínio é a mesma, assim como questionamos o modelo, turcos como Orhan Pamuk também. Suas experiências em Nova York e Frankfurt, a análise de seu país “esquizofrênico”, e a capacidade de amar tanto a cultura ocidentalizada quanto a oriental, me tocaram profundamente.

O livro se encerra com um apanhado de entrevistas e discursos, e traz também o único conto, um tanto quanto autobiográfico e pungente, como todo o restante da obra. Após as quase 500 páginas, resta uma sensação de profunda familiaridade com o homem Orhan Pamuk, e a estranheza do mundo em que vive.

Outras Cores

Orhan Pamuk

Tradução: Berilo Vargas

480 páginas

Preço sugerido: R$ 57,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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