Entrevista com o Vampiro (Anne Rice)

Enquanto lia “Entrevista com o Vampiro” no ponto de ônibus, um colega me perguntou: “E então, esse livro é algo tipo Crepúsculo?”. Tudo bem, o rapaz é um tanto novo e talvez não soubesse que esta história precede, e muito, o sucesso de Stephenie Meyer. Só para constar, o livro é de 1976, e sua adaptação para o cinema, homônima, completa 15 anos em 11 de novembro deste ano, e conta com o roteiro da própria autora.

O que quer dizer que, quando o vi pela primeira vez, eu tinha mais ou menos a idade da minha irmã, entre 13 e 14 anos. Dirigido por Neil Jordan e produzido pela Geffen,  o filme “Entrevista com o Vampiro” foi conhecido entre as adolescentes da minha idade como  uma reunião de astros inaudita: Brad Pitt, Tom Cruise, Christian Slater e Antonio Banderas no elenco,  só por si valiam o ingresso do cinema, e saí apaixonada do cinema. E só agora, 15 anos depois, tomei a coragem de finalmente ler a obra que inspirou o filme.

Anne Rice estava na minha lista de livros “para ler” desde então, e não tenho desculpa para não tê-lo lido antes. Aproveitei esta nova onda de vampiros, lobisomens e seres sobrenaturais (Crepúsculo, Vampire Diaries, True Blood?), para enfim ter em casa todos os livros da autora. E foi essa onda que me inspirou a escrever este artigo.

Comecei com o já clássico “Entrevista”, e logo me vi listando as obras que beberam desta fonte. A versão que li é a tradução de 1977 de Clarice Lispector, e conta a história de Louis Pointe du Lac, um jovem fazendeiro da colônia francesa de Louisiana, possuidor de uma plantation bem sucedida em fins do século XVIII. Uma morte trágica faz com que Louis perca a vontade de viver, e se joga no mundo. Quem o encontra é Lestat que, atrás de suas riquezas mundanas, o transforma em vampiro. Esse é o início da história que Louis conta a um assustado repórter, a história da transformação de homem em monstro, recheada de digressões e divagações.

Do livro, o que mais gostei foi a voz que Anne Rice consegue dar a seu personagem. Quando comentava com alguém sobre o livro, principalmente quanto às digressões, nem uma vez disse: nossa, como Anne Rice é enrolada, e sim nossa, como Louis é enrolado!. E a sensação que tive foi a de que Louis era um gatinho novo.. que senta na sua frente e presta a maior atenção em você, até que passa uma borboleta. Até a metade me senti numa rede de histórias e divagações sem sentido, mas a história me pegou de jeito, e o final foi emocionante.

Assim que li a última frase, corri para minha DVDteca, com o intuito de ver o filme de novo. Lembrando, o roteiro do filme é também de Anne Rice, e estava bastante curiosa quanto às diferenças entre as tramas. Eis o que me pareceu:

Além dos cortes mais comuns – Louis (Brad Pitt) não pode divagar tanto num filme de 2 horas quanto num livro de 300 páginas – em minha opinião, a maior parte das adaptações ocorreu para não chocar tanto o público americano WASP. A ver, usaram uma Cláudia (Kirsten Dunst) mais velha, talvez pela intensidade necessária para viver tal personagem; reduziram o tom sensual/sexual do livro, bem como suavizaram a natureza bissexual dos vampiros; sumiram com o lado humano de Lestat (Tom Cruise), que no livro é representada por seu pai vivo, bem como sua participação em outra cena chave do filme, que é melhor não colocar aqui para não estragar (ainda mais) a experiência de quem ainda não viu/leu a obra.

Outra coisa que notei foi o tom menos pessoal dado ao filme. No livro vemos um Louis eviscerado, totalmente exposto, bem como suas opiniões sobre as personagens. Já o filme, apesar de narrado pelo vampiro, deixa entrever outras facetas das mesmas, algumas vezes não abordadas no livro. Anne Rice também estica um pouco a história temporalmente, para se adequar ao ano de lançamento do filme, mantendo sua coerência quanto à personalidade de Louis. Mas vemos um Lestat menos radical, uma Cláudia mais perversa, um Armand mais apaixonado, detalhes que Louis, toldado por suas emoções e dores, pode não ter percebido a tempo.

De toda forma, mesmo 15 ou 30 anos depois do filme e do livro, ambos são obras relevantes, clássicos do cinema e da literatura, ainda que de entretenimento, que merecem uma atenção maior de todos os novos fãs do sobrenatural.

Livro:

Entrevista com o Vampiro

Autora: Anne Rice

Tradução: Clarice Lispector

334 Páginas

Ano 1976

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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4 respostas para Entrevista com o Vampiro (Anne Rice)

  1. Anica disse:

    eu gosto de entrevista com o vampiro, mas não suporto os que vieram a seguir, hehe. gostei de ler o post, bateu uma baita nostalgia. eitcha a adolescência s2

  2. Juliana Miriane disse:

    Oi, gostei mt de sua resenha, concordo com o que você disse sobre o filme ser mais suave em comparação ao livro. Acho que depois de Bram Stoker, Anne Rice tratou o tema sobrenatural como ninguem. Realmente é um livro denso, para ser degustado, apreciado…não sei se os leitores geração crepusculo estão preparados para isso.

  3. Glaucia disse:

    Também está na minha lista “pra ler”… Acho que vou passá-lo na frente (:

  4. Cristine Hinder disse:

    Adorei o artigo. Obviamente os filmes são suavizados, assim como Rainha dos Condenados não foi fiel ao livro, porque iria chocar a população. Apenas uma coisa me entristeceu… Não acho Louis enrolado. Amei o personagem e o que você trata por “digressão”, para mim, foram perfeitas e agradáveis reflexões sobre a vida. Você leu a tradução de Clarice Lispector, que foi maravilhosa na obra, naturalmente sensível e dada à descrição de sensações intensas. Leia uma segunda vez, se apaixone por essas reflexões, pois elas estão em todos nós. Beijos.

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