Eu vos abraço, Milhões (Moacyr Scliar)

Não é a primeira vez que me surpreendo com a prosa de Moacyr Scliar. Ainda este ano li “A mulher que escreveu a Bíblia”, um livro curto, simples mas não simplista. Foi por este livro que não hesitei ante à possibilidade de ler este lançamento da Companhia das Letras. “Eu vos abraço, Milhões” é uma citação de um poema de Friedrich Schiller, e permeia a obra, ainda que sutilmente,

“Eu vos abraço, Milhões” é uma longa carta, escrita pelo avô e personagem principal, Valdo, para seu neto que mora nos Estados Unidos. Atendendo a um pedido deste, Valdo resolve relatar a própria vida, iniciando por sua infância humilde como filho de capataz numa fazenda. O jovem Valdo era um aluno esforçado e interessado, que descobriu seu amor pelos livros através de sua professora, principalmente Machado de Assis. Mas um encontro constrangedor entre seu pai e o fazendeiro, junto a um encontro casual com o filho da professora, Geninho, aliado a uma pergunta mais casual ainda: “O que você está lendo”, mudaram sua vida.

Pois Geninho lia “O Manifesto Comunista”, cujas ideias revolucionárias atingiram em cheio o coração do menino Valdo que, futuramente, por conta de uma promessa, iria ao Rio de Janeiro, conhecer o chefe do Partido Comunista no Brasil: Astrojildo Pereira. Sua aventura inicia ainda no trem, e culmina com sua participação na construção de um símbolo reacionário, do “ópio do povo”: o Cristo Redentor. Mais que isso não posso contar.

Valdo vive em uma luta constante entre seus ideais e suas atitudes, e é bem franco quanto a isso ao contar episódios de sua vida a seu neto. Sua juventude, ambientada entre os anos 20 e 30, acontece numa época de turbulências, com a caminhada de Prestes, república do Café com Leite, o Crash da Bolsa, e as reminiscências das revoltas populares brasileiras, como Canudos, a revolta da Chibata, e internacionais, comoa Revolução Russa de 1917 e da Primeira Grande Guerra. O próprio Valdo parece predestinado, pois nasceu no aniversário da Revolução Farroupilha, em 20 de setembro.

O pano de fundo construído por Scliar é fabuloso ao incluir, aqui e ali, relações entre as personagens e esses acontecimentos, e a eventos em livros, inclusive: referências que devem agradar a todo bom leitor brasuca. O neto de Valdo, e consequentemente nós, leitores, temos uma visão daqueles dias bem consistente, e ao mesmo tempo vaga, uma vez que vistas dos olhos de um jovem operário. Conspirações, mulheres e livros parecem rondar a sua vida, mas nos lembramos de nossas vidas assim, como se fôssemos o centro dos acontecimentos.

Este livro vem em boa época, próximo às eleições, para nos fazer parar e pensar, o que vamos fazer do nosso futuro, com as nossas decisões. E é mais uma grande prova de que a Literatura Brasileira ainda produz bons – ótimos – livros.

Eu vos abraço, Milhões
Moacyr Scliar
256 Páginas
Companhia das Letras
ISBN 9788535917390
Preço sugerido: R$39,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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