Coleção de areia (Ítalo Calvino)

Comecei a ler Calvino pelo fim. Este foi seu último livro, lançado originalmente em 1984, como uma coletânea de crônicas e artigos para os jornais La Repubblica, Corriere della Sera, além de alguns comentários orais e artigos até então inéditos.  Os assuntos tratados são diversos, uma eclética coletânea sobre a cultura.

A subdivisão em quatro partes: 1: Exposições, Explorações; 2: O raio do olhar; 3. Relatos do Fantástico e 4: A forma do tempo, nos dão uma pequena ideia do tesouro escondido nessas parcas 232 páginas nas quais contamos 38 curtos textos, cada um uma pequena pérola.

O primeiro artigo, que deu nome ao livro, realmente dá o tom para a obra. No que parece uma simples, embora curiosa,  exposição de coleções , Calvino encontra a coleção de alguém que juntou um punhadinho de areia de vários lugares do mundo e as colocou em pequenas ampolas, cada uma especial de uma maneira, como um singelo diário de viagens, uma autobiografia calcárea.

Uma das passagens mais interessantes do livro é a crônica “Um romance dentro de um quadro”, que disseca a obra  A Liberdade guiando o povo, de Delacroix, e que eu li na frente do lap, com a imagem do meu lado,. Neste artigo,  Calvino nos leva a perceber cada detalhe da pintura, num transporte para a época em que Delacroix viveu, dá vida a personagens que antes me pareciam apenas cenário. Coisa parecida acontece na “narrativa da Coluna de Trajano”, cujos desenhos e inscrições nos levam À Grécia Antiga, ao mesmo tempo que denota a perplexidade do autor com o cuidado dos artistas gregos, numa coluna virtualmente inalcançável sem a ajuda de andaimes e tapumes.

E o que dizer sobre a influência do conhecimento sobre a ciência por trás da visão nas obras de arte, que Calvino nos apresenta em sua crônica “A luz dos olhos”? Nele, aprendemos que a forma como a visão é e foi concebida está registrada nas pinturas através do tempo, uma crônica de como conceitos se traduzemem imagens, e leva a crer que há muito mais dentro de uma obra de arte do que supunham meus pobres olhos.

O sentido da visão é ainda explorado em “A velha senhora de quimono violeta”, que junta a bela visão das tradições japonesas, junto à vontade do autor em dissecar o que estava vendo, sem sucesso. O não entender aqui é o mote, uma forma de dizer, nossos sentidos são culturalmente desviados, não conseguem discernir corretamente tudo o que veem, possua um espaço para a não compreensão, e maravilhe-se.

E foi assim que senti este livro, como um relato de viagens, reais como nas exposições de Paris, ou imaginárias, quando fala dos livros que leu. É como se víssemos aquela obra, aqueles baixo-relevos, aquele mirhab através de seus olhos;  ou apenas uma singela, mas única coleção de selos, tudo isso com todo o encanto proporcionado pela visão, que neste livro foi fielmente traduzida em palavras.

Com Calvino conheci alguns dos museus de Paris, colunas gregas, jardins japoneses, três fantásticos autômatos, árvores mexicanas. Com ele passeei através de cenas do cotidiano de lugares que não conheço, com o mesmo espanto reverente. Com ele sondei as maravilhas de descobrir algo novo, de viajar através de mapas. Calvino ainda me ensinou a abrir os olhos para o prosaico, o comum, e para a história que pode se esconder por trás.

Ítalo Calvino
Tradução: Maurício Santana Dias
232 páginas
Preço sugerido: R$39,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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3 respostas para Coleção de areia (Ítalo Calvino)

  1. Lucas_Deschain disse:

    Achei no mínimo pitoresco, quanto a dissecar os quadros e entender a história que existe por trás de qualquer produção artística, creio ser algo que falta as pessoas para que elas possam apreciar arte. Às vezes o sentido mais interessante é aquele subjacente.
    Fiquei bem curioso!

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