A sombra da Guilhotina (Hilary Mantel)

09279341Antes de começar, uma confissão: A Revolução Francesa é um assunto que me fascina desde as primeiras páginas das “Memórias de um médico”, de Alexandre Dumas. Uma febre revolucionária se seguiu, e li Michelet, Rousseau, Voltaire, reportagens, fiz minha pequena coleção de obras sobre o tema, que inclui um belo dicionário de mais de mil páginas, e a edição comemorativa de 200 anos bilíngue, editada pela CAIXA, que possui entre outras imagens, a da partitura original da Marselhesa. É vício.

“A sombra da guilhotina” foi um livro que me seduziu pela capa – o belissimo quadro (a Tomada da Bastilha de Jean Pierre Houël)1, somado ao epíteto provocativo de “O mais perfeito romance já escrito sobre a Revolução Francesa”, e o calhamaço de 784 páginas fizeram meus olhinhos brilharem quando vi na livraria. Não resisti à vontade de conferir se a obra de Hilary Mantel suplantaria mesmo qualquer outra que eu tivesse lido. Eis o que se seguiu.

Logo no prefácio, descobri que a obra se baseia em relatos, cartas e outros documentos históricos, e que “se algo parece particularmente inverossímil, é verdadeiro”, e que a autora me traria a Revolução Francesa através dos olhos de três de seus grandes personagens: Camille Desmoulins, Georges-Jacques Danton e Maximilien Robespierre. Três personalidades fortes e muito diferentes entre si, que se tornaram amigos e peças chaves no xadrez revolucionário.

E é através desses três pares de olhos que vemos as várias manifestações populares, a formação dos Estados Gerais, a queda da Bastilha, o dia do Jeu de Paume, a prisão da família real em Varennes, a Assembleia, a Convenção, a formação de Comitês e o Terror. Somos invadidos pelos cheiros da cidade, pelos caminhos tortuosos da mente humana, pela paranoia do poder e imersos num período de mudanças bruscas, que nos legaram coisas como o sistema métrico e a nossa noção de política – esquerda e direita, bem como o atual hino da França, sua bandeira,sua divisa, e a Declaração Universal do Direito dos Homens.

Afinal, esta é a Revolução da qual participaram Chordelos de Laclos (de As Ligações Perigosas), Sade e Jacques-Louis David. A Revolução em que as mulheres tiveram uma participação decisiva, que rompeu vários paradigmas, e mudou a forma como vemos o mundo. Que impressiona pela juventude de seus participantes, e por seu envelhecimento precoce.

As disparidades entre as personagens, seus estilos, as mudanças de ventos nesses anos frágeis são traduzidas nas diversas formas de narrativa adotadas. Ora epistolar, ora teatral, ora em primeira pessoa, ora em terceira, a maneira de escrever de Hilary Mantel é genial. É assim que ela te convida a conhecer o teatral Mirabeau, o tímido Robespierre, o gago Desmoulins, a presença de espírito de Danton, o veio revolucionário de Lucile, o cinismo de Laclos, a maleabilidade de Phillippe d’Órléans ou mesmo o peçonhento Saint-Just.

Como em toda trama bem construída, o maniqueísmo fica de lado, e não há realmente um lado certo ou superior às paixões humanas. Há, sim, pessoas, com todas suas qualidades e falhas, acentuadas pelo olhar do próximo.

É um livro a ser saboreado, degustado em pequenas doses, dando o valor merecido a cada detalhe, a cada informação aparentemente jogada, que fazem parte do enorme mosaico que é este retrato da Revolução, que me fascina, me enoja, me emociona, me enche de raiva e comiseração, me dá vontade de pular no pescoço de uns, e chorar a sorte de muitos.
Pode até não ser o mais perfeito romance sobre o tema, mas chega perto. Garantiu seu lugar de honra na minha mini-biblioteca revolucionária.

COMENTE ESTE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA

1.Aviso aos navegantes: todos os links desse post são referências visuais dos personagens em questão. Me foi muito útil durante a leitura

Anúncios

Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
Esse post foi publicado em Resenhas e marcado , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para A sombra da Guilhotina (Hilary Mantel)

  1. Godinho disse:

    Excelente crítica. Havia planejado ler esse livro mais adiante e agora tenho um material interessante para me preparar. Estou interessado em estudar a Revolução Francesa e ela deve ajudar bastante. Antes ainda vou ler o novo dela, Wolf Hall. Mas eu chego lá.
    Abraços,
    Godinho

  2. Pingback: Meia Palavra » Blog Archive » A sombra da Guilhotina (Hilary Mantel)

  3. Pingback: Meia Palavra » Blog Archive » Melhor Leitura de 2010 – Parte II

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s