Todo escritor é RPGista

rpg1Antes de começar, um aviso. Este post baseia-se unica e exclusivamente em minha opinião, como RPGista, leitora e escritora eventual.

Pensem comigo. Qual a primeira coisa que um jogador de RPG deve fazer? Montar um personagem. Ele tem a ajuda de uma ficha, para não esquecer nenhuma característica importante ou especial. Ele possui listas – e livros, vários livros – onde escolher atributos, poderes, armas, roupas, e até altura e raça. Tudo isso ele faz pensando em como encaixar seu personagem à história que o mestre montou e ao grupo com o qual vai jogar. É um trabalho de análise. Leva horas, às vezes até dias, para transformar aquela ficha cheia de números num personagem coerente. E é um exercício de criatividade, que indico para todos que querem escrever.Seu personagem de jogo ganha vida própria conforme este prossegue. Cada encontro o leva a ter uma reação conforme sua personalidade, montada com aqueles números no papel. E a cada sessão essas características ficam mais fortes, e o grupo mais coeso. Logo, o grupo de aventureiros (ou de vampiros, lobisomens, anjos, demônios, punks, androides e etc) sabe como puxar o botão daquele personagem, seus gostos, desgostos, reações, pontos fortes e pontos fracos, e ele vai se separando da personalidade do autor.

E é por isso que conversa de RPGistas costuma não fazer sentido para pessoas “normais”. Os jogadores já conhecem o personagem tão a fundo, que começam a contar as histórias dele em primeira pessoa, o que gera algumas frases, que, se captadas num ônibus lotado, faz com que pareçam loucos, algo como isso:

_ Daí a gente passou horas tentando matar aquele dragão…

_ eu acertei aquela flecha bem no meio da testa do Lych, e ele nada, nem dano tomou..

_ E arrebentaram a porta do meu apartamento, fiz da porta uma prateleira. Quero ver o vampiro arrebentar a porta de novo..

_ …Daí eu peguei aquele lobisomem, mas ele entrou na forma Crinus e quase acabou comigo

_ E ela mandou o demônio se danar! Um demônio!!! E ela tinha força 1, é louca…

_ Eu lembro do Sir William, que morreu por causa do dado mata-player…

O escritor também é, em essência, um RPGista. RPG, para quem ainda não sabe, significa Role Playing Game – ou o jogo de interpretação de papéis. Um escritor começa com uma vaga ideia de como serão suas personagens, e em que mundo elas viverão. A cada parágrafo, aqueles traços vagos tomam forma, criam feições próprias, tem até ações inesperadas. Não raro, vemos em entrevistas os escritores falando de seus personagens como filhos, tão palpáveis e complexos como estes. Pela cabeça do escritor passa cada suspiro, cada nuance do rosto, cada característica, como ele reagiria a cada tipo de estímulo, muito disso nem fazendo parte do livro no qual se insere.

Exatamente como acontece com o personagem do jogo. O jogador sabe, quase instintivamente, cada nuance daquele ser que só existe no papel – ou numa miniatura – como ele reage em situações de stress, como se comporta à noite sozinho, de onde veio, quais seus objetivos na vida. Por mais que seus acertos dependam muito de sorte, afinal quase tudo que ele faz depende dos dados, eles sabem como reagiriam.

A maior diferença, acredito, é o fato do escritor ser ao mesmo tempo jogador e mestre. Tudo sai por conta dele. Os livros guia, de características, são as pesquisas que ele faz para montar o personagem, os livros que o autor leu, as suas experiências de vida, os filmes que viu, cada jantar de família. A ficha cheia de números é o perfil que ele se obriga a montar, nem que seja para responder perguntas de jornalistas. O mundo, pode ser algo pré-estabelecido, ou algo totalmente novo, e quanto mais passa o tempo, mais real a história se torna… E o escritor se pega vivendo a vida de um personagem, sendo levado por ele, sem muito controle do que faz.

E é por isso que acredito nesta frase do início… Todo escritor é RPGista…

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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Uma resposta para Todo escritor é RPGista

  1. Luís Henrique Rodovalho disse:

    Infelizmente, quando eu jogava RPG os jogadores estavam mais interessados em montar fichas com os melhores números possíveis e ficar jogando dados pra ver quem tinha mais sorte. Pensei que os MMORPGs me proporcionariam boas sessões, mas ficou ainda pior. Esses jogadores não interpretam nada e só se interessam por efeitos luminosos e números de dano. RPG sem role-play não tem graça.

    E RPGista falando no meio da rua é coisa do demo!

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