O órfão de Hitler (Paul Dowswell)

041_orfao_de_hitlerA primeira vez que nos encontramos com Piotr Bruck, um órfão polonês no início da adolescência, sua situação é lamentável. Com as roupas entre os braços, em uma fila sob o exame crítico de médicos e soldados da SS, sua maior preocupação é por qual porta passará após o escrutínio.

Acompanhamos com certo espanto e descrença, o jovem Piotr ter as feições medidas, a cor da pele, dos olhos e do cabelo comparada a tabelas até ser designado para a sala, acredita ele, certa. Ele foi considerado um ser da mais nobre estirpe ariana. O ariano nórdico.

Agente em seu destino, o personagem é apresentado para nós nu, e nu permanece no decorrer do romance. Vemos sua fascinação com a cultura nazista, a cidade grande e virtualmente intocada de Berlim, os experimentos científicos de seu pai adotivo. Piotr se torna Pieter, é proibido de falar polonês,e passa a fazer parte da Juventude Hitlerista, assim como suas três irmãs adotivas.

Através do cotidiano desta família conseguimos perceber o quão impregnados eram os preconceitos nazistas na sociedade alemã. Baseados em propaganda política e na pseudo-ciência, jornais e publicações de respeito discriminavam raças e comportamentos, e muitos alemães acreditavam piamente no que sabiam. Rádios como a BBC, mesmo em alemão, eram consideradas subversivas, assim como o Jazz e qualquer outra música introduzida pelos “mestiços” ianques.

Acompanhamos o crescimento de Pieter nessa sociedade, e seu despertar para o horror das práticas nazistas. Passamos por cenas de loucura, negação, paranoia que nos soam absurdos nos dias de hoje. Seu amadurecimento, descrito de maneira realista e até um tanto incômoda, é catalisado pela descoberta de seu primeiro amor, e da convivência com pessoas menos de “100% hitleristas”.

A minúcia dos ritos do 3º Reich como o hasteamento da bandeira nazista, uso de um vocabulário e saudações específicos, uma maneira correta de vestir, de usar o cabelo, de músicas e rádios a serem ouvidas me lembrou a minúcia dos inquisidores, ditadores e moralistas, numa tentativa desesperada de manter um poder ilusório, sustentado pelo medo.

Este livro, que devorei em menos de 3 dias, é um convite explícito à reflexão, e nos deixa perplexos com a sutileza da manipulação de uma sociedade por meio da divulgação da “legitimação” científica de preconceitos, com base em pesquisas tendenciosas e infrutíferas. Recomendo, e muito.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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